Vaslav Nijinsky

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Chegamos a Nijinsky por alguma esquina. Ouvimos o nome e despertamos. A partir daí, vivemos sempre acordados. Procuramos, sabemos mais. Construímos ideias. E queremos sempre mais. Ser Nijinsky.


Vamos olhar para a forma de um bailado, impondo-lhe limites, e vamos dizer que se resume ao compasso. A bússola, o andamento cadenciado, a régua. Na escrita, no acto solitário da leitura, é possível imaginar uma vida inteira e vaguear por ela ao sabor do ritmo das palavras. A sua musicalidade. No entanto, estão lá os afectos, os distúrbios e a magnitude, mesmo quando não se diz nada, mesmo quando nada faz sentido. Os fonemas dão à ortografia o lúgubre estado de uma coreografia, alinhada em sonoridade. E poderia sugerir o termo “majestoso”, que seria a mesma coisa. Podia dizer muito ou pouco, que tem exactamente o mesmo significado. Derivam do mesmo sentido. Como preto e branco, sinónimos de uma mesma pessoa: Nijinski, um homem frenético sem limites e sem compassos.

Je suis bœuff mes pas bifftek
Je suis stek sens bœuf en biff
Je suis biff mes pas un stek
Je suis stek je suis stek
Stek et stek ne pas un biff
Biff et biff ne pas un stek
Bifstek, bifstek, bifstek biff…
VN in “Lettre à Gabriel Astruc”

Bailarino polaco nascido na Rússia em 1890, contemporâneo de Stravinsky, Tchaikovsky, Ravel; figuras com quem trabalhou e de quem foi instrumento das suas obras, a personagem de Vaslav Nijinsky fascina-me desde os tempos da minha juventude, quando tudo era vazio dentro de mim e procurava encontrar explicações para a vida. De início, a figura de Nijinsky não me pegou pelo virtuosismo como bailarino, mas pelo mito criado à sua volta. Mais por pura ignorância do que por elucidação do discernimento. Se agora são raros os registos filmados das suas actuações, há décadas atrás eram muito mais. Ficaram as proezas, os livros, as referências. O que me fez lá chegar foi o pedaço que deixou amassado na História. Foi isso que procurei, em vez do seu repertório, em vez das imagens em movimento que sobram nas reservas dos museus e nas fundações que nasceram com o seu nome. Imagens sem o complemento sonoro, o que por si já é muito, mas ao mesmo tempo não é nada. Se isto diz alguma coisa sobre mim também diz tudo sobre ele. Não é preciso ver para sentir.

Nijinsky5Nada lhe dá a dimensão do sagrado e do tempo como o mito criado. O que encontrei, antes e sempre, foi um ser radical, fora de qualquer convenção e senso. Único e inconfundível. Rasgando a gravidade e redefinindo as suas dimensões. Não, não é compasso, a recriar a profundidade do espaço. Nijinsky era um selvagem apanhado numa sociedade onde não vivia cómodo, onde não se integrou. Dele podia tirar-se este retrato: quando alguém se lhe dirigia voltava furtivamente a cabeça como se de pronto quisesse dar-lhe um golpe no estômago. Quase que não falava com ninguém e parecia viver num plano à parte, fora de qualquer geometria humana. Era o seu corpo que comunicava, que sabia. Eram os seus membros que detinham toda a inteligência e a sonoridade da sua voz. O seu ruído. A acutilância social. Ao não se poder descobrir-lhe as impressões pessoais, era-se levado a suspeitar que na verdade elas não existiam. Que o seu cérebro era oco. Ou um brado imenso onde não cabia nenhum juízo.

Claro, não era bem assim. Como nunca é bem assim. E podemos aludir. De um compositor sobra a música, de um pintor sobram os quadros, ou pelo menos as etiquetas, de um escritor, os livros. De Nijinsky resta a lenda, destilada em testemunhos repletos de encanto, que o elevaram à origem da poesia. Não era bailarino, terá sido poeta?

Dando uma alusão inebriada à sua cronografia, há os factos. Nijinsky foi a figura principal de Les Ballets Russes, protagonista de tremendos sucessos e de criações feitas à sua imagem e por si coreografadas. Exemplo mágico foi L’après-midi d’un faune, de Claude Debussy, que se transformou no ícone de toda a sua carreira (a terceira e a sétima imagem, em baixo) e que constituiu um escândalo na época pelas conotações sexuais prementes na coreografia; os seus movimentos eram revestidos de uma bestialidade erótica. Foi esse registo cru do eros que levou à erupção de uma fonte de tumultos gerados durante as estreias dos seus espectáculos e o principal motivo que o destacou da corrente dominante e da dança tradicional. Era a glorificação pura do corpo, o êxtase sem justificações.

Dizia-se que uma aparente falta de equilíbrio mental levava Nijinsky a encontrar refúgio nos movimentos circulares. O que se sabe ao certo, para além de todo o engenho, é que cedo revelou sinais de uma enorme fragilidade emotiva. Vestígios da sua precoce demência tornaram-se aparentes quando começou a desconfiar dos membros da sua própria companhia, com receio que no palco em que flutuava tivessem colocado alçapões e deixado uma porta aberta para o abismo. O bailarino imaginaria o Inferno sempre à espreita, levado pelo medo do salto para o escuro.

