Virgem e suicida

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No balcão do check-in disseram-me que este era um lugar muito bom para mim. Tinham toda a razão. Parece que já me conheciam. “Senhor Joid”, disseram eles, enquanto me ofereciam esta posição e o maior sorriso de que eram capazes. É verdade, estou rodeado de mulheres. Umas estrondosas, outras melhores do que isso.


Andar de avião não é o mesmo que ir ao cinema. Pode sempre estar alguém à nossa frente mais alto, muito mais alto, que não importa. Nem damos por isso. Tanto faz. Até pode ser um gigante que não se nota. E depois de levantar voo já nada mais interessa. Voamos. É outra dimensão. É não estar em lado nenhum. É estar no Céu. Com os santos todos. Desde o número um ao último da lista. Esse que toda a gente se esquece e que está sentadinho lá atrás vestido de donzela a fingir que lima as unhas.

Quando vou à casa de banho há uma rapariga que ainda não tinha visto que insiste em entrar comigo. A forçar a entrada. Comigo. Como se estivesse a enfiar uma coisa enorme dentro de uma gaveta: o meu corpo. É loira e brilha. Eu a ser simpático, a deixá-la ir à frente. Mas ela a ser simpática, a deixar-me ir primeiro, a empurrar-me até, a meter-me a mão abaixo das costas e a dar-me encontrões, a encostar-se por completo e a impingir-se com toda a sua força e calor. Com pressa. A olhar para todos os lados. O perfume dela a deslocar-se para a minha roupa. Eu que vinha para lavar os dentes. Ela entra atrás de mim e tranca a porta. A luz torna-se mais luminosa. Detesto estas luzes! Com um bocado de esforço quase que se consegue ver os tentáculos do cérebro a estremecerem lá dentro. Não perde tempo. Começa a despir-se. Tira a saia e pendura-a no rebordo da porta, muito direitinha. Não sei como é que tem tempo para isso porque no segundo seguinte já está a tirar a camisola. Grená. Atira-a para o ar que resta dentro da gaveta. Eu só quero lavar os dentes. Ela tapa-me o espelho e esconde-me a torneira com o enorme corpo luzidio, púrpura, que só parece de seda. E não me deixa lá chegar, à torneira. Pega na minha mão e leva-a para um sítio que eu cá sei. Sim é mesmo feita de seda. Podia inventar que uma mulher que eu conheço me trocou pelo homem mais feio do subúrbio de aldeia onde vivo. Mas não digo. Pelo maior engodo. Para ver se a assustava e perdia o interesse. Mas não digo. Não consigo falar, ela ocupa-me a língua. Ainda me perguntava porquê e eu o que não quero são conversas. Já não me vejo. Só a vejo a ela. É violação, penso eu. Ela lava-me os dentes com uma coisa que eu cá sei.

Estou na coxia, no meio do corredor, na parte de trás do avião. Uma das hospedeiras sempre que passa por mim encosta a cauda ao meu ombro. Da primeira vez, ainda pede desculpa. “Perdão”, disse. É duro. Começo a pensar o que faz ela para ter essa parte do corpo tão dura. Finge ajudar o passageiro do outro lado do corredor e lá está a esticar-se a meu favor. Em direcção ao meu úmero. É de propósito, tenho a certeza. Chama-se Louise. É violação, penso eu.

No balcão do check-in disseram-me que este era um lugar muito bom para mim. Tinham toda a razão. Parece que já me conheciam. “Senhor Joid”, disseram eles. É verdade, estou rodeado de mulheres. Umas estrondosas. Outras melhores do que isso. De voz rouca e tudo, como eu gosto. A novecentos e trinta quilómetros à hora não se pode querer mais.

Quando era mais novo via na televisão a versão original da sequela de Hollywood que está a passar no pequeno ecrã da minha companheira do lado. O filme tem o nome de dois polícias. Eu olho para as pernas dela enquanto ela está distraída a rir-se que nem uma tonta. Mexe-as demasiado para quem só está de auscultadores. Está calor. Não tenho mais para onde olhar, os meus míseros tentáculos neste segundo só me dão para isto.

Do outro lado estão duas irmãs. A Audrey e a Katherine. Conheci-as por acaso antes de entrar no avião quando, por engano, entrei nos lavabos errados. “Toilets?”, perguntei. É violação, pensaram elas. Agora estão com frio e aquecem-se. E eu aqui com um calor que nunca mais acaba. Lá vem a hospedeira outra vez, a tal. Desta vez olha para mim sem mover os olhos e pergunta se quero alguma coisa. Está de frente para mim. Encostada ao meu ombro. Dentro dele. É dura e fofa ao mesmo tempo. Não tem underware, imagino eu. Demoro a responder. Ela demora a perguntar de novo. Parece que tenho de ir lavar os dentes. As duas irmãs, afinal, entram no filme que a minha colega do lado está a ver.

Colombo. Mumbay. Taiwan Strait. Terras longínquas, todas no mesmo mapa. Como o mundo é pequeno. Como deixa de existir cá de cima. Não se vê mais. E o avião quase a mil à hora. Viajar de avião é melhor do que ir ao cinema. Está confirmado. Pode-se comer à vontade. Bebe-se até fartar. Pedi vinho para acalmar. Montes de vinho. Tinto. Bebi-o todo. Garrafas pequenas e frescas. Da pressão. Agora tenho de ir lavar os dentes. Kweilin, assinalado com uma bolinha. Kunming. E outras terras ao lado. Outros subúrbios de aldeia, como o meu. Com nomes parecidos e escritos com gatafunhos estranhos. Estamos a dez quilómetros de altitude e por incrível que pareça não estou com vertigens. Só alucinações.

Parece-me que isto é uma viagem oficial. É por isso que eu aqui estou. Sou o único dos oficiais em económica. Porque sim. Mas não troco o meu lugar com nenhum dos outros que me acompanham. Ah! As irmãs são muito amigas. Fazem festas uma à outra. Há pessoas que sabem meter conversa com toda a gente, falam que se desunham como se conhecessem o mundo inteiro há uma eternidade. A mim já me conhecem há muito tempo. Mas há dez minutos atrás nunca antes as tinha visto. Estico os pés. A minha hospedeira traz-me mais vinho. Para tentar dormir junto dois calmantes que roubei à minha nova namorada, sem ela dar por isso. Não esquecer a rapariga do 64H, morena, com olhos cor de azeitona, daquelas verdes. E eu que não gosto de azeitonas, é a única coisa que me afecta o paladar. Agora vou dormir, digo eu. Podem ter a certeza. Tento contar carneiros. Não passo do primeiro. Fico sempre encravado no mesmo. Vendo bem é uma fémea de carneiro e está sozinha. Não há mais nenhuma a seguir. Deixa lá ver se tem a voz rouca.

Isto é mesmo muito melhor do que estar no cinema. Pode-se mudar de filme a todo o momento. Passar para uma tragédia grega, mas de trás para a frente. Eu já cheguei ao clímax e a viagem ainda mal começou. E o que me põe a sonhar é que não sei o que vem a seguir.

[Escrito num Boeing entre Hong Kong e Londres, numa viagem a convite de um governante corrupto, no Verão de 2004]