A autoridade da concorrência

© Alice Pokporn

SCROLL

Queria começar por dizer ao que venho. Só pela simples vontade de revelar. Acender o isqueiro e deixar a chama correr. Não há copa de árvores. E os grilos já se foram. Mas por mais pequena que se faça a luz. Por mais escasso que seja a essência de pensar. Há um começo lá ao fundo. Uma origem.


Não vou estar a fazer a conta dos anos que passaram. Nunca fui bom a analisar os resultados da matemática. A querer debater-me com as coisas verídicas. Fico pelo cálculo mental imediato onde tudo é ainda hipótese. O palpite. E isso é i que basta, uma sobra de esperança, como exercício. Para o incerto. A implorar-me para caminhar.

Estava escuro. A noite suavizava o campo. As árvores da Serra suspiravam com a aragem do Verão. Um vício que lhes nutria a alma para sempre. Alma de árvore, se alguém acreditar que existe. Não sei quem terá chegado primeiro, se nós, se eles. Nós, miúdos sonhadores com tudo por experimentar. Eles, dois ou três, de outro país, que naquele instantâneo se desenharam apenas na figura de uma mulher. Cabelos claros, silhueta esguia, não sei quê de sublime. Plena fantasia de cinema no imaginário de puto.

Em situações como esta, em que o breu toma conta da circunstância, surge um genuíno desassossego. Com arrepios. Ou uma estrela a passar no céu. Conversámos assim a uma certa distância sem nos distinguirmos claramente, num respeito mútuo pelo desconhecido. Tempo quente em surdina, com o remoer dos grilos a abraçar o silêncio. A sessão da meia-noite na copa das árvores. O nosso sorriso malandro. Filme série B, meio negro, a entrar-nos na imaginação. Desfeito no momento em que pedi por um isqueiro e uma mão meio envolta em perfume e chama me acendeu o cigarro. Toda ela chama. Eu que naquela altura já tinha deixado de fumar quando nem sequer ainda tinha idade para ter começado. A querer parecer mais.

E ali, por entre a sedução e o receio, que a nossa estatura não indicava, o alumiar da luz dava término a todo enredo. De um extremo para o outro os papéis ruíam. A tensão a esfumar-se para dentro dos pulmões e a pegar fogo à cena. O realizador a perder a vontade e a desaparecer. Antes podia ser um mundo de fantasia, qualquer coisa dúbia, qualquer ideia indigna. E um segundo apenas, ou nem isso, a ficção a ser atirada ao chão na luminosidade da labareda.

Um momento que merece uma descrição ainda mais poética: O ardor da clarividência, como a divina aparição. Com o vaticínio rigoroso da face e da identidade que nem a nossa lambreta podia contra-testemunhar. Nem uma reza. Aquilo não chegava a ser um rito de passagem. Resumindo: nós éramos novos demais.

IDENTIDADE POR DESVENDAR

Sob esta mesma designação, misteriosa, escrevi durante semanas a fio para um jornal local. Tenho-as contadas. O que à partida foi apenas grito, acabou por se arrastar durante vários anos. Não, não estava a fugir de mim, com um nome inventado, que insisto em usar, estava apenas a vestir outra pele. Quem sou? O impostor que diz o que lhe vem na venta e que apanha tudo o que deixa cair. Sem medo do mais negro dos negros e versado em filmes das séries de A a Z.

Mas tento explicar, só para alumiar a labareda. O nome próprio foi retirado de um escritor.

Ring Lardner, um colunista de desporto americano dos anos 20, famoso pelos seus contos satíricos. Autor favorito do irmão mais velho do protagonista de um livro de culto que li e reli. Que todos leram. O irmão que nunca aparece. Sátiras, sim, era o forte da sua escrita, teor que é apenas a décima parte do meu lança-chamas. Quanto ao apelido veio da água que bebi na fonte dos meus headphones. Marca Joid. Mas tudo isto não interessa agora, já se foi, e ninguém deu por isso.

Ao que venho?

Venho tentar salvar um pouco da memória. Exercitando-a por alguma arte marcial. Pô-la em jogo.

Acaba por ser sempre a mesma cantiga, mas será um recreio onde a realidade pode estar sempre em causa. É também uma procura da verdade, na lembrança das coisas que não foram feitas e que aqui podem ter espaço para abrir as asas. Acontecendo.

Podia ter começado com outro exemplo, o do Aeroporto. Poderia até ser melhor. É importante o começo, a primeira impressão. O primeiro encontro, o primeiro amor. Mas sobretudo, é preciso não esticar demasiado a mão e adulterar a sensibilidade das coisas. A sua solitude. Pelo menos temos de ter essa consciência, do que é e do que não é.

Os aeroportos são lugares neutros onde tudo converge e flutua. E como espaços de persistência, não existem. São uma realidade impermanente. Apesar da estrutura, apesar das paredes e de toda a mente criadora que lhes deu vida e os milhares de outras mãos que os colocaram em pé, os aeroportos são espaços para fazer descolar a imaginação. Ponto de partida para uma viagem. Ponto de chegada. De transição. Como tudo aquilo que fazemos. Um entretanto. Alguém que se acaba, alguém que se inicia.

