Amanhã submerso

SCROLL

A realidade existia, tinha já sido formada, mas a imagem que lhe correspondia, a verdadeira, só seria escrita na impressão do primeiro encontro. Uma rua, o caminho errado, o regresso. Depois, tudo se apaga. Um mundo novo. A voz, o olhar, os passos. Para se voltar a escrever. A imagem que se risca, assim que é vista. Com novos nódulos, novas cores, novas fórmulas. Até chegar a autoridade e tomar conta da ocorrência. Mas foi assim que aconteceu. Não há a menor dúvida.* 


Eu explico. O Sol já tinha caído e às sete e meia estava numa casa de banho pública, a aliviar-me. Não é que isso tenha valor, mas foi o que disse à Polícia – esses burocratas – quando me questionaram. Claro, substituí as palavras por outras. Disse-lhes: “Estava a urinar!”, ou um termo mais corriqueiro com todas as letras. Foi isso que me saiu da boca. É incrível a pontaria que às vezes têm para estas coisas, os detectives. Mas é verdade, olhei para o relógio, antes ou depois de lavar as mãos, e lá estavam as sete e meia a passar, ainda me lembro de olhar para o espelho e achar que não estava com boa cara.

Gostava de ser sempre assim, pontual, como as horas, sempre com a mesma quantidade de minutos. “Foi na casa de banho de uma livraria”, foi o que lhes disse mais. Descem-se dois ou três lanços de escadas e entra-se numa porta à esquerda, Estava uma fila de mulheres e um homem à espera. E eu perguntei ao homem se ele estava ali a demorar-se por algum motivo, se estava à minha frente ou não. “Ele é a minha única testemunha de que eu estava lá a essa hora”, dissertei eu aos olhos do agente que me olhava na ponta de uma esferográfica. Mas ele era estrangeiro, espanhol, catalão, basco, qualquer coisa. Para o descobrir vai ser lixado. “É de todo impossível encontrá-lo!”, resmunguei, “era turista”. E se o encontrassem tenho a certeza não conseguiria lembrar-se que seriam sete e meia quando eu passei por ele e me enfiei na porta à sua frente. “Rosto largo, bolachudo, óculos e uma barba rala, era o que lhe compunha a face”. E não importa. Não importa mesmo nada. Nem ele nem o que eu estava a fazer nesse momento, com a noite quase a entrar.

Eles queriam à força que eu criasse um álibi. Queriam à força ir para casa e acabar com aquela história, dizer que tinha sido “morte instantânea” ou assim. Mas eu não estava para inventar, estava ali para dizer a verdade, toda e somente a verdade, nem mais uma letra. É, o juramento tinha sido feito, como nos filmes, podiam até ir buscar um detector de mentiras, se lhes desse para esse lado, que o relato iria ser o mesmo. “E foi depois disso que estive com ela, uma hora mais tarde, talvez”. A cara do meu inquiridor não deixava enganos: mais um pouco e conseguia ver-se um pingo de mostarda a arrastar-se pelo nariz afora, como se eu estivesse a dizer alguma atrocidade, a discordar do seu raciocínio só porque não tinha mais nada para fazer. A fúria acordava-lhe o pescoço e mudava-lhe a cor das veias, pulsando-as, causando-lhe um engarrafamento mesmo ali no cruzamento do juízo. Eu não lhes pedi o que quer que fosse, chamaram-me para depor e era isso que estava a fazer. Não estava a querer distorcer os argumentos que já estavam definidos, nem nada. Factos verídicos: o que fiz e o que não fiz. O resto, o que ficou por fazer, já não era para ali chamado.

“Homem, isso é impossível, às sete e meia foi a hora a que ela desapareceu!”, e estendeu-me para a mão uma folha cheia de arabescos, onde se encontravam descritos, numa linguagem tauromáquica ou vinícola, uma série de dados técnicos. Eram as análises feitas pelo departamento de medicina legal. Depois uma resma de fotografias: o chão, uma repetição de vários ângulos de um espaço semi-circular traçado a giz, sem corpo presente. Compreendi que me queria explicar que aquele era o local onde se tinha dado o sumiço. Realmente no meio do traço, numa parte mais escura da calçada, depreendiam-se os restos do que poderia ter sido uma fogueira. Testes de carbono e ADN eram as provas mais válidas e não deixavam margem para dúvidas. Era daí que lhes vinha a irritação, a vontade de me devorarem à chapada. E não deixavam de ter razão, a pessoa era a mesma, não dava para haver enganos. Física e química numa folha de papel, numa imagem. Nas fotografias da morgue, aqueles olhos despertos para tudo o que os rodeava falavam por si. Estavam lá na fotografia, estavam lá como os vi, estavam lá como eles os descreveram. Sim, era a mesma pessoa. Mas não às sete e meia.

