A minha lista

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Faltam aqui pessoas que não falem nem chinês nem português. Que possam originar na sala de reuniões o bizarro enleio da tradução. Gentes que são também da terra, mas com o gosto e a visão debruçados para lá desta montanha, que ainda não verteu coisa alguma.


Quando se reflecte sobre a cultura de um espaço urbano pretende-se, com esse pensamento, formular uma nova visão para todo o enquadramento económico que a vertente cultural pode ter no desenvolvimento de uma cidade – e falo de cidade porque Macau é um território pequeno, de limites contidos na sua dimensão e na sua história e que lhe dão o sabor a verdadeiro, superando o próprio idioma com que ela se veste. Para que isso aconteça verdadeiramente – o fenómeno da Cidade Criativa – é necessário ir buscar os melhores exemplos. Exemplos esses que existem tanto nas figuras humanas como naquilo que se edifica, na Arquitectura, na Economia, nas Artes – e em tudo o mais que é belo e expressivo, dentro e fora do espaço que nos circunda.

Tudo isto vem a propósito da mais recente criação do executivo de Macau: o Conselho para as Indústrias Culturais; e da composição emblemática da lista dos seus delegados, apresentada esta semana ao público no Boletim Oficial.

Com o número particular de 43 membros, a lista engloba “individualidades ligadas às artes e cultura, bem como profissionais, académicos e empresários”, que formam com os oficiais do organigrama público da RAEM, na maioria directores de serviços, o “think-tank” que vai ajudar a desenhar a Cultura para o território e sobretudo a valência nos cofres das suas finanças. Isto tudo, diga-se, como uma experiência que traga um diferente fulgor económico tendo em vista o afastamento da luz ofuscante dos casinos, com a sua malha de sorte e azar, que nunca deixará de ser a torneira que faz vibrar toda a bonança desta terra, e da qual ela é para sempre refém.

Deputados, políticos de várias relevâncias, dirigentes associativos, professores, artistas plásticos, personalidades ligadas às letras e ao audiovisual e outras figuras do xadrez do território compõem o ramalhete desta comissão. Dizendo-o assim não aparenta nenhum mal, parece até que se prefigura como a equação certa, e acredito que todos vão dar o seu melhor nas tarefas que lhes são agora confiadas; se alguma destas coisas chegar a ver a luz do dia.

Mas quanto a mim; como cidadão de Macau insatisfeito em permanência – porque quer sempre mais do que aquilo que existe; porque espera continuamente que um dos grandes casinos – ou lá como se diz – ou qualquer novo empreendimento hoteleiro – barra – comercial que se agarra à floresta do chamado “entretenimento”, traga sempre no desenho do seu carácter, por exemplo, uma série de salas de cinema, com filmes a sério, um recinto para música ao vivo – amplo, mas não em demasia – onde se possa saltar e se percebam as linhas que saem das bocas dos cantores; que não tenha o pastiche dos repetidos sucessos que são tocados nos antros do mundo inteiro, nem uma superfície de gente que diz “sabes o que é que eu venho aqui fazer não sabes, darling?”; esta não é a minha lista.

E entro no campo das generalidades ao escrever na primeira pessoa. Na verdade, refiro-me a alguém que se quer perder em livrarias e passar lá o dia de rabo para o ar se for preciso, deitado no chão a ler, como nas enormes “casas de livros” de Taiwan, Singapura e mesmo em Hong Kong, para não ir mais longe. Poder escolher, é particularmente isso. Ser invadido por acontecimentos subtis que não possa fazer em simultâneo, porque o tempo não o permite. Olhar para a música que oiço até à exaustão no walkman acreditando que um dia possam vir tocar num “teatro perto de mim.” Sim, não estamos em Londres, nem na Brixton Academy, mas vai-se sonhando. Até à última. Em suma, querem-se espaços culturais fervilhantes e o diabo a sete.