O meu fascínio deteve-se de novo, recentemente, com a leitura dos “Cadernos” que o próprio escreveu no prelúdio de toda a sua loucura, como um exercício prévio à sagração da Primavera, em pleno Inverno de 1919. Aí abriu, no palco da escrita, um novo capítulo nas vagas que impulsionavam a sua presença no mundo. Depois de se ver consagrado em Paris e de povoar a Europa com as marcas do seu talento, vê-se privado dos Ballets Russes por ruptura afectiva com o seu director, e a consequente falta de apoio artístico e financeiro vieram empalidecer todo o seu percurso, tornando-o caótico. Solução? A escrita desenfreada. Uma coreografia. A salvação do mundo.

No regresso de uma digressão pela América do Sul, o que acabaria por ser a última da sua carreira, e na vertigem de um colapso nervoso, Nijinsky decide ir descansar para a Suiça. A sombra dos Alpes tranquiliza-o, mas em vão e não por muito tempo. Das montanhas surgem também as ordens de Deus com que começa a exortar os habitantes da aldeia. Em Janeiro de 1919 empolga-se na escrita com a intenção de deixar um legado universal, com mandamentos para a posteridade. Afectado por uma religiosidade profunda, Nijinsky começa a aterrorizar a sua família e todos os que o rodeiam, passando da agressividade a um estado contemplativo, onde uma harmonia em desequilíbrio tendia a vencer a luta. A sua escrita é empolgada e compulsiva. O que escreve é o que lhe escorrega na mente; pensamentos em bruto que deixa cair para o papel em repetições efusivas e contraditórias. Saltos no escuro. A abrir portas no chão que pisa, criando um novo palco.

Em associações e jogos de palavras, que se juntam umas às outras, na sua sonoridade e em plena dissonância gramatical, a roçar o obsceno, Nijinsky torna-se evasivo. Prende-se à sua obscuridade, a um passo da armadilha que ele próprio cria e da qual não consegue fugir, num tempo verbal que o acompanhou até à sua morte: a loucura. Perguntas que o atormentam desde muito jovem – a sexualidade, a vida, a morte, a paternidade, a linguagem – adquirem nos seus textos a forma de respostas acabadas, de certezas que não incluem explicação e argumento. Fala consigo próprio em variadíssimos tons numa procura constante da sua identidade, de si próprio e do que lhe sobra. Esgotado na profundidade do seu ser, que se perdeu na divindade e na glória:

“Quero assinar ‘Nijinsky’ por causa da publicidade, mas o meu nome é Deus. Amo-o, porque ele me deu a vida. Não quero fazer elogios. Amo-o. Conheço-lhe os hábitos. Ele ama-me, porque me conhece os hábitos. Eu não tenho hábitos. O Nijinsky tem hábitos. O Nijinsky é um homem com erros. O Nijinksy deve ser ouvido porque fala pela boca de Deus. Eu sou o Nijinsky. O Nijinsky é eu. Não quero que façam mal ao Nijinsky, por isso vou protegê-lo. Tenho medo por ele, porque ele tem medo por ele…”

Foi assim, exacto. Num período de tempo curto, colada à mesa durante horas e horas, Vaslav Nijinsky deixa tudo o que há dentro de si em quatro cadernos que irão constituir “O Livro”, que ele quer ver publicado em vida em milhares de exemplares e que será uma “fonte de ensinamentos para a humanidade”. Não tem dúvidas disso.

E continua até à última, até ao abcesso da sua temeridade, como sempre fez perante as luzes da glória. Até ao último passo para a sua vida menor e, em simultâneo, infinita e não menos grandiosa: a sua vida escura dentro do alçapão. O seu papel de louco, onde se deixa cair. Em Março desse mesmo ano, dá entrada num hospício em Zurique, onde é objecto de variados estudos. Tentava-se desatar a apoteose distorcida da sua alma de génio, a qual não tinha mais representação possível em cima dos palcos que o tornaram famoso. Onde estavam os compositores? À espera.

Nijinsky tinha apenas 30 anos de idade. Daí para a frente permanece fechado, numa clausura que dura outros trinta anos e da qual ninguém mais fala, e no qual o mito deixou apenas um hiato. Terá dançado esse tempo todo? Criado? Fluído? Daqui me debruço com uma enorme vénia, dando tanta importância a esse período como à outra parte da sua existência, uma vida consagrada à metade do homem que se fechou em si, para lá da Primavera. A tarde de um fauno, perdido na sua natureza meio humana meio animal.

Mas da divisão não sobrou nada. O pano caiu e o ser supremo viria a falecer em Londres, em 1950.

 

A legenda da última imagem diz:

“Nijinsky, as primeiras imagens do bailarino mais afamado do mundo no seu retiro campestre perto de Londres. Vaslav Nijinsky, 58 anos, de cabelo branco e atarracado, aparentemente recuperado da doença mental que o afectou durante anos e que o impediu de continuar a sua grandiosa carreira, planeia agora o seu futuro. Pretende criar o World Theatre for Ballet ligando-o possivelmente a uma Universidade em Inglaterra ou nos EUA. Um milhão de libras serão necessárias para a envergadura do projecto, mas passos claros foram já dados para mover as rodas que levarão à realização deste seu sonho”.

Nijinsky morria dois anos depois sem o concretizar. Esta sua última aparição veio completar a lenda da personagem a quem o mundo nomeara como “Deus da Dança” e que a dimensão da sua apoteose distorceu numa modificação profunda da sua personalidade. Numa palavra inteira e obtusa. Sem retorno. O de ser um homem à altura num mundo que subsiste num patamar inferior.