O número errado

SCROLL

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um urso, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?”, repeti eu, e-s-p-a-ç-a-d-a-m-e-n-t-e, várias vezes.


Só fala através do advogado. Ao fim de três semanas, no meio de um nevoeiro intenso, sem qualquer possibilidade de diálogo, é a única conclusão a que posso chegar. Ligo-lhe. Assim que me ouve a voz – “Estou?” – desliga. Não há tréguas, não há vistas do céu.

Da última vez disse – “Fala com o meu advogado, se quiseres falar comigo…” – e foi-se, deixando aquele silvo de uma nota só. No ar. Mas eu sou teimoso, insisto até à última, até a linha rebentar. E vou telefonando, sem sequer dar por isso. Marco os números como se nada fosse, não acreditando que possa ser assim. Que aquele ali a marcar os números seja eu. Que seja este o mundo de hoje, mesmo depois de uma conturbada sequência de vinte dias.

Faço registos. Quantos segundos, quantas respirações, qual o ruído de fundo. Não há um padrão. É aos solavancos. Não há regularidade alguma. É ao calhas.

Hoje. Há pouco. Tentei de novo.

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um guaxinim, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?” – repeti eu, espaçadamente, várias vezes.

E cinco minutos depois, ou dez, ou vinte, uma voz masculina – Está lá, Sr. de Tal? Daqui Fala o advogado de fulana de Tal…” – isso ou qualquer coisa do género, continuando depois de uma pausa e de uma inspiração forçada – “Ocorreu um grave acidente e a minha cliente deseja falar consigo, com a máxima urgência…”

E desta vez sou eu que desligo. Sem qualquer nota. Cheio de um cansaço inesperado.

Agora estou para aqui. Não, não tenho vontade nenhuma de lhe ouvir a voz. Ou de a ver. Nem é por causa dos tubos, todos enfiados na boca. Podem pensar que é por isso, porque ela é uma inválida, mas não é. E na verdade nem com o advogado já quero falar. Foi. Aconteceu. É a vida que temos.

Lá fora? O que há lá fora?

A janela traz-me um sol nocturno e uma brisa suave. Alguns pequenos ruídos lá em baixo, mas nada de muito grave, nada de muito agudo. Mas antes uma mistura das duas coisas, sem qualquer luxação. Sem penumbra.

E o mundo não muda assim.

Não pode.

E assim ficamos. À espera que o destino dê mais uma curva. E regresse.