Toshiba Zoom JK-TU52H

SCROLL

Dionísio, o Exíguo (ou o Humilde), foi um monge do séc. VI, nascido na Cítia Menor (em 470), no que é actualmente a região da Dobruja. Membro da comuna de monges da Cítia, em Roma, e versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se na criação de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando ao uso do conceito de Anno Domini, o Ano do Senhor.


De noite, a certos dias do mês, trabalho numa empresa de segurança. Sou vigilante e revejo as gravações de certas câmaras espalhadas pela cidade e pelos domínios públicos. Este é um momento desses. E reverte-se numa história que fui agarrando aqui e ali e que procurei seguir a todo o custo, reajustando os meus horários e o tempo livre, trocando as folgas com os meus colegas. Gente que nunca vejo. Não me pagam nada por isto, faço-o como voluntário, para combater as insónias e o mau feitio. Gosto de vigiar e entrar na vida dos outros, sem intervir. É o velho hábito do voyeur. Que o mestre Hitchcock me deixou por herança. Mas passemos à minha Lolita.

Estamos numa recebedoria das finanças. Uma vinheta da superintendência governamental. Começa assim.

– Vai lá acima! Foste seleccionado.
– Seleccionado?
– Sim, para a Comissão do Urso!

O material não é muito bom e a imagem deveria ser a preto e branco mas tem uma coloração estranha, como se na realidade fosse a cores e lhe tivessem colocado um filtro para daltónicos. Por essa razão, cada um dos intervenientes aparece com um brilho distinto; um com um silvo fosforescente, que vem como um tiro, e o outro com um tom púrpura, que lhe dá um ar de fantasma. Não sei se é problema do emissor ou do receptor, na requisição era capaz de estar outra coisa – uma Toshiba como os emissores lá fora – mas pelo caminho há sempre alguém que mete a mão ao bolso, colocando um zero a mais. Por vezes, vou para casa a pensar que o problema é só meu. E não tem cura.

Mas à frente.

– Não dizes nada?
– Que queres que diga?
– Foi uma fortuna ter saído a ti. Não te mexes, não estás contente?

Não se mexia por causa dos nervos. E a razão só a descobri mais tarde, depois de investigação prolongada. Na realidade, tinha percebido U.R.S.O. – a sigla de um organismo que sempre pensou só ter existência nos seus sonhos ou nos livros aos quadradinhos – e ficou perplexo, com um certo medo em saber o que o esperaria lá em cima, no andar do CA, o Conselho Administrativo.

Para descortinar o que era o “URSO” tive que seduzir uma data de gente para que me desse acesso a documentação privada, mas isso conto depois. Depois da desilusão, que veio logo de seguida.

Gosto das coisas perfeitas – nada é ao acaso – e quando meto uma na cabeça levo-a até ao fim, custe o que custar; até àquilo que mais ninguém repara. Acaba por demorar um século e depois chateiam-se comigo. Agora não interessa. Seja como for, foi fácil colocar os telemóveis de ambos sob escuta. O parágrafo seguinte veio por SMS, numas horas extraordinárias que fiz na BMP, a Brigada das Mensagens Perdidas.

“Fds meu! afinal eram ursos e nao URSO!”

Nessa altura já eu tinha encaixado um GPS no automóvel de cada um, mesmo em casa sabia por onde é que eles andavam, tal era a obsessão. Bastava pegar no meu telemóvel. Uma marca de cada cor. Como as luzes da câmara.

O prolongamento do enredo foi então apanhado num engarrafamento de trânsito numa via algures na cidade. Tive que enviar o filme para alguém que decifrasse a leitura pelos lábios. Mas hoje em dia consegue-se tudo, na Suíça ou mesmo aqui ao lado. Estava a chover e levaram-me um pouco mais caro.

– Eu não te enganei, o Urso, toda a gente sabe o que é. Diz-me só como correu, quero saber.
– Ao que parece é só por causa de uns ursos, foi o que percebi. Ursos para aqui, ursos para ali. Assim que soube que era isso desinteressei-me do assunto. Não sei mais nada, não te posso dizer, mesmo que queira. Não tinha a tecla de gravação a funcionar.
– Desinteressaste-te? Mas tu tiveste uma sorte dos diabos. Sabes quantas pessoas queriam fazer parte disso e estar no teu lugar?
– Não, quantas?
– Só nos nossos serviços para aí umas mil. Nem imaginas a inveja assim que souberam. Ficaste famoso. Estou orgulhoso por ser teu amigo.

