O radical livre

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A coisa não é para menos. Estamos nos primeiros dias do ano e os rubis estão à espera. Há demasiados anos à espera. É uma longa história. Melhor: uma pequena grande história. De aiaineses, criptões e uinãos. Alguns trintões e isoldos. Não, não queiram ler. Não quero que saibam o segredo. Ainda se põem para aí aos tirinhos. Mas o aviso fica feito: não façam o mesmo em casa e nada de dar com a língua nos dentes. Russell não é para meninos!


Assim que pisei os primeiros dias do ano eu vi logo que isto ia dar merda. É por isso que eu detesto a ideia do Ano Novo. Ficam todos a achar que a coisa vai mudar, a vestirem-se com lacinhos e sedas vindas sei lá de onde. Botões de punho cheios de códigos estranhos, um sem número de crocodilos mortos para as suas malinhas e os sapatos especialmente confeccionados por uns lavradores de uma aldeia ao largo de Srinagar como se estivessem nos subúrbios de Milão. Não têm lugar onde cair mortos. E para além de tudo, no final, nada funciona. É tudo fogo de vista. Fancaria, como se diz na vossa terra. Perucas, para ser mais franco. Para quê vestirem-se, então?

Logo a abrir o Stoneley não apareceu. Mais tarde, disse-me que ficou a dormir, sem se lembrar bem onde, nem com quem. “Costuma acontecer cada vez com mais frequência”, repetiu ele ao longo do dia, sempre com aquele sorriso a estalar os dentes. “Devo estar a ficar com um problema”, foi o que atirou para fora da boca antes de me agarrarem para não lhe partir a cremalheira toda, mesmo ali na soleira da estrada. Mas do seu fatinho Emporio Armani todo a brilhar não se conseguiu livrar.

“Foda-se, limpa-me essas marcas de batom dos queixos, parece que andaste mascarado de travesti”. Transsexual, para ser mais correcto. Mais como manda a lei. Isto foi o que eu lhe disse quando finalmente nos pusemos a caminho. Palhaço!

Como os segundos passam cada vez mais cedo, estávamos cinco horas para lá da hora marcada. O camelo arranjou um daqueles Coupé que se enfiam por todo o lado, em rapidez, não em tamanho. Pontes e mais pontes, traços contínuos a dar com um pau, semáforos todos eles comunistas e um valente susto entre dois autocarros carregados de turistas divisionários; ou rebeldes, para não fugir à verdade. Do outro lado, o iMundo já estava à nossa espera, com cara de muito poucos amigos. Não quero escrever mais asneiras, por isso não lhe descrevo as fuças ao pormenor. Digamos que não nos recebeu com um tapete vermelho, nem pouco mais ou menos. Mas os travões ainda estavam a chiar.

Era tarde. Os bancos fechados. O Seabra de certeza a perder o avião. E nós os três sem nada para fazer, porque o menino se deixou dormir, com a sua dúvida linguística. Primeiro dia para queimar, pensei eu cá para mim, mas não lhes disse nada. O iMundo quando o sol se põe começa a mudar de atitude, torna-se mais cãozinho de trela. E já com os néones a piscar resolvemos por referendo ir espreitar o local onde a Sorte Grande se iria encontrar connosco.

Esqueci-me de dizer que estamos em Ping Pong, ou lá como se chama esta terra, e que são nove da noite; se alguém andar à minha procura digam para deixar recado em cima da minha secretária, mas por favor não a aleijem. Viemos por terra. Demos a volta à garganta do Mar das Ostras. Até parecia que íamos na diáspora, por ela acima, armados em pistoleiros. Dasss! Podem também mandar uma mensagem se tiverem urgência. Enjoo com a porcaria dos barcos, é uma coisa que me dá desde pequenino: suores frios, surdo dos ouvidos, pára-se-me o cérebro e que querem que vos faça, dá-me cá uma má disposição que não dá mesmo para me enfiar nem sequer dentro de uma traineira das mais pequenas. Como o rapazinho do volante tem olhos em bico e tem carta vermelha e o carrinho tem matrícula do lado de lá da fronteira, não houve ualai *. Haver até há, mas isso é outra história, bem mais coooommmprida.

