Em caso de incêndio não usar o elevador

SCROLL

Não é que as coleccione ou as use. Eu gosto de experimentar, de ver, de saborear. E é sempre um acordo mútuo. Sabemos sempre para o que vamos. Mas às vezes é complicado. Depois começam a telefonar-me. A querer mais. Jantar fora. Ir ao cinema. Estabelecer uma relação. E, sim, até posso fazer isso, de vez em quando. O problema é que vem sempre outra a seguir.


Se alguém me perguntar do que gosto mais, sei muito bem o que vou responder.

Estamos num estúdio de televisão. Do outro lado do ecrã os telespectadores seguem o talk show mais popular da TV, chama-se “Esta Noite” e eu sou um dos convidados. Já me fizeram algumas perguntas e respondi, mas não era nada que valha a pena realçar e por isso não vou  contar.

Por um momento as câmaras viram-se para mim. A atenção do moderador e do produtor também. As duas senhoras que me acompanham neste tête-à-tête, e que falaram do que mais gostavam, podem agora descontrair por uns minutos e passar a mão pelos cabelos.

– E o Senhor Joid, de que gosta mais? – é um programa em directo, com uma pequena plateia em que as pessoas batem palmas e às vezes se riem.

– Gosto mais de mulheres. É isso, não há coisa de que goste mais.

– Mulheres? – há um grande plano da minha cara, como no livro de Jerzy Kosinski, “Chance”.*

– Sim. Gosto de passar o meu tempo com elas, de as explorar, como se me perdesse no meio de uma selva. – se calhar não era suposto estar a dizer isto. Compreendo, não vinha no guião. Mas não consigo mentir.

– Hmmm… – diz o moderador. As duas senhoras sentadas ao meu lado seguem-me com atenção.

– Eu sei, talvez estivesse à espera que eu respondesse outra coisa, não era? Mas é isso mesmo: mulheres! E como são difíceis, as mulheres. Complicadas. Cheias de pequenas manias. Mas seja como for, é do que gosto mais. Não posso viver sem elas. Nem posso mentir e inventar outra coisa qualquer.

– Os homens também são cheios de manias… – era a voz da rapariga do meu lado esquerdo. Loira e perfumada. Saia acima do joelho. Perna cruzada. Cor de praia. Estamos no Verão.

E o moderador:

– E não gosta de mais nada? – tem um pequeno sorriso nos lábios, quer livrar-se do assunto. É mais um daqueles palermas que não se desvia muito do convencional. Pensa sempre nas famílias lá em casa. E está com medo que eu solte um palavrão. Pingos de suor agitam-se lá dentro.

– Não. E em certas alturas até encontro várias ao mesmo tempo. Depois já se sabe, há sempre uma ligeira confusão. – a senhora do lado direito, mais velha e mais pálida, olha-me de alto a baixo. A pensar como é que um gajo como eu, que aparentemente não consegue despertar a atenção de alguém, até que tem qualquer coisa. O moderador não diz nada.

Eu continuo:

– Eu gosto de experimentar, de ver, de saborear. De apreciar o corpo todo. Porque é quase sempre uma questão de corpo. Mas também de olhar, sim. Também de olhar. E há os cabelos que voam. Os gemidos. Os beijos que se perdem.

– Na Selva? – procura saber o moderador, já mais interessado. Já mais liberto. Com o botão da camisa desapertado a querer saltar da sua indumentária. A gravata mais solta.

– Sim, na Selva. É tudo uma selva, não é, as nossas vidas? Mesmo quando vinha para aqui, cruzei-me com uma mulher. Os nossos olhares seguiram-se um ao outro, com curiosidade. E no momento exacto de me cruzar com ela; era bonita, alta, distinta, fez assim com a boca. – e eu fiz assim com a boca. E pelo grande plano da minha cara, lá em casa toda a gente me pôde ver a fazer assim com a boca.

– Eu sei o que isso é – diz a rapariga loira ao meu lado –, também gosto de olhar. – e olha para mim com grande estrondo.

Faço um ligeiro sorriso e prossigo:

– E eu pensei que até me podia virar e continuar, para ver o que é que acontecia. Falar com ela. Mas às vezes o olhar, o cruzamento, o fazer assim com a boca ou com o olhar, basta. Pelo resto, fala a imaginação. Podia, sim, ir ter com ela e ser logo muito directo. Pedir-lhe o número de telefone e dizer-lhe que naquela altura não podia porque ia para um programa de televisão. Mas que mais tarde lhe ligava. “Gostava tanto de explorar o teu corpo”, dizia-lhe. E era isso.

