A ilimitada fé do incrédulo

SCROLL

O mecanismo do Esconderijo foi estudado com profundidade e perde-se a toda a ocasião. No espaço. No tempo. Não se sabe ao certo. É uma obra prima sem traço ou cunho visível. Quem vem carrega o abismo como um desejo, eliminando o seu próprio rasto. Quem sabe da existência deste lugar segue apenas um impulso, a agitação de uma frequência. É isso que os traz. É isso que os leva.

A rua é como um rio escuro. No final existe um muro sem qualquer cor, pálido como um borrão. Encostado a ele uns caixotes velhos feitos de tábuas finas e irregulares, onde os cães às vezes dormem. Dispersos na parede, uns pequenos novelos que sobressaem do betão e do estuque. E por dentro, o lugar vazio onde antes estava um ou outro tijolo, que desapareceu sem deixar aviso, deixando uma pequena abertura. Uma cavidade que agora ajuda a subir. Aqui, enfia-se um pé ou uma mão e sobe-se.

Do outro lado fica o Esconderijo, um apertado edifício esquecido no coração da cidade, no lugar exacto onde ela começa a pulsar e a jorrar tudo aquilo que aprendeu a fazer. Todos querem ir ao Esconderijo e ninguém sabe porquê. É uma atracção que lhes sai caro e que sem exclusão se paga com a vida, toda por inteiro. De imediato. Sem perdão. Assim.

“Talvez possa perceber que me odeias. É pelo menos o que sinto. Se calhar é essa a expressão que tem, mas não lhe queria dar um título. Nunca antes o tinha experimentado assim, com alguém. É como um amor muito estranho, que não é de verdade, que aos poucos se vai virando do avesso. Parece um vulcão e pode ser que tenha sido só isso que me trouxe até aqui. As chamas, ou o calor. Mas o que me atraiu foi o alarido de todo o ódio. O pavor. O indubitável risco, do qual não consegui escapar.”

Quando chove, ou quando os cães urinam demasiado nos caixotes, não se consegue chegar lá acima. É preciso construir uma pequena torre com quatro ou cinco cubos das brincadeiras de crianças, deixados por ali, até se conseguir chegar aos espaços ocos do muro. Se a construção está muito húmida, é isso que acontece, fica tão frágil que não se aguenta hirta nem um segundo. E cai-se estatelado no chão. O que é logo um sinal de mau presságio. Nessa altura só há uma coisa a fazer, deve voltar-se para trás e esquecer toda aquela história, desviando a atenção para bem longe dali. É fugir enquanto se pode. Sem pensar. Sem olhar para trás.

Mas não é possível, o isco do trespasse é muito maior, nasce cá dentro como raízes. Puxa. Arrasta. E só se consegue parar quando já é tarde demais. Quando tudo já aconteceu. É uma voz a infiltrar-se no corpo, que induz para toda aquela necessidade de abismo, na forma do mais terrível veneno. O desastre perfeito. O fim.

“Sabes o que te vai acontecer? Sabes ou não?”

Começa por um gotejar. Uma vibração. Tlac. Tlac. Como um ferro. Um ferro que se esfola com o seu ruído noutro metal qualquer. Ou faz amor com a superfície de uma pedra. Ou o cimento das paredes. Com tanta subtileza que quase não se entende. Mas que sobe como um animal sem juízo e corrompe qualquer tipo de realidade, que pouco depois se perde na figura de um medonho esgar. Uma convulsão súbita que não se pode traduzir por nenhuma palavra nem expressar-se em nenhum idioma. Nem uma imagem lhe serve, para a descrever.

Não passa o tempo. Ali nada existe. Todo o instante é a eternidade. Tlac. Tlac. E a pouco e pouco uma voz negra – a causa de todo o afrontamento – que começa a surgir como a água do rio escuro com o qual se fez aquela estrada. Que não é mais do que um caderno cheio de desassossego. Cheio de gatafunhos.

Se por acaso se vê um corpo. Se por acaso esse corpo mexe e é o de um homem. Um corpo com um desfiladeiro dentro da boca onde semeia as coisas que diz. Os insultos do Deus e do Diabo. Essa será a última imagem que se vê. Tlac! E o fim do ruído, o último tremor, vem da mesma figura a vociferar fagulhas de ódio que arrasam a rudeza da carne. O osso. E entornam todo o sangue das veias. Sem dó. De uma só vez.

Não há lugar para a súplica das coisas sagradas. Nem há dimensão. E o que antes era matéria animada, que subiu um muro por cima de uns caixotes por entre o ganir dos cães e uns buracos na parede, é agora uma mutilação sem feitio e sem massa. Uma peça de abate. A sujar o empedrado do chão.

