Mulheres tããão violentas

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Ainda queres a cama? Já vem a caminho. Fui eu que a fiz. Espera tenho uma nova surpresa. Estava só à espera de uma oportunidade para dizer. Deixas-me falar? Ou não é preciso? Posso fazer tudo por gestos. É mais giro. E grito, também. Sem falar. Posso? É tudo assim, sem fôlego.


Esta noite vou ser o que tu quiseres. Insisto: tudo o que quiseres. Qualquer coisa, uma, duas, três. Sim, isso mesmo que estás a pensar. Isso que sempre pensaste e nunca disseste a ninguém. Hoje à noite, vais dizê-lo, a mim. Eu vou ouvir. Depois faço. Pretendo que faço. Finjo que faço. Mas ao fingir, faço mesmo. Agora decidi que queria escrever. Decidi agora mesmo, só neste segundo. Já mudo. De opinião. Mas também posso ser carpinteiro. Faço uma cama e levo-ta às costas. Queres que deixe em casa? Na tua ou na minha? Eu sei. Ontem estiveste a olhar para mim, de costas, o almoço todo. Eu sei, não digas que não. Naquele restaurante onde nunca vais. Onde nunca vou. Disseste adeus quando passaste na minha mesa e eu sei que todo aquele espectáculo era só para mim. Queres repetir? Agora? Anda, traz o teu gato. Que queres que seja hoje? Um tigre, um leopardo, um roedor qualquer? Um autocarro? De que cor? Azul, verde, amarelo? Red? Ligas o rádio? Vamos dançar. Podemos dançar toda a noite. Não há limite. O campo é uma vastidão sem fim. O campo onde vamos dançar. Toda a noite. Ou se calhar não. Podemos cair. Cantar? Eu toco qualquer coisa. O que tu quiseres. Com muito barulho. Sabes que gosto de tanto barulho. Sabes que sou completamente surdo. Preciso de muito barulho. Eu sei que vais arranjar tudo, quando formos famosos, quando fugirmos para sermos famosos. Eu e tu. Ainda queres a cama? Já vem a caminho. Fui eu que a fiz. Espera tenho uma nova surpresa. Estava só à espera de uma oportunidade para dizer. Para falar. Dizer não é o mesmo que falar. Deixas-me falar? Ou não é preciso? Posso fazer tudo por gestos. É mais giro. E grito, também. Sem falar. Posso? Cem por cento new. Disseram-te eles. Estavam a mentir. Claro. Agora voltei à minha juventude sónica e perdoo tudo. Quero reencaminhar-me para ela, todos os dias, ser mais inconsciente, pensar ainda menos. O que já de si é difícil. Fazes-me febre, sabias? Quero recuperar a paz. A soma do património. Elevar tudo ao cubo. Ouvir, ouvir muito. Agora sei. Vivi de alfa a ómega. Agora sei. Tal como os Verlaine. O Tom e o Paul. Queres chamar-me outro nome? Hoje posso chamar-me Wilde, por exemplo, se te apetecer. Ou Não-sei-quantos Gillespie. Espera não digas nada. Vamos cantar. Levas-me hoje? Onde há gente, onde há música. Onde são novos e vivos. Vamos. Dou-te as minhas duas mãos, enquanto guias o teu carro. Nunca mais quero chegar a casa. Guia-me. Que queres que seja hoje à noite? Um falso alarme, um urso nebuloso cheio de estrelas? O teu pai não, por favor. Podes olhar-me nos olhos que eu não fujo. Olha. Não desvio o olhar. Olha. Vês, não estou a desviar. Vamos ver quem ri primeiro. Oh. Perdeste! Queres que eu seja o padeiro? Fiz estes pães todos para ti. Estes milhares de pães. Como os queres? Com doce? Posso ser o teu herdeiro, só por uma noite. Não dizes nada. Não dizemos nada a ninguém. Fingimos que pretendemos fingir. Ok?

[Diz ok!]

