Barba de três dias

SCROLL

O que te resta é continuar, disfarçando a tua grande mentira e a acreditar que és o maior. Que és uma espécie de Napoleão – o melhor de todos! – e que vais salvar o mundo, à tua boa maneira. E como vais fazer isso? Dando um tiro no cosmos. Essa parte nobre do corpo.


O teu maior inimigo é tudo aquilo de que tens medo. O que achas que sabes mas que não sabes. Na verdade, nem fazes ideia que sabes nem que não sabes. É também o teu maior desejo. É tudo o que não existe e do qual consegues andar atrás durante uma vida inteira. A tua. E por isso és capaz de atacar um país porque achas que o vais finalmente encontrar. O teu medo. O teu inimigo. Mas sabes desde o princípio que estás enganado.

Tens só essa sensação, leve, para continuar. Sem nunca te importares, nem com a essência, nem com o resultado. Com os que ficam e com os deixam de existir. Por isso és capaz de matar, para disfarçar a tua própria mentira da qual queres criar uma realidade para toda a gente. Mas nem aí te safas, porque estás sozinho no mundo. Todos os outros foste tu que inventaste, dentro de ti. Porque o medo, o teu inimigo, domina-te desde o princípio. E não é por esse caminho que consegues escapar.

No final o que te resta não é morrer, não, isso não ia acabar com o sofrimento, se é isso que lhe queres chamar. Nem ser bonzinho. O que te resta é continuar. Continuar a acreditar que és o maior, que és uma espécie de Napoleão e que vais salvar o mundo, à tua boa maneira.

E como vais fazer isso? Dando um tiro na cabeça. Só que não sabes em qual delas. Porque estás encurralado, porque apesar de te teres só a ti, crendo que só existes tu no mundo, abres os olhos e está lá toda a gente. E sabes que não são os teus miolos, isso já aprendeste, seria demasiado fácil. Mas é isso que te leva, que te faz mexer os pés e andar. Há uma única cabeça, o cosmos, essa parte nobre do corpo. Pode estar perto, pode estar longe. Pode estar agora a olhar ti, mas não tens bem a certeza, e por isso vais sempre continuar, nesse labirinto perfeito, no teu belo jogo de poder, lá em cima, até a encontrar. Porque quando tudo acabar esse é o único facto que te pode salvar. Desconfiares que sabes e que ainda consegues ver. O teu medo, o teu inimigo, o teu atlas. A tua cabeça.