A história do U.R.S.O é a seguinte. No ano 27 AC, um grupo de pessoas, de origem indefinida, maioritariamente celtas desavindos, aborrecidos com a vida, decidiram juntar-se em certas alturas do ano para debater a natureza humana e encontrar caminhos para uma existência superior. O nome vem do latim e quer dizer “Uma Rede Sem Ordem”. Não tinham indumentária, nem ritos especiais, nem grandes lenga-lengas. Não provavam vinho, nem muito menos o cuspiam de seguida. Acreditavam no Homem, na Natureza e na sua fusão como poder criativo e inspirador, e o que os regia era um simples tratado de astronomia. O fluxo do Sol. As fases da Lua. O breviário das estrelas e as suas reproduções no céu. As águas e as marés. Tudo como marcadores de uma postura mental. Uma orientação. De tempo e de espaço. E um desejo imenso de fazer melhor, pelos que sobreviriam. Pelo futuro.

Segundo reza a lenda, estamos a falar de uma individualidade onírica. Esse documento, encontrado séculos depois numa ermida ostrogoda, viria a ser a base de muitos manuais sagrados, como a Bíblia e o Aldrabão, que viriam a incentivar muitas das religiões dos nossos tempos. Nos pensamentos mais nobres desta criatura de tez transparente, funcionário público dedicado, essa trama ainda hoje subsiste, engrandecida por um universo vigoroso, que a qualquer momento despertará, para o bem de toda a humanidade e de todos os seres vivos.

Ainda hoje lhe faz confusão os adjectivos que dão aos países, acatados às amarras de alguma religião. E quando, por castigo, ouve a “Indonésia é o maior país muçulmano” fica meio desvairado com vontade de apertar o nariz a alguém. Em discussões acaloradas no café refuta toda a sua descompostura, “antes de ser rapaz ou rapariga os bebés já têm uma etiqueta”, como se viesse tudo escrito na ecografia. E por vezes ainda pragueja como quem larga um palavrão dizendo: “Virgem santíssima!”

E o que o desvia – e o acalma – é o seu pensamento no U.R.S.O., a imaginá-lo a rugir nos confins do tempo, quando os anos ainda não eram anos. A fazer contas de cabeça, a meditar como é que o monge cíta Dionísio, o Exíguo, se pôs a calcular a data da Páscoa cristã e de repente se estava no ano 527. Incrível como o cosmos muda. E antes disso? É tudo de ouvir falar. Como o Rei Herodes, contemporâneo de um certo Cristo.

Muito à frente, no ímpeto da muralha do tráfego, no que restava da câmara 1111.

– Vais andar a passear. És uma pessoa importante agora. Não podes pisar o risco. És um observador. O olhar do povo. És um dos novos. – dizia-lhe o amigo enquanto arrancavam e o burburinho viário reocupava o óculo da câmara. Ele com certeza ainda a matutar na obliteração nazi e seguramente a dizer para o amigo, de olhos vagos, “e os Judeus são porventura alguma raça?”

De vez em quando cruzo-me com eles na rua. Se os vejo ao longe atravesso a passadeira e fico junto a estes dois comparsas, como se fossem as únicas pessoas que verdadeiramente conheço e em quem confio. Já sem a cor lima e púrpura que os caracteriza na imagem mas ainda com alguma peça de roupa a condizer com tempos idos.

No outro dia apanhei uma conversa ao telefone. Uma chamada internacional.

– Sabes, hoje abri os ouvidos e fiquei todo o dia atento.
– Sim? Conta, o que se passou?
– Alguém disse que os ursos deviam ir para a Assembleia. Que deviam arranjar lá um lugar e fazer umas obras de adaptação. Não custava nada. Que são um assunto de estado e que deviam ser respeitados como tal. Que deviam ser chefes.
– Chefes? Não acredito!
– Sim e já estavam a atirar ideias para o ar: de colocar dois botões enormes no tampo das mesas para que eles pudessem pressionar!
– Para pedir comida?
– Não! Para votarem as leis. Dizem eles que isso é o verdadeiro exemplo de democracia.
– Isso é verdade? E o que disseste tu?
– Não disse nada. Como sabes, eu só lá estou para ver, para no final produzir um relatório. É essa a minha função. Mas gostei da ideia. Finalmente fazem alguma coisa pela natureza. De qualquer modo já todos tinham aprovado essa resolução, levantando as duas mãos em vez de uma.

Fascinava-o a ideia de ter um U.R.S.O. a comandar os destinos de um povo, fosse ele qual fosse. Para além de se ver acordado no seu sonho, já era um bom começo e um exemplo grandioso para restituir o bom nome às nações.

Quanto a mim, que estou do lado de cá, acho que é uma excelente ideia. Talvez me traga o desejado descanso. Terei outras vigilâncias para apreciar e sempre posso ir variando a minha indumentária. O meu exíguo rito.

[Memória Indulgente #5 • Publicado no jornal Hoje Macau • 12 JUN 2010 • Época embebida na síndrome de certos ursos panda]

Pin It on Pinterest