Cores proibidas

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Não é rumba. Não é tango. Não, também não é samba, nem o twist. O que é, afinal? Uma orquestra de câmara? Um baile de salão, os loucos anos trinta? Nem canto gregoriano é. Fado também não. Bolero, mango, merengue. Nem por sombras. Mas tem cor. Escorre das paredes e ferve por entre o sangue da alma. E é isso que vale. Quase sempre.


Ainda hoje estou para perceber como vim parar a esta terra. O que sei, sem qualquer dúvida, é que será sempre extraordinário pensar nesse facto. O imediato dessa decisão, deliberada no limiar de um momento, que arrastou toda uma vida para um destino desconhecido. É a constante noção de estar a sonhar, sempre que aí chego. Os cheiros, os sabores, o fuso. Acordar nessa fantasia e viver dentro dela, sem escape. Estranho como se pode despertar assim dentro de uma ideia tão fixa, onde todo o universo que nos suporta parece realmente aquilo que não é, e daí tirar toda a sintonia. E é tudo aquilo que não é, se me faço entender. Estar a dormir.

Nem lhe chamo pesadelo, ou sequer um tormento. Não, nada disso. É o quotidiano. Este canal ficcionado em que tudo o que passa, de uma maneira geral, pouca importância tem. Não aquece. Quero dizer, aquilo que ocorre aqui ao redor e o que vai lá longe e que por ventura designamos por nossa terra, ou nosso país, se ainda o temos, é uma vida em paralelo, é viver numa dualidade firme. Prendo-me pouco na questão da palavra adequada, não pronuncio o nome Pátria, que não tem gosto nenhum, por agora. O que me parece, e sou em todo o tempo suspeito, é que o chão que pisamos não é bem um chão, é uma superfície sem modos definidos. Sem certezas. As ruas não são bem ruas, são cenários. As pessoas de quem nos vamos desviando não são bem pessoas, são figurantes, ou mais, são autómatos, que se multiplicam a cada esquina. E não chego ao termo fantoche, que já não vale a pena. O transeunte é um fingidor, já se dizia, porque normalmente vai em transe, assim poderá pensar quem queira ter veia de poeta.

Afinal esta coisa de carregar o corpo no dia-a-dia, de o mostrar, de o tornar uma coisa sólida – de pé – na chama de um qualquer ponto da evolução hominídea, é, em muitas ocasiões, um fardo insuportável. Esta face que movemos a bom gosto do espectador, para não parecer mal, que nos representa, que nos dá cara e que nos simboliza é, de certeza, um falso chamariz. Um isco. Dois olhos, uma boca, um nariz. Estas orelhas e o resto. Firme tédio. Até os macacos têm a percepção disso, do fastio que é sentir a própria imagem. Ora que envelhece, ora que se enruga, ora que se atormenta. Como se não houvesse mais nada para ver ou para representar. Como se fossemos apenas isto. Um corpo, uma cara, uma voz. Um sentido. Belisquem-me se por acaso estiver errado.

Não sei como foi. Era de noite.

Desconheço ainda hoje como tudo se multiplicoou. Foi de repente. Como um relâmpago. Viajava de carro com o amigo mais próximo. Esse que vivia mais perto de mim. Coisas da amizade – grandes -, pactos de longa data. Tristezas e alegrias juntos. Primeiros amores. Cumplicidades. Música. Nessa noite, não sei se o carro era o dele ou o meu. O dele, que pouco andava, um antigo Perneut, nesse tempo precisava de ler jornais todas as noites para não se afogar de manhã. Era meticuloso este meu amigo, com as suas manias particulares, tinha estas teorias de que os carros se constipavam de noite e depois não acordavam. Do sonho, do cenário, da superfície. Eu, eu tinha uma Rousseau 4L, o meu primeiro carro, que me tratava por tu. Que dormia comigo ao relento e que me acariciava enquanto viajávamos de noite pelos remoinhos do alcatrão. Conversávamos, eu e ela. A 4L. Foi um amor à primeira vista. Sofríamos os dois do mesmo modo, com a mesma velocidade. Sabia todos os seus segredos e por vezes carregava-a às costas. E ela adorava. Eu adorava. Partia-se e eu concertava-a.