Repeti-lhes de novo. Essa parte do relógio, desta vez com indizíveis pormenores, e os eventos que se seguiram, que faziam parte do fragmento em que eles não acreditavam. E quando lá chegava eles começavam a coçar-se à minha frente – quase que se despiam! – e a espumar da boca, enjoados de todo. Cheios de sarna. Não podia dizer mais, nem dizer mais alto, nem dizer com os meus olhos mais abertos. As mãos fechadas, murros na mesa, ou usando uma série de sinónimos ou uma linguagem metafórica. Foi isso, foi assim. Aconteceu. Tudo para lá da hora do rapto ou como lhe queiram chamar. Combustão humana espontânea, se quiserem. Nem sei porque é que foram dar com esse minuto, essa certidão, essa pistola viciada. Ainda lhes perguntei sobre o fuso horário, em que hora viviam, mas nem isso me valeu. Eles sabiam muito mais do que eu.

E o que foi? Subimos a rua, indo pelo caminho errado. Voltámos para trás, subimos por outro lado, descemos, e eu a criar sempre uma nova imagem, a cada passo, uma imagem de “escreve-apaga”. Uma imagem que assim que era vista, era riscada. Com novos nódulos, novas cores, novas fórmulas. E era isso. O tempo não contava, o tempo meteorológico. Dez, onze, onze e meia. Meia noite. Os espaços iluminavam-se à nossa passagem, as mesas, onde nos sentávamos, enchiam-se de luz. E não era preciso dizer tudo, bastava o ver. O abismo de um olhar profundo que não se agarrava. Ia e vinha. Ia e vinha. Ia e vinha.

Mas como aconteceu? Não sei bem. Acredito num mundo de sonhos, lúdico, sem par. Acredito em histórias de fadas e duendes. Em sapos e em príncipes. Perco-me nessa virtualidade da ilusão onde tudo se faz e tudo é possível. Depois, perco-me ainda mais. E mais e mais. Dentro do meu mundo fantástico, que se abre durante o sono, há sempre alguém que não me deixa andar. Por exemplo, o dono de uma taberna, uma baiuca numa viela escura, onde vou sempre, não me deixa beber a partir de certa altura. Nos meus sonhos esse homem acha que se bebo mais fico louco, e ele não me quer assim. Tem esperança de que algum dia o indefinido absoluto que há em mim se transforme e chegue lá. À virtude. À decência.

E era isso que estava a tentar explicar àqueles outros homens que envergavam a mão da autoridade. Dizer-lhes que aquilo não era sonho nenhum. Que o acontecido aconteceu do lado de cá. Ninguém estava a dormir. Era uma história a sério, não era uma pena a voar dentro de um livro, ou um amanhã submerso, infestado de dragões e unicórnios e outros bichos fantasmagóricos. Situava-se no mundo diário em que acordamos e que percorremos. Sim, pode ter desaparecido, pode alguém ter feito uma fogueira nesse mesmo sítio e ter-se deixado ir pela rua acima. Mas não naquela hora, não no momento provado pela realidade dos factos. Não no instante em que eu estava na casa de banho da livraria a aliviar-me da pressão urinária. Antes ou depois de olhar para o tique-taque na parede. Era só isso que lhes queria fazer entender. O resto não importa. Estar com má cara. O resto que se lixe. Não é para aqui chamado. Só a verdade interessa. Acima de qualquer certeza.

……….

* Os casos de polícia são na realidade actos que envolvem uma organização de termos e burocracias, cheias de formalidades, e que criam em todo o seu novelo uma intenção: a vontade de desvendar o caso ou de o levar ao esquecimento; para que desapareça dos olhos da sociedade e se iliba em nome de uma memória colectiva dissipadora. Isto está sempre a acontecer.

[Versão adaptada de um texto de 2006 intitulado “Pistola Viciada” – um nickname –, republicado no jornal Hoje Macau em Julho de 2010]