Quando me contaste o teu maior segredo. Quando me contaste o teu maior segredo a chorar. Porque pensavas que eu não te queria. Quando choraste e disseste ao meu ouvido, muito baixinho, que o teu nariz crescia para dentro quando mentias. Eu não te contei o meu. O meu maior segredo. Chega-te aqui. Não vou chorar. Mais. Precisas de saber. Eu levo tudo pelo lado contrário. Tenho os fusíveis todos trocados. Por isso é melhor que te diga. Não vou pensar mais. Quanto tempo vai durar? O tempo que tu quiseres. Pode ser só hoje à noite. Faço o que me pedires. Uma, duas, três. Isso tudo que estás a pensar. Levo-te às costas. E deixo a cama aqui. Não é preciso. Vês aquela árvore? É para lá que vamos. Pergunta-me, se quiseres, o meu maior segredo, pelo caminho. Sabes, nunca estive em Sfax, por isso não sei responder. Há sempre um lugar onde nunca estivemos. Onde nunca vamos estar. Que estás a ouvir? Que canal é esse? Chuva? É o meu preferido. Ouvir a água a cair. Ficamos a vê-la. Deitados. Eu vou lá atrás buscar a cama. Depois canto para ti. Com as mãos nos bolsos. O silêncio das gotas a bater na tua testa. Não vamos forçar nada. Typical me. Começamos qualquer coisa. Depois não acabamos. Sim, sou eu a voltar à minha juventude sónica. Não ligues. Comprei os bilhetes todos do festival de música. Todos. Pedi aos meus quinhentos melhores amigos, velhos e novos, mulheres e homens, burros e alucinados, e eles esgotaram tudo. De propósito. Só para te seduzir. Não, não são para vender. Também não são para comer. Forramos as paredes do teu quarto com eles? Já sei. Vou fazer barcos e aviões. Com todo esse papel. Muitos barquinhos. Depois fazemos um rio. Fazemos um mar. Fazemos um céu. Fazemos adeus, mas não vamos embora. É a mesma coisa. Fingimos que ensaiamos. Ensaiamos por completo que fingimos tudo o que há para sentir no mundo. Faz alguma diferença? Não. Mesmo a fingir, fazemos. E fazemo-lo com o prazer de sentir que estamos a fazer qualquer coisa. Que queres para hoje? Escondo-me? Contas tu ou conto eu? Contas aquela história? Com lobos que pedem desculpa por serem lobos. E o teu gato, que diz? Vem. Espero por ti. Foi um dia longo, não foi? Já terminou, já se foi embora, agora vamos sair. Levo as minhas duas mãos e guio-te para as minhas maiores verdades. Agora sou todo de verdade. Mesmo a fingir que sou de verdade, sou ainda mais de verdade. Sou a sério. Tiveste medo quando te beijei? Medo de nunca mais sair. Medo de nunca mais conseguires ver os teus olhos. Os teus olhos claros. Ou. Medo de ter medo. Vou abrir um livro. Agora meteu-se-me esta mania que sabia ler. Às vezes abro um livro. Só para te encantar. Queres que leia? Espera. Gosto muito desta parte. Em que ele grita. Para sempre: foi-se. Já não está aqui. E a partir de agora vai doer. Levanta-te. Vai. Deita-te. Ou não te deites. Senta-te. Bebe outro gin ou não bebas. Sai. Volta. Ele não está. Gostas? Queres que leia mais? Agora levanta-te e vai procurar, levanta-te com ligeireza e calma e vai procurar o que perdeste. É bom, não é? Está escrito na capa que é uma obra-prima. Na contra capa que é uma inesquecível obra de arte. Assim como tu. Sou o que quiseres. Hoje. Médico, arquitecto, ladrão de jogos de azar. Ladrão de ladrão. Quantos anos tem de perdão? Já me esqueci. Posso ser pastor, alfaiate, ministro. Primeiro-ministro ou mesmo um pequeno palhaço. Jurista não, por favor. Estou fora da lei. Onde está a lei, anyway? Ainda queres os bilhetes? Ainda queres a cama? Deitas-te nela? Ainda gostas de mim? Está bem, chama-me Billy. Boy. Billy Boy. Anda cá, chega-te mais perto. Eu só olho para ti. Vês? Só estou a olhar para ti. Para mais ninguém.