Mas nessa noite.

Não sei qual era a viatura. Lisboa era a cidade e estacionámos ali perto da Avenida de Vera Cruz, naqueles prédios que seguem em carreiro até lá ao fundo, amarelos, todos iguais. Nada nos doía na alma. Tínhamos vidas estáveis, empregos fixos, seguros, duradouros. Namoros normais, como toda a gente que tem namoros normais. Subíamos ou descíamos, não sei bem, esse despenhadeiro da adolescência, por entre a vertigem de ser adulto e responsável. O de ser grande e ser aquilo que gostávamos de ser quando éramos pequenos. De tentarmos ser o que queríamos ser, sem rodeios, mas que não sabíamos bem o que era. A contornar a ilusão. Não tínhamos uma imagem a defender, não tínhamos assim grande coisa a dizer em nosso favor. Existíamos imiscuídos no vazio da sociedade, no seu buraco negro ou cheio de tonalidades de cinzento. Éramos uns entre os demais.

Mas nunca tínhamos sequer pensado nisso. Não nos importava. Não sabíamos. Não queríamos saber. Gostávamos das nossas coisinhas. De colocar os jornais no carro, de rolar com eles país abaixo e de nos perdermos sem consciência. Se o cabo do acelerador se quebrasse, azar. Arranjava-se maneira. Éramos isso. Normais. Estáveis. Sem futuro definido. Apenas o de toda a gente. A fogueira do destino da população inteira. Sem particularizar.

Era de noite.

Março ou assim. Um leve frio, uma leve brisa. Candeeiros que choviam luz sem nos cumprimentar, sem nos dar o seu lume. Porque nunca o pedimos. A porta pesada do prédio. Porta feita em série, para a sequência da linha de edifícios que compunham a avenida defronte de uma das alas laterais do Hospital dos Malucos. Nem viva alma se via, de cá e de lá do muro. Subimos. O elevador com aquelas portas de harmónio, que gritam melodias de canas se as abanamos. Um Tamborim, um Reco-Reco, umas Maracas. Era assim a porta que abrimos. Um Xequerê, um Caxixi, um Pandeiro Pastoril. A porta do elevador que nos levou a um andar qualquer, uma Clave de Rumba ou isso, uma Campaniça, ao sétimo piso, talvez, não me lembro de mais nada. Mas era um elevador que trincava melodias.

Da sala também pouco vem à memória, nem do amigo que nos abriu a porta, mal lhe vejo a cara agora. Embora saiba que tinha um aspecto de rosto bem vincado, nem com um ferro de engomar aquilo se endireitava. Sofás escuros, talvez, a dar para o cúbico, espalhados no soalho típico de quem já teve um cão em casa. Ou ainda tem. De verdade ou em sonhos. Ouve-se sempre o cão a raspar com as unhas nos tacos de madeira, que corre para saltar para cima do dono, quando este chega a casa. Um cão, sem pai, sem mãe, sem alguém que trate dele. Não importa. Sentámo-nos. Não sei o que veio a propósito. O que fomos realmente lá fazer, se já levávamos a ideia encubada na cabeça. Uma semente qualquer pronta a florescer e a ganhar vida. Não sei. Não me recordo.

A noite escura.

A iluminar-se. De repente. Na figura de uma cor proibida. Esse, que pensei ser pessoa chegada, o que nos abriu a porta, tinha estado aqui nesta terra. Aqui de onde escrevo. Tinha por cá vivido, tinha construído aqui uma vida que lhe deu prolongamento quando regressou à… bem, vou dizer… à Pátria. O que foi que ele disse? Pouco. Nada de mais. Qualquer coisa. Vidas de funcionários de uniformes que mudavam de cor consoante a época do ano, ascensão nas carreiras, negócios da China. Jornais, peças de porcelana, um mundo de fantoches. Já não sei o que disse. Mostrou-nos fotografias a preto e branco. Pequenas. Dentro de caixas. Nada fora do normal. Velhos. Ruas com carros a passar. Uma estátua com um homem a cavalo a gadanhar em fúria. Água, um rio, uma baía. Barcos antigos. E de repente um trovão lá fora. Não sei o que foi. Ainda hoje estou para perceber. Não era nenhum buraco negro. Nenhum futuro indefinido.