Napalm Street número cento e vinte sete. Prédio dos anos quarenta. Luzes e reclamos a tapar as janelas, um barulho insurrecto e raparigas por todos os lados, a entrar e a sair. “I’m a Creep” têm elas escrito nas camisolas, com as vogais todas a palpitar. É aqui mesmo, só se engana quem quer. Estacionámos em cima do passeio com os piscas todos ligados. Portas abertas – que não deu tempo para fechar – e o iMundo a fazer as honras da casa. Subimos para o quinto andar, sem elevador, porque estava entupido. O número da porta não interessava, o quarto tinha que ficar colado com o prédio do lado. Está bem, já estão a perceber onde quero chegar. Pois, talvez seja isso mesmo.

No prédio do lado funcionam todos os ministérios do jogo do território vizinho. É para lá que vão os restos – os trocos, quero eu dizer – que sobram de todos as casas de azar da nossa terra. Caso não saibam – descobriu o menino Stoneley numa das suas passagens de ano – existiu um acordo secreto entre peritãos e lurdueses, no século passado, que envolvia umas percentagens dos lucros das salas de jogo e umas lições de inglês para os governadores vigentes. A ideia original eram umas caixas de uísque que sobraram da Batalha do Ópio, mas como a coisa foi mal negociada, enfim, acabou nisso, com os maganeses a darem de esmola umas aulas da língua da Sua Majestade, salvo seja. Tanto faz. São milhões ali à mão de semear. E ninguém sabe disso, ou não quer saber. Porque é coisa que arde, quanto mais não seja, na memória. A escaldar!

Entrámos e sentimos o cheiro do outro lado da parede. A ouro, a prata e a diamantes. A rubis. A rapariga que me calhou era especialmente jeitosa, contou-me as histórias todas que eu escolhi, no idioma que eu também escolhi. A autobiografia de John Stuart Mill – o homem mais inteligente de toda a História – em checo e depois em eslovaco, o que vai dar quase ao mesmo, se perceberem um bocadinho da narrativa da humanidade. E uns versos berlinenses sobre o prenúncio de Descartes, em verso:

«Estou sentado cá dentro e como almôndegas;
de repente, algo toca.
Eu penso, admiro-me e estranho,
de repente, está aberta a porta,
eu saio e olho,
e quem é que está cá fora?
Eu!»
**

O iMundo escolhe sempre o mesmo, já os sei de cor:

«Eu sou linda.
Tu não estás nada mal.
Ela é bastante fotogénica para quem goste do género.

Eu sou escritor.
Tu tens uma veia jornalística.
Ele é um escrevinhador piroso e autor de romances de cordel.

Eu tenho um quilo ou dois a mais.
Tu bem podias ter cuidado com o que comes.
Ela está gorda que nem uma baleia.

Eu sou um sonhador.
Tu estás maluco.
Ele devia marcar uma consulta no psiquiatra.
»

Etc. Uma teoria de Bertrand Russell sobre o verbo irregular. Coitado, delira com aquilo. Não fomos mal servidos. Liam tão bem. Ficámos mesmo com as melhores e não podíamos acabar o dia de melhor forma. Dormimos que nem anjos, num jardim no coração do Bairro dos Electrodomésticos, só porque nos apetecia ficar perto da natureza.

No dia seguinte o Seabra não chegou, como estava previsto. Passámos o tempo a fazer quilómetros no Coupé. Lacrau, Antigos Territórios, Conlume. Túneis para lá e para cá. Lanchai, Tu Ué. E Pico, a abrir. Enseada do Recluso, Abretedino. E pela linha de cintura externa de novo um túnel para o lado de lá. Ou de cá, já não sei. E de novo a acabar a noite no número cento e vinte sete da Napalm Street. O código da noite era “Comecei isto e agora não consigo acabar”, traziam elas escrito nos biquinis. Só para distrair.