[Aqui podes respirar. É preciso.]

Espera, deixa-me olhar para o relógio. Temos cinco minutos e quarenta e um. Vamos correr. Somos ágeis. Vamos correr. Aquela árvore. Ali. Vamos correr até lá. Queres ir à frente e ver se eu lá estou, se já cheguei? Ainda queres a cama? Já fiz cem barcos. Já fiz duzentos e trinta aviões. Falta o céu. Falta o mar. Precisamos de um deus? Dois? Três? Às tantas és mesmo uma deusa e eu não tinha reparado. Bebes outro gin? Corre. Aqui só há tubarões. Mergulhamos? É só o rio da minha juventude sónica, não tenhas medo. Fizemos as pazes com o mundo inteiro. Fizemos equilíbrio. Lá em cima. E agora podes tocar-me, em todo o meu corpo. Estás fora do tempo? Não interessa. É o teu. Vamos somar. Sabes fazer contas? Soma. Agora fecha os olhos. Espera. Sfax, Ohio. Já podes abrir. Sfax Colorado. Onde vamos? Roubei as chaves do carro do meu pai. É grande, podemos dormir lá dentro. Dou-te as minhas duas mãos e tu guias. Para lado nenhum. Ou. Washington DD. Queres ir contra aquela árvore? Não. Vira à esquerda. Depois vai em frente. Vai sempre em frente. Nunca estive em Sfax. Sabes ler? Desculpa, esqueci-me de perguntar. Um fogo na floresta vai dar na TV. Eu não quero ver. Vamos embora. Vamos para o restaurante onde nunca vamos e fazes esse filme, outra vez. Toma é teu. O céu. Fiz o céu todo para ti. Agora podemos trazer a luz, com todas as tuas cores. Vamos viver na linha da frente, já sabias disso. Que queres? Vamos conduzir? Dançar toda a noite? Eu e o teu génio puro. Eu e a superfície curva da tua tatuagem. Eu e a tua promessa. Sentamo-nos ao pé daquela árvore e esperamos que a chuva passe. Anda cá. Kool thing. Olha para mim. Mais perto. Mais perto ainda. Vês? Não desvio o olhar. É todo teu. Bebes outro gin? Chega um bocadinho para lá. Eu guio. Cuidado com a árvore. Ainda temos uns segundos. Queres contar? Sabes contar? Eu fujo. Para dentro de ti. Quem sorri primeiro? Perdeste. Agora posso ser o que quiseres. Pode ser já agora. Tens um segundo para pensar. Já! Queres as minhas mãos? Não são de ferro. Chama-me o que quiseres. Posso ser o teu maior segredo, para tornar tudo isto mais quente. Muito mais quente. Já foste a Sfax? É sempre Verão. Lá. Qual é o teu tour? Mostra-me onde está a lei. Mostra-me onde está escrito que não posso fazer isto que estou a fazer. Tu é que me disseste para meter os dedos nos buracos das tuas meias. Mostra-me tudo. Queres que seja um resineiro, um tanoeiro, um petrolino? Advogado não, por favor. Lançarote também não. Jornalista, hmmm, muito menos. Queres que seja “O Gajo”? Indiano, costa-riquenho, neo-qualquer coisa? Está bem. No sítio do costume. À mesma hora. Onde fica Sfax? Raio! Temos cinco segundos. Olha para mim depressa. Cuidado com a árvore. Três. Vês? Perdeste. Dois. E o teu cão? Um. Ainda morde? Zero. See you!

[Escrito na Primavera de 2004 e publicado num jornal da especialidade]