Salmões Satânicos II

SCROLL

Depois de tanto tempo presos no Grande Livro, duas mãos cheias de gente solitária dirigem-se para um quarto, onde o seu mestre está prestes a deixar a vida. Tudo tem o seu feitio. O nervoso Caim, remoendo sempre a sua inquietude. Paulo, com o seu BI falso depois de uma longa travessia pelo deserto. Judas, o mais próximo. Moisés, com a sua única e desconhecida paranóia. Quanto aos outros, é preciso entrar. Para ver.


Judas foi o primeiro a chegar. Veio muito antes dos outros. Horas. Sentou-se na sala de espera. E esperou. Pensativo. Sempre alerta. Não estava sozinho. A sala estava repleta de pessoas. Gente impávida. Mas pouco serena. De todos os feitios e formas. Muitos eslavos, com frio. Mulheres e homens. Pretos, brancos e às riscas. Da rubéola. Algumas crianças.

Uma delas não conseguia parar de chorar. Lá fora a cidade inteira. Indiferente. Não olhava para ali. Não olhava para lado algum. Dormente. Vivia. Depois chegou Nimrod, com Caim e Abel. Caim sempre a protestar. Que era muito longe, que deviam ter apanhado um táxi, que era melhor parar um bocado. Que não valia a pena. Nimrod entrou. Decidido. De relance viu que Judas já ali estava: Fumava um cigarro. À janela. A olhar para a rua. Não disse nada. Olharam-se. Foi Abel que se aproximou.

Pergunta: Já se sabe alguma coisa? Resposta: Nada! Depois: Foste vê-lo? De seguida: Não! Ninguém gostava de falar muito. Caim: Vou-me embora. E saiu. Voltou minutos depois. A rir-se de choro. De mão dada com Lot. Judas ergueu os olhos. E eles calaram-se. Mas Lot não conseguia parar de falar. Pegou na criança que estava a chorar e começou a contar-lhe uma história. Numa língua que ninguém percebia. Não era eslava. Não era nada. Fazia desenhos no vazio, com os dedos. Com as mãos. Com os olhos. Arregalados. A criança, que se chamava Agar, começou a rir-se. De choro. Num minuto estava tudo alegre. De repente. Estavam todos a trocar os maiores sorrisos que tinham para dar. Para oferecer. Não falavam. Nas suas línguas desconhecidas. Olhavam. Mostravam os dentes. Esticavam os lábios. Alegres. Como a rua lá fora, que começava a espreitar. Por uma das janelas.

De dentro. De uma porta. Do interior. Um homem saiu. Vestido com luzes de azul. O uniforme. Falou com Judas. Um ou dois momentos. E voltou a entrar. Noutra porta. Mais à frente. Ao mesmo tempo que Levi chegava com o primo. Gad. Judas começou a andar às voltas no meio da sala. Devagar. Muito devagar. Sério. Demasiado sério. Lot. Largou a criança. Que foi brincar para um canto. E estendeu um braço por cima de Judas. Acompanhando-o em meio círculo. No meio da sala. Só meio círculo. Um arco sem flecha. Feito com os pés. Depois pararam: Disse-me, aquele homem, o médico, para o esquecer. Que ele já não se safa. Que chegou verde. E já não vai mudar de cor. Depois: Podemos vê-lo? De seguida: Não! Ainda não. Se calhar. Nunca.

Caim estava mal disposto. Resmungava. Em silêncio. Pensava no dia lá fora. No tempo. Exterior. A viver sem ele. O tempo a fazer alianças com outras pessoas. Caim com ciúmes. Queria sempre mais. Queria sempre estar noutro lugar. No campo, se estivesse numa rua. No mar, se estivesse em terra. Nu, se estivesse vestido. E agora. Caim estava vestido. Então. Levantou-se. Tirou a roupa toda. E sentou-se. Quando se sentou. Lembrou-se. Pensou: Estou nu. E já de pé. Vestiu-se de novo. A falar sozinho. Em murmúrio. Quando estava a calçar as sandálias. Apareceu Moisés. Grande. Brilhante. Imenso. Feliz.