“O mais certo é que talvez não saia daqui, que o caminho que fiz só tenha uma direcção, mas por diferentes razões. Não quero saber ao certo. Tanto posso deixar aqui a vida como posso encontrar uma outra. A tua. E viver nela.”

Não há vestígios. O engenho do Esconderijo está todo estudado, e perde-se por entre os milénios. É uma obra prima que não deixa marca nem cicatriz. Quem vem segue um processo de retiro e de reserva, elimina o seu próprio rasto, cria um álibi. Tudo é secreto. Quem sabe da existência deste lugar segue apenas um impulso, um acordo de frequência na sintonia do seu fugaz anseio. É isso que os traz, é isso que os leva. E não há uma resistência, antes uma submissão. Antes o cumprir de uma visão, um milagre, a edificação de um monumento.

“Dizem todos o mesmo. Não sabem o que os espera e não sabem o que aqui vão encontrar. São uns meninos. Acabaram de nascer quando chegam. Quando já não podem mais é que compreendem que estão vivos. Chegam e têm a esperança de tomar o meu lugar e que o inevitável se modifique. Ficam confusos. Pelo prazer de serem submetidos ou pela falsa transe espiritual de submeterem. Não sabem escolher. Perdem-se. E isso torna tudo muito mais simples.”

Tlac!

Um dia, movidos por algum rumor, vieram os homens do município, a mais baixa forma de autoridade. Eram dúzia e meia ou mais. Apetrechados. De uniforme e de pequeno-almoço bem tomado, com os seus buldózeres à beira do passeio, a reluzir. Para tudo e para nada. Para o que desse e para o que viesse. Achavam eles. Pelo sim, pelo não, traziam as lancheiras.

Estava uma manhã clara. Limpa. Ao fundo as rodas dos carros chiavam e algumas crianças saltavam, no seu caminho para a escola. Árvores que encolhiam no vento as sombras que fugiam delas. E ali, mesmo no coração da cidade, onde ela ganhava toda a sua vida e forma, tinha sido feita a marca daquele lugar escondido. Reuniões prévias, testemunhas, mapas e planos sérios, tinham comprovado a existência do que eles chamaram de Inferno. Era um facto. E esse fenómeno teria que ser demolido e apagado do rosto do género humano. Sem deixar recordação.

Os homens procuraram pelo Esconderijo. Deram voltas. Correram todos os quarteirões e entraram em todas as casas do bairro. Um deles conseguiu a proeza de ir a farejar, com um amigo de quatro patas, até aos limites da cidade. As pessoas inquietas deixaram as suas habitações e vieram para a rua. Espantadas. Homens de pijama, alguns a escovar os dentes. Mulheres com toalhas à volta do corpo. Cabelos por pentear. Torradas a fumegar nas cozinhas. Alguns bichos de estimação, sim. Uns caixotes velhos. Ainda uma parede. – “Ali!”, aponta um dos recrutas municipais. Um muro. Sem cor e sem feitio. Cheio de fantasia. Lá em cima, dois, três metros, uns orifícios onde se podia colocar uma mão ou um pé e subir. E do outro lado. Exactamente a mesma coisa. Um cão a rosnar, outro que alça a pata. Pedaços de madeira meio húmidos espalhados pelo chão como se alguém tivesse acabado de cair sobre eles. Um pequeno divertimento da juventude. Nada mais. A busca em omisso.

Esconderijo? Estava muito perto. Aqui. Ou atrás. À frente. Depois, antes. Não importa. A deslocar-se na pequena fronteira que serve de eternidade ao instante. A iminência do infinito que conforta todo o destino e todo o trecho de uma herança. Numa linha só. Num ponto só. O paralelo. Ou coisa assim parecida. Que guarda todas as existências do mundo na porção mínima de coisa nenhuma. Os carrosséis, as ferraduras, os desejos dos outros. – “Isso!”, pensa o servente da urbe enquanto abraça a sela do seu buldózer com as pernas e retira o seu boné de caçador para coçar a cabeça.

O desejo alheio. O sol a queimar a vista. O apetite da submissão pelo abismo. Sobe, desce. Sem exclusão. “Subo? Desço?” A vida por inteiro entre um prego e a tábua. E a vontade profunda de ocupar todo esse lugar. De rompante. Assim como se o agora, todo este bocadinho, que nem dura uma respiração, para dentro, para fora, que já nem faz bater o coração, nem a pedra, fosse “sempre”. Sempre, sim! Ou nunca! Haverá diferença? Não há, de certeza.

“Sabes que te odeio, não sabes?”

“Sei. E não quero que seja de outra maneira.”