E ali estava ela

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Estava feliz porque finalmente tinha chegado a hora de ir embora. De vez. Era assim, o fim de toda aquela história. Sem mais palavras, as linhas estavam esgotadas para este capítulo. Era na verdade “O Fim”. Adeus!


Não ia voltar a ligar-lhe. Tudo o que queria era desaparecer dali para fora. Para sempre. Sem dizer nada. Ir de bico calado.

– Ligas-me quando chegares lá? Envias-me o teu número? A tua morada?

Ela não estava a perceber o que se estava a passar. Por mais pequeno que fosse o indício, nunca iria perceber a corrosão que se tinha apoderado de mim. Exactamente como sempre aconteceu. E só conseguia pensar o que me tinha levado tanto tempo a fazer. “Porquê?”. Não tinha a mínima resposta. Teria sido a sua beleza? Sim, era espectacularmente bonita. A maneira como gostava de mim, a voz, o paraíso que era na cama? O corpo?

– Arrumei todas as tuas coisas. A arma está na mala vermelha.

Estava armado, nunca se sabe o que vem a seguir. Como medida de precaução, é melhor ter sempre uma arma à mão, para o caso de acontecer alguma ocorrência. Aquela tinha-a comprado na China Town e estava carregada com balas de prata. Pode ser que apareça um lobisomem ao virar da esquina e é preciso estar preparado. Hoje em dia já não estamos seguros em lugar nenhum. Nunca mais.

– As chaves do carro estão no bolso de fora do teu casaco.

Na semana anterior tinha vendido o meu carro. Acho que o que ela me estava a dar era o que restava dele, era apenas uma lembrança. Muito antes, tinha tido um acidente e quase que me estampei em cima dela. Foi assim que nos conhecemos, com as rodas a girar por todo o lado. O que vale é que desta vez ia apanhar o comboio. Um bilhete de ida para me perder num país distante. Longe dela, no meu destino traçado, era isso que importava. Ficaria inacessível e essa seria a minha futura existência.

– Bill? – disse ela.

Não, não ia olhar para trás. Não queria saber de mais nada. Nem conseguia ouvir o que quer que fosse. E naquela altura só a sintonizei por engano. Estava prestes a sair fora do seu alcance. Da sua rede. A minha mala vermelha na mão esquerda, o casaco por cima do braço. Até sempre!

– Sim?
– Vais sentir a minha falta?

Era assim que costumava fazer. Só que desta vez ia ser tudo diferente. Já não ia esmagar-me de novo. Virei-me e dei-lhe um beijo de despedida.

– Adeus! – Ouvi a minha boca a dizer. Aquilo já não era a minha vida.

Estava vestida com uma blusa branca e umas calças de ganga. Nada de especial. Sem um pingo de maquilhagem. E mesmo assim era uma estampa. Os olhos a faiscar aqueles pequenos demónios lá dentro. Coisa que para mim era difícil de suportar. Mas aquele era o último segundo, o último de todo o sempre. Respirei. Para dentro. Para fora. Nada mais.

– Vais ter saudades minhas?

Inspirar. Expirar. Contar até dez. As luzes daquele olhar a darem cabo de mim. Onde é que eu estava a ir? O meu casaco a cair para o chão. “É só mais um minuto”, achei eu. “E já está”. Depois acabou-se!

– Vais?

Era impossível, não conseguia aguentar mais. No minuto seguinte já estava a beijá-la como um louco. A desfazer-lhe a blusa. A desapertar o meu cinto. Não queria imaginar o que é que estava a acontecer. Meu Deus! A repetir-me pela centésima vez. O mesmo filme riscado a passar vezes sem conta. Será que iria preocupar-me com o resultado final? Iria fazê-lo de novo? Este “ir embora” que nunca tem um final. Só queria abraçá-la. Para fazermos tudo sem perder mais tempo. Queria lá saber do “depois”. Isso viria mais tarde. Aterrasse como aterrasse, sei que ia bater-me com toda a força.

– Não! – respondi – Não vou ter saudades… nem por um segundo! – Nessa altura, para quem estivesse a ver de binóculos, já estávamos nus e quanto ao lobisomem, ele não andava por perto. Não! Estava dentro de mim.

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