Mas com Moisés a história era outra. Muito mais complicada. Apesar de ser formado em medicina, para Moisés, tudo era uma questão de pénis. Essa era a medida do universo. Do seu. Do universo dos outros. Da própria história. A medida que contava o cálculo matemático. Que pesava a filosofia. Que escutava o tempo. E era um estudo comparado. Comparar o dele com o dos outros. A qualquer hora. Em qualquer lugar. Moisés era louco. Quando encontrava um seu semelhante. Era sempre necessário arranjar um terceiro. Órgão. Para desempatar. Dava-se bem com toda a gente. Tinha uma vontade única. De ver. Mexer. Tocar. Nos outros. Aprender com eles. Escutá-los. E por fim. Do meio do espanto. Medi-los. E apontar. No seu caderninho vermelho. A data. O local. O nome. E no fim da linha. Menos. Ou mais. Em letras romanas. Comparativamente ao seu. Descaído entre as pernas. Quando entrou. Quando deram por ele. Quando sentiram a sua presença. Abismal. Todos olharam para outro lado. Até a criança. Agar. Olhou para o tecto. Sem perceber o que se estava a passar. Quando Moisés começou a meter conversa com um enfermeiro negro que ia a passar. Sorridente. De todos os lados da sala. Se ouviu: Aqui!? Não! E logo se chegaram a ele. Com abraços. Com beijos. Do fundo da sala. Escondido. Nórdico. Surgiu Isaac. Que lhe estendeu a mão. E uma paz profunda. A transpirar. 3 de Novembro de 1999. Base Lunar Alfa. Isaac. Igual. Trazia Moisés na sua bíblia encarnada.

Já ninguém deu pela entrada de Het. Que vinha atrás de Moisés. Ninguém quis saber de Paulo. Se tinha feito uma longa viagem. Se tinha mudado de nome e agora tinha um bilhete de identidade falso. Com um S transformado em P. E o O escrito à mão. Saul. O grande. Se estava descalço. Ou não. Se vinha de perto. Se tinha bebido muito. Se tinha chovido. Lá. Dentro dele. Ninguém se importou com Miguel. Nem com o motorista de táxi Neftali. Que os trouxe. A todos eles. Na sua carrinha. De caixa aberta. Nem com Mateus. Ou Tomé. O capitão. Com Salef, Nacor, Dali, alguém se preocupou? Ninguém. Nem de Abraão quiseram saber. Nem da bela Roma. E os seus sete anjos. Quando o Dragão chegou. A cheirar a enxofre. Não deram por ele. E um homem mais velho. João. De cabeça perdida. Cansado. Com sede. Também não. Nem uma nesga de olhar. Nem mais um sorriso. E não pararam de entrar. Homens e mulheres. Alguns animais. Doze chefes de tribos. O noctívago Jacob. Cheio de olheiras. A coxear. Da ressaca. José e Putifar. Asquenez, Cetim, Fut e a estrábica Regma. Eram tantos que deixaram de caber na sala. Começaram a acumular-se nos corredores. Nos divãs. Nos terraços. Nas escadas. Lá fora. No passeio. No meio da estrada. A tapar o trânsito. Em cima das árvores. No lugar das flores. No jardim. Eva ficou deitada. Debaixo de um camião cisterna. A ler. No fresco. Tinha combinado encontrar-se com David. Mas ele ainda não tinha chegado. Estava lá atrás. Na fila de carros. Que dava a volta à cidade.

Dentro da sala. Aglomerados no suor da tarde. Estavam os que cabiam. Pessoas. Cem ou mais. Em silêncio. A olhar para um televisor. Que esburacava uma das paredes. Da espera. Essa sala feita de tempo. Do seu interior. Saltava uma imagem. Viva. Em movimento. Desfocada. Sem cores. Apenas esverdeada. Trazia uma outra sala. Igual. Com as mesmas dimensões. Ou um quarto. Com uma cama. De ferro. De um metal desconhecido. Ou de um material precioso. O que se via não era real. Porque saltava. Porque fugia. Ora para a esquerda. Ora para cima. Na cama. Um homem. Magro. De olhos abertos. No verde do filme. A coçar uma das orelhas. Judas estremeceu. Em pé. No chão. Da sala. Do lado de cá. Benjamim, amigo de Dã, era o único dado a liturgias religiosas. Católico. De preferência. Quando a coisa dava para o torto. Bastava ser uma qualquer. Que começasse a entortar. Punha-se a balbuciar. Frases em sequência. Rezava. Isaac. Assim que o ouviu. Muito pragmático. Mandou-o calar. Mandou calar toda a gente. E o burburinho desvaneceu-se. Abel deu uma pancada na televisão. E a imagem fugiu. Para cá e para lá. Voltando. Segundos depois. Ao ponto de partida. Depois: Calem-se! E de seguida: Deixem ouvir.