O Seabra lá apareceu quando nós estávamos a acordar no pavimento que liga os dois lados da rua do Lampião. Lampian Road, que é como lá está escrito por baixo dos gatafunhos do idioma local. O homem trazia um contrabando incrível de jet lag e não havia quem o aturasse. Vinha carregadinho de todo. Mas era ele que sabia usar a ferramenta, que vinha na sua malinha de mão, e não havia tempo a perder. Com cansaço aéreo ou sem ele, tinha que ser mesmo naquele dia. De noite.

“A arder de desejo”, era o tema estampado. Achei logo que aquilo não ia correr bem. O iMundo de novo, da boca de uma malaia com um metro e noventa, por gestos:

«Estou indignado, e com toda a razão.
Tu estás chateado.
Ele está a fazer de uma mosca um elefante.
»

Etc, etc. Eu vi logo. O carro bloqueado. O Seabra cheio de sono. O outro com o seu laçarote, ainda com a brilhantina do réveillon a escorrer-lhe nas ventas. Com a cara toda torta da noite no alcatrão, marcas de pneus e isso. E eu a ver logo que aquilo tudo ia dar merda. A achar que me devia ir embora e fingir que não os conhecia de lado algum. “Não, não, eu não conheço esses senhores”.

Deslarguem-me!

Liguem para a minha secretária e enviem-lhe as minhas condolências, por favor. Digam que vão da minha parte. Podem deixar uma mensagem no atendedor de chamadas, ou mesmo um fax. O endereço de email está aí algures, façam a fineza. Enviem flores. Ramos de um metro e noventa a dizer: “Sinto muito pelo seu patrão, era um homem bom, como ele não há igual” – ou qualquer coisa do género. Finou-se, coitado. Era surdo dos ouvidos, enjoava nos barquinhos, ficava com as mãos frias. Puxem pela cabeça, se ainda a tiverem.

É verdade. O Seabra deixou-se dormir quando estava a perfurar a parede. Nós à espera do sinal e nada. O reboque a levar o carro e o polícia a olhar para o fumo na janela: o cigarro do Seabra a queimar a pachemina que tinha comprado para a sogra no aeroporto de Com Elalupur. Etc, etc. Coisas que não lembra a ninguém, mesmo aqueles com QI de sobra. O fumo a sair pela janela, o guarda a topar tudo. Nós à espera com os saquinhos. O iMundo a esquecer-se de uma frase lá em cima e a voltar para trás: «Eu não sou grande bailarino» – raios o partam. Sirenes da polícia, carros de choque, bófias à paisana. Novelas manuelinas em cintos de ligas. E agora? Porra!

“Oh meu vira-me para lá esse batom, pareces a tua tia antes de ir à missa!” – cabrão do Seabra, porque é que eu me meto com esta gente? Amadores do caraças. Aiaineses e turqueses, está-se mesmo a ver no que isto ia dar. São todos da mesma raça, cada um à sua maneira. Um trotil dois fonemas: Vadiar na rua. John Stuart Mill à presidência.

Está bem. Vou ter calma, fico aqui quietinho a fingir que tenho os olhos fechados, para ver no que a coisa dá. Telefonem para minha casa e digam à pessoa que vos atender o telefone para desligar o forno que eu hoje já não vou jantar. Talvez amanhã ou noutro dia qualquer.

Olha, o Stoneley está a pintar-se de preto, agora é que eu estou fodido. Saiu pela janela aos gritos armado em carapau de corrida… Epá, não dá para um gajo se meter com esta gente.

……….
* O mesmo que problema, na língua da terra.
** «Ick sitze drin und esse Klops;
uff eenmal klopps.
ick denke, staune, wundre mir,
uff eenmal iss uff Tür,
ick jehe raus und kieke,
und wer steht draußen?
Icke!
»

[Versão parecida com esta história foi publicada num jornal a Oriente, algures no ano de 2005]

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