Rola-se.

Porque me lembro disto? Porque ocupa o lugar mais frontal do presente, a confundir-se a toda a hora com os néones da cidade. É sempre o debitar da inconsciência, tudo conta de somar. O resultado, não sou bom nisso. Foi – é! – um ponto de viragem. Como se tivesse morrido ali. Todo. Não sei porquê, não sei por quanto tempo. Se se pudesse morrer apenas por algum tempo…

Era o meu mundo e o outro. O outro que nunca soube pisar com orientação. Sempre em fragmentos. Aos rombos. Aturdido pelos tropeções. Porta atrás de porta. Montanha atrás de montanha. A querer esconder-me atrás da evidência, com medo da prova dos nove. Da realidade dentro deste corpo. Meio cheio. Meio vazio.

E terá sido quase uma regra, esse pau de dois bicos. A procura de uma luz, para ver, mas a deixar-me, por isso, à vista. A queimar a mão. Como os espanhóis que precisam sempre do tacto para tirar conclusões. Não que fosse apanhado em algum flagrante delito. Eram – são! – normalmente coisas simples que conseguia tornar, por aventura, descuido e prazer, complicadas. Percorrendo o caminho mais longo.

A PAZ DOS GRILOS

E assim, queria começar por dizer ao que venho. Só pelo simples desejo de revelar. Acto importante esse. De acender o isqueiro, que comprei para o caso, e deixar a chama a correr. Toda ela chama. Não há copa de árvores. E os grilos já se foram. Mas por mais pequena que se faça a luz, por mais escasso que seja a essência de aglutinar pensamentos, há um começo lá ao fundo. Uma origem.

Nesse pequeno contratempo – da dupla nacionalidade, do eu que não é nosso -, ainda com um eco de calor, procuramos inspiração. Procuramos uma força divina que nos desabale. Como um milagre para coisa nenhuma. Para o céu. Limpos de ideias e de espaço. O Aeroporto é a memória que concorre minuto a minuto com as manobras da consciência e os néones de qualquer cidade. O desejar. O esperar. O existir. Todos eles membros da nossa autoridade. Atacam as certezas com um golpe de inesperado. Porque vim. Porque fiquei. Porque estou, ainda. São o produto das equações do imediato. Existe apenas a impossibilidade de estar noutro lugar – nas árvores da Serra – por mera virtude atómica, mas também porque mais uma vez a equação assim o concluiu, tornando múltiplos factos o resultado mais errado.

No outro dia, nessas vantagens que o mundo em cadeia permite, pus-me a conversar com alguém de quem não sabia há séculos. E continuava sem saber, por não me recordar de nada. Zero. A falta de uma lembrança é como estar a surripiar a realidade de outra pessoa, a vestir a pele de outra identidade. Como numa peça de teatro. Aos rombos e aos tropeções. “Agora és aquele”.

Nesse diálogo varremos tudo. Percursos, aniversários, o dia que estive em sua casa, ela na minha onde passava as férias. Na Serra. Uns dias na rádio. E nada. Um buraco negro de coisas que fiz e que não existiam mais, em lado algum. Memória de rato? Mas depois, dias mais tarde, percebi que estava erradamente à procura das singularidades de uma rapariga loira e que esse era o detalhe que era preciso corrigir para a luz se acender. E a lambreta lá estava de novo como uma espécie de cigarro perfumado. Moreno. A trazer a chama.

Para que tudo funcione, é preciso encontrar a gaveta certa. É uma questão de sintonia, pouco mais, a que noutra altura vamos ligando os fios. Somos isso. Todo esse movimento. Os aeroportos. Os grilos. A noite a suavizar o campo. É um caminho de incertezas e de coisas vividas.

Não podia ser mais verdade. Seremos sempre assim, viciados no aroma do que é efémero e, sem a mínima dúvida, abertos para o mundo e para as coisas mais belas, onde os pontos de viragem levam a uma representação sem tempo. Sem palco. Uma certa paz, uma certa ilusão, um certo paraíso, semeados na fronte. Talvez a total escuridão e um espanhol, cá dentro, a querer sempre saber mais do que os outros, a querer tocar em tudo o que não vê. Porque não sente e não existe. A querer ter na ponta dos dedos o que ainda não tem na ponta da língua. E que por isso não sabe dizer. Só sabe ver essa figura em chamas.

Em conclusão, é isso a que venho. Querer enganar-me na memória que me aguenta. Toda ela presa por alfinetes. Mas a suportar-me. Ainda.

Porque há sempre uma esperança. Em guarda. Não tão vã como isso. De uma plenitude sem retorno. Que nos espreita. Que nos vigia. Que nos alimenta o espírito. Como uma luz apagada.

[Memória Indulgente #1 • Hoje Macau • ABRIL 2010]

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