Passaram dez anos sobre a implementação da RAEM, outros oito sobre o início da era do General, e de muitos outros militares que afoguearam o posto sabendo pouco da terra. Para trás houve ainda um caso que envolvia fruta. Portugal em 400 anos nunca trouxe um governador que tivesse em pleno o domínio da língua chinesa, para a compreensão do povo que iria administrar. E para dialogar com o “outro”, do lado de lá da cerca, que deu luz verde e baixou as rédeas para que aqui pernoitássemos tanto tempo. Isso quer dizer muito sobre as intenções de uma nação. No fundo este lugar não foi mais do que uma pequena extensão da “santa terrinha”, com uns mercadinhos mais baratos. Com um governo próprio. E um bispo. Faltou o xeque-mate.

Mas nesta lista – é disso que se fala – era preciso incluir gente do mundo. Acredito que os seus membros são gente viajada, que já foi a museus, daqueles que junto à fronteira do seu interior têm um efervescente espaço comercial, com todo o rol de souvenirs e peças que materializam o que já por si nunca mais se esquece; que já assistiu aos mais variados espectáculos de renome mundial; que nas paredes dos seus lares têm pinturas originais e que as admiram; que sabem distinguir o gato da lebre e que se importam com isso.

Sei que o senhor U, o alcaide da cultura de Macau, se deslocou a alguns dos centros desta verdade criativa e viu com os próprios olhos aquilo de que se tratava, tirando daí as suas ilações, ou mandando uma comissão avaliar mais tarde ao pormenor. Pelas irregularidades do piso dos setenoveoitos que grassam pelo continente chinês, nos bairros cheios de galerias internacionais, conseguiu respirar essa conjugação que mistura arte, cultura, comércio, turismo e, sobretudo, o gosto da população no sabor de um profundo abraço. Sim, são como as florestas, crescem desalmadamente. Mas ao contrário, não sei se é este o termo certo, nascem com um controlo remoto. Não caem de pára-quedas, nem rebentam de modo daninho. Têm um plano, que muitas vezes é tão somente a face mais correcta de uma ideia espavorida.

Mas falta qualquer coisa essencial nesta lista, de gente particularmente endinheirada. Não há ousadia. Para além das excepções evidentes, faltam muitos dos que já fizeram. Que usaram as suas mãos e criaram uma obra que se visse e, que se quiserem, só por piscar os olhos, podem fazê-las em série. Esta é mais a lista dos que mandam fazer. Afigurando as vicissitudes de uma demão profundamente tecnocrata. São gente de sucesso, na carreira ou na conta bancária. Sim, a maioria, também no saber, porque sem saber nunca chegariam ao patamar da afirmação onde se encontram. Talvez esteja a exagerar, porque falar de todos no mesmo saco é algo complicado e se calhar devia manter-me em silêncio, como toda a gente, e esperar para ver o que acontece. Eu, “que nem sei nada de finanças mas que ainda tenho uma biblioteca”.

Faltam aqui pessoas que não falem nem chinês nem português, que possam originar na sala de reuniões o bizarro enleio da tradução. São de Macau, mas o seu gosto e a visão estão debruçados para lá desta montanha, que ainda não verteu coisa alguma. Faltam esses indivíduos que tenham a correr dentro do corpo não um fluxo de sangue mas um arco-íris. Gente que não bata bem da bola. Sim, que se perdem debaixo do vulcão, engrandecendo-se nas suas fagulhas. E todos os outros que nasceram com o dom da luminária. Sei que há Pessoas assim por aí e nem precisam de ter um nome próprio igual ao do poeta. Com um bocado de esforço, repescando um ou outro à tabela oficial, até era capaz de enumerar uma lista de 43. Mas é melhor estar calado e ir reparar as minhas próprias contas.

No entanto, aqui que ninguém nos ouve, era isso que queria dizer. Escrever a minha lista. Por Macau. Para o caso de valer a pena.

[Foi publicado com uma tiragem de mil exemplares algures no ano de 2010, perto de 2011]

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