Mesmo que quisesse, o moderador não me deixou dizer mais. E o grande plano passou para ele.

– Vamos agora para um breve intervalo e já voltamos. Não perca a segunda parte de mais um “Esta Noite”, o programa que mais se desvia do convencional. – Quando apagaram as luzes e lhe tiraram o microfone, o moderador estava um pouco espantado, não sabia porque tinha dito aquilo. Não vinha no alinhamento.

[PUBLICIDADE: ESTE ESPAÇO PODE SER SEU!]

 

No intervalo, no espaço publicitário de 10 ou mais minutos, estivemos a beber vinho. Um amigo meu que tem um restaurante, o Sebástian, tinha-me dado uma garrafa de Beaujolais, já andava com ela no bolso há uns dias, até parecia mal. Não era Nouveau, era um Cru Beaujolais de Côte de Brouilly. Eu que não percebo nada de vinhos. A produção arranjou mais duas garrafas. Ficámos por ali a encher copos e a dizer parvoeiras. A fazer tchin-tchin.

Quando voltámos para o Directo já estávamos todos meio tortos. Isto porque tínhamos de beber depressa. O produtor estava sempre a dizer-nos os minutos que faltavam e depois os segundos. Cinco, quatro, três, dois, um. E nós a beber aquilo tudo de golo. Até as senhoras. Entrámos no ar e retiraram as garrafas da nossa frente assim por milagre, parece-me que não sobrou uma gota. Pelo meio compuseram-nos a roupa e a cara, com umas pinceladas de maquilhagem, que mais parecia bourbon. Foi uma sorte ainda aparecermos vestidos. A rapariga do meu lado direito estava menos pálida e muito mais sorridente. A fungar do nariz.

– Senhor Joid – disse o moderador –, mudemos de assunto.

Já quase que éramos amigos. Até me confessou, enquanto os nossos copos se tocavam, que tinha escrito uns livros, e isso não se diz assim do pé para a mão.

– “Ring!” – intervim. Era eu a mudar de assunto. – deixe lá o Senhor, já somos gente crescida, andamos nisto há muito tempo. Mas já agora gostava de lhe dizer mais umas coisas. Não é que não admire o seu esforço por tentar levar o programa para a frente, mas a verdade é que já não me apetece estar aqui. Sei que anda nisto há mais de sei lá quantos anos, a apresentar esta noite desde que me lembro de olhar para a televisão, e não percebo como pode ter paciência para aturar esta gente toda. As câmaras, as luzes, as pessoas lá em casa.

E ele:

– Ring, é verdade, tem toda a razão. Já estamos para lá do prazo. Terá sido do vinho que me apercebi disso? Nunca tinha bebido tanto assim, aqui nos estúdios, e estas luzes… – e levantou-se. Os espectadores não sabiam nada do que se tinha passado no intervalo, por isso aquela conversa toda vinha a despropósito. Com um aceno de cabeça sugeriu que me sentasse na cadeira dele. Era isto que, ao estarmos a beber vinho, tínhamos combinado, de modo implícito, e eu percebi.

Sentei-me.

Continuávamos com a emissão toda “No Ar”, sem papéis, sempre a rolar, e sem ordens do realizador, que tenho a certeza que tinha ido procurar mais uma ou duas garrafas, e os cameramen esforçavam-se para nos acompanhar. Isto tudo passou-se em três segundos.

– “Esta Noite” – era um zoom-in, muito suave, por cima de mim – hoje será diferente…

E ia ser. As luzes ficaram mais escuras, todo o ambiente ficou mais íntimo. E eu disse que era melhor porem a música a tocar. A partir daqui, entrávamos em registo exploratório.

……….
* Jerzy Kosinski escreveu “Chance” (“Being There”, no original) em 1971. História simbólica e esotérica de um jardineiro néscio que se vê lançado para a fama de um dia para o outro. O livro seria adaptado para o cinema em 1979, com Peter Sellers no principal papel. Actor que vemos sentado no sofá em cima (à direita) ao lado do realizador Stanley Kubrick e da actriz Tracy Reed, na rodagem de “Dr. Strangelove”, de 1974. And the world goes around.