Na rua. Um banqueiro, dono da melhor cervejaria do mundo, falava com uma rapariga loira, de profissão incerta: Foi de repente. Chegou de noite. Para desobstruir as vias nasais. Ou outras. Se calhar com uma dor no fémur. Já não sei. Talvez para pedir um creme. Por causa de um centímetro de pele irritada. Sim. Fizeram-lhe exames. Por acaso. E já não saiu mais. Desobstruíram-no tanto. Que ficou sem nada lá dentro. Eram estagiários. Parece. Dizem. Os enfermeiros estavam a fazer uma despedida de solteiro. Ou isso. Ou foi a mulher da limpeza. Com o segurança. Mesmo ali. Em cima da marquesa. Ou mesmo um Doutor. Foi tudo muito rápido. Quando deram por isso. O pessoal especializado. Já não havia nada a fazer. Contaram-me antes do almoço. Alguém que tinha ouvido falar. Vim a correr. Quero vê-lo. Tenho de o ver. Preciso. A mulher, chamada Lia: Eu também preciso. Dele. Se não. Vou precisar de ti. Muito.

Caim. Queria ouvir. Porque decerto não tinha vontade nenhuma. De escutar. O que quer que fosse. Mesmo ver. Não queria. Talvez lhe tivesse a passar pela cabeça. Que era cego. Naquele instante. Era o mais fanático. Estava colado ao televisor. A dizer: Pouco barulho! Depois: Já chega! E de seguida: Nem mais um pio! Nem viu entrar. Pela janela. Pedro. Que veio sem o Lobo. E de novo a imagem. A chegar. Aos solavancos. E som. Finalmente. Do homem deitado. Na cama. De vez em quando. Uma víbora. A passar no esverdeado do vidro. Cheio de electricidade. O homem calado. De olhar selvagem. Perdido. No metal. Do tecto. Da cama. A querer falar. A sentir-se observado. Por cem. Ou mil. Olhos. A sonhar acordado. Com arqueiros. A pensar em Jared. Que viveu novecentos e sessenta e dois anos. Ou em Jezebel e as suas longas pernas. E ele ali. Nem mais um minuto. A abrir os braços. E do outro lado: Calem-se! A pousar as mãos no colo. E na sala de espera: Ele vai falar! A abrir a boca. A humedecer os lábios. Com o que restava da língua. E a dizer. A gritar. Num silêncio quase absoluto. Com os despojos da voz. E a imagem. Lá fora. A desaparecer. A tornar-se chuvosa. Cinzenta. E no final. Completamente negra.

Noé. No café ao lado. Horas depois. Sentado numa mesa. Com uma estudante de direito. Maria. Ou Madalena. Conversam: Estava tão quieto. Tão sereno. A adivinhar tudo. Mas confuso. Com os olhares. A possuir a verdade. Mas sem a engravidar. Com a consciência tão limpa. De nunca a ter usado. Que quando abriu a boca. Estava apenas a pensar. Alto. E o que disse? Apenas uma palavra. Uma pergunta. E morreu. Ninguém conseguiu ouvir. Mas como tinha legendas. Percebemos todos.

“Pai?”

  • João Luís

    Muito bom! Tamanha confusão de nomes. Mas é assim a Bíblia, uma grande sala de espera. Parabéns pela imaginação, nunca tinha lido nada do género. Pontuação frenética!

    • Funcionário da Bloomland

      Obrigado, João. A escrita aqui faz-se de caídas e coisas que caem do céu. Como Caim, o Pedro e os lobos. Faltou o Abel, é verdade. Não chegou a tempo. Ou se calhar já tinha ido desta para melhor. Abraço, em nome aqui da malta.

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