Nem ficou de dia nem nada. A noite continuou.

Mas o relâmpago. De repente, e isto só me aconteceu se calhar uma vez, com essa intensidade, um não sei quê de visionário, que num ápice, nos trouxe uma vontade enorme de mudar de vida. De deitar tudo ao ar. De espalhar os alicerces pouco profundos de tudo o que até ali tínhamos construído, de os espalhar ao comprido. Uma implosão da alma. Sem receio nenhum do que viesse a acontecer. Mas foi a certeza. A certeza do acto consumado que me surpreendeu. Para mim, esta terra, eram os acidentes na primeira curva de uma corrida de automóveis. Era o amontoar de carcaças fumegantes à beira de um funil. Um funil feito de alcatrão. Era isso. Não era muito mais. Casinos? Que me importavam os casinos. O que quer que fosse. Era a vidinha que me segurava e que eu queria cuspir. Que sem saber, num abrir de luz, se colocou à minha frente e me barrou a visão. Um caminho. Que nesse instante me deixou cego. Uma espécie de terreiro dos loucos, que se avizinhava da janela. Uma fuga.

Sim, tínhamos talvez as caixas das fotografias no colo. Pequenas, as imagens. E íamos passando. Um ao outro. O meu amigo a pensar nos jornais que se tinha esquecido de mudar no carro. Eu a pensar na morte de uma bezerra. Mas foi entre uma coisa e a outra. Entre esse nada que nos representa a qualquer hora do dia, que não tem nome, que não conseguimos definir, que nos olhámos de frente. Não nos vimos, olhámos tão somente. Como se olha e não se vê nem se distingue. Como se olha e se vê estrelas a passar. Telepatia, sonambulismo, os guizos das portas do elevador. O Balacató, o Xequebom. As Castanholas. Tudo isso ainda a ressoar nos ouvidos. Cegos e surdos. Mudos não, porque dissemos. Porque falámos. Porque nos repetimos. E depois disso nos dias que se seguiram, em semanas intensas, deitámos abaixo o que possuíamos, o pequeno mundo que exercíamos, em troca de um bilhete de ida para o desconhecido. Apenas a ida. E deitámos fora o que nos compunha. Os carros e tudo. A minha 4L, que vendi por cem contos, desfez-se ao atravessar um talhão de terra, uma semana depois. Com o novo dono. Partiu-se de fronte a uma árvore. Triste. Um sobreiro ou assim. E morreu.

E essa noite aconteceu.

Tudo o que dissemos foi feito. Tudo o que afirmámos foi verdadeiro. Não foi preciso sangue nem pacto. Foi simples. Toda a verdade foi termos vindo. Decididos ao que quer que fosse. À aventura dos descobrimentos, o tesouro escondido, o barco dos piratas. O dragão dourado ou qualquer coisa do género. Foi um tufão que nos deu e ninguém acreditou.

E cá estou. Agora lembro-me de tudo isto porque faz tanto calor como fez no dia em que cheguei a esta terra, em 1900 e picos. Esta fornalha sem fogo visível que nos serve de corpo. Este incêndio. O que dissemos, com a imagem de alguém que tirava uma fotografia em cima do colo, sem saber para que lado se virar – o cão com as unhas no soalho – depois de olharmos sem nos vermos, foi apenas: “Nós vamos para esta terra!”

A noite.

Esse momento magnífico. Que nos fez ir. Vir.

Continuo ainda sem perceber como isso aconteceu. Mas o certo é que cá estou. E mesmo que ele – o companheiro de aventura – já se tenha ido, a verdade é que cá vou ficando. Para sempre? Não. Só um pouco mais. À espera que me virem na frigideira, uma última vez, e que me larguem do paralelo. Para ver apenas o que vai lá ao longe, no canal a que chamamos a nossa terra. O nosso país. Se ainda o temos.

O Gongo, a Caixa Surda, o Berimbau. Os instrumentos proibidos de toda uma percussão. Do meu elevador. Do Chinfrim. Que é tudo o que compõe a minha Pátria.

[Publicado no jornal Hoje Macau no dia 22 de Julho de 2005]

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