Almoço de recados

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{ouvido na rádio da boca de cidadãos com nomes falsos}

Uma personagem de um tempo antigo, este moço de recados. Dizia coisas da boca para fora. Aviava os outros mas mal fazia o que lhe mandavam. Tinha veneno na guelra e seguia sempre pelo seu caminho, sem deixar de olhar para um lado ou para o outro, sempre que uma barreira lhe ocupava a progressão. E assim se foi fazendo.


APÁTRIDA

Nunca ele se imaginou nesta situação. A derrota era mais do que certa, restava-lhe arranjar uma justificação para os números. Se fossem menos, era a vitória da prepotência e do virar o rabinho aos outros; se fossem mais, era um claro sinal de que o povo não esquecera o trabalhinho feito de joelhos aos amigos lá de fora. Ou aos de dentro também. Mas estes números, os da derrota, trocaram-lhe as voltas a ponto de dizer apenas o que era politicamente incorrecto, no momento da consagração dos outros. E não lhe sobrou nada! Varreu o país e o mundo com os cinquenta e poucos segundos de silêncio e acreditando existirem pêlos levantados e cristas disparadas para o espaço por todo o planeta. De novo, um exagero da sua parte, uma falsa modéstia. Sem Administração, sem dons para a Filosofia, era um homem perdido, no lugar errado à hora errada, mas que por certo, por outra construção dos astros, poderia ter sido a correcta, estando neste exacto momento a apanhar as rosas da sua consagração. Não se havia preparado para esta disenteria. Para este abandono. Agora era um homem de ninguém, nem da esquerda, nem da direita. Nem dos que buscam uma saída ou uma qualquer conclusão de autonomia. Também não era dos que sonham com o futuro, com a independência, nem dos que sendo portugueses adoravam, em nome de uma região, defrontar e derrotar Portugal num estádio de futebol. Este resto de homem já não é, nem dele próprio. O novo galo, que deverá ser bem mais velhaco do que este seu antecessor, porque bom bailarino, consta que também não irá ser, nem dele próprio, não sabendo dirigir o comboio destruído. Tal como aconteceu em tempos com o agora El Presidente, ao debruçar-se sobre uma maldita fatia de Bolo Rei, necessitará de ajuda de terceiros, para que lhe sacudam o lombo. No entanto, soube safar-se na mente de cada votante seu, com a argumentação da incoerência do eleitorado e do estado das coisas. Mas o ex-Primeiro não. Este ficou sem o menino nos braços quando já sonhava com a adopção. Para já vem a dor de cabeça do “dia seguinte”. A desintegração do seu Governo cheio de gente insatisfeita e de buracos. Coisas daqui e dali, qual manta de retalhos. Depois a obrigatoriedade de trazer de volta os despojos de toda uma campanha sem sequer poder fechar a luz. Nem aos militares na caserna, nem às adolescentes transvertidas. O desapossado, o camarada, quando precisar de um momento calmo, agora, ou de um cantinho com boa música, solarengo e bem cuidado, já sabe, terá de apanhar um avião para bem longe. O seu país já não o quer.

O MEDO MAIOR

Os homens também têm receios, caso não vos tenha passado semelhante visão pela cabeça, os homens têm realmente receios grandes. Ao acender um cigarro o homem capacita-se da figura máscula a quem é permitido inclusivé coçar os testículos em público. O cigarro torna macho o pequenote imberbe. Ao acender um cigarro uma mulher pode evitar uma conversa que não domine, apresentar uma imagem irrealmente segura, mas não aproveita em circunstância alguma, pública, para coçar o que não tem, até porque se coçasse o que tem rapidamente era tomada por uma prostituta em busca de contrato verbal. Os homens têm receios como qualquer animal do reino, exceptuando a Orca, o Tubarão Branco e a Sucuri – igualmente conhecida por Anaconda. Quando os homens têm à sua frente uma bela mulher, estendida numa cama, despida numa cama, os homens receiam falhar e interromper a comunicação aberta das partes (emissor) para o cérebro (receptor), estando acima ainda, e a salvo, da acção pretendida. Os homens não admitem falhar, sendo a falha, entenda-se nesta altura, não conseguir manter estável uma edificação. Quando os homens descem, naqueles segundos anteriores ao contacto cutâneo com a mulher despida, imaginam uma quantidade imensa de absurdas possibilidades.

DEPENDE

«Agora imagina a maneira como avança o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão lá desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles porque as correntes não lhes permitem voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objectos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda a espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio. Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e dos seus companheiros, mais do que as sombras projectadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica de fronte?» Dizia ele.

PÓQUER E OUTROS JOGOS

Written by mister Bob Dylan:

O Chandler disse-me uma vez: “Tens de aprender a fazer bluff. Nunca hás-de vencer neste jogo se não o fizeres. Às vezes é preciso ser-se apanhado a fazer bluff. É uma ajuda para quando se tiver uma mão forte e se quiser que os outros jogadores pensem que provavelmente estamos mesmo a fazê-lo”.

[Pequeno compêndio publicado no ‘h’, um suplemento do jornal Hoje Macau, precisamente neste mesmo dia de Maio em 2011]
  • Ana

    Gostei muito. Texto cheio de ardor. Ainda actual, sempre com essas aventesmas no poder. Beijos para todos.

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