Cavalos de ferro

St. Paul Ruins - Indianapolis, USA

SCROLL

A narrativa cresce à medida do espaço em redor. Que espera. Nesse breve trecho cria um impasse onde se transtorna e progride, reformulando o seu ADN; enquanto arranca a pele toda de uma cidade. No próximo vento, há alguém que desaperta as sandálias e se põe a fugir, abandonando a sela da sua herança. E é só isto que podemos observar. Os santos populares.


Tenho as mãos sujas de sangue. Na verdade, este não é a frase certa. Não estão sujas. Devo antes dizer que estão limpas. Sim, limpas de sangue. Se isso se pode pensar.

Finalmente.

Não queria ter passado aquela marca, ter-me esticado tanto, até tão tarde. Agora parece-me tudo retorcido. Aquele desespero perdido na imensidão do tempo, a perder-se. Se me puser a falar disto a alguém, é deveras ridículo. Não quer dizer que com isto não esteja a contar o que se passou e que não esteja a ser ridículo de igual forma. Eu sei que é difícil perceber, confesso que não está muito explícito, ainda para mais com as mãos a pingar para o papel. Eu aqui, no meio da rua, nesta mesa de pedra na Grande Praça, mesmo no coração da cidade. Há coisas que têm de ser feitas à vista de toda a gente, sem pretextos e sem desculpas. Sem querer fugir. Fazê-lo com convicção e muito devagar, para que não existam dúvidas, enquanto se repensam os actos passados. E o futuro.

Há um remoinho na cidade, na sua disciplina urbana de muitos séculos – fortificada, pensávamos nós. Pessoas que passam com os seus cascos e fazem um barulho de ferir os ouvidos, a arrastar os monumentos para cá e para lá. São as Ruínas que não ficavam bem naquela localização geodésica, ao cimo das escadas onde se encontravam. Depois de estarem dias e dias com pequenos instrumentos a tentar recortar a pedra, estas gentes, vêm agora a arrastar aquilo tudo pela rua abaixo. Centenas de mãos alheias a darem uma ajuda – turistas e curiosos – e a população movida pelo espanto a fazer força para que este “desejo” se realize. Ninguém sabe de quem surgiu esta vontade, mas a razão não é para aqui chamada. De um momento para o outro tornou-se um desígnio colectivo: levar as Ruínas dali para fora. Para o unknown.

Há sempre gente mais excêntrica do que possamos imaginar, exímios a seguir as ideias que lhes passam na fronte e a concretizar coisas que não fazem sentido nenhum. Não é que me conforte, mas dá-me um certo alento para continuar, saber que o meu clube não está sozinho nesta divisão. Quando passei por eles estavam encravados numa esquina, com os santos quase a escorregar das suas sandálias de pedra, com cara de medo, a agarrarem-se às pilastras, tontos das vertigens. Parece-me que desta vez vai ser preciso desenterrar as foices e os martelos.

Nessa pausa – foi apenas um pequeno suspiro -, sem que ninguém desse por isso, os vendilhões começaram logo a montar o seu alarido.

No lado de cá não se perdeu tempo – e é por isso que não ligam ao meu aspecto – lembraram-se de expulsar a calçada como quem sacode um tapete. Tudo numa só peça, a quererem desenformar um bolo. Meninas com uniformes de escolas de hotelaria, com pequenas espátulas, muito alegres a esgravatarem debaixo do couro do terreiro. Ao olhar para isto percebo qual a designação de pele da cidade. Uma delas, de joelhos esfolados, diz-me para levantar os pés, enquanto sem muito esforço vai enrolando um pedaço deste rochedo. Como se quisesse levar tudo dentro de uma marmita para ofertar aos deuses. Não me perguntem, porque não sei para onde o levam. Nem reparou na gota de sangue que desabou e se alastrou na cor da sua camisola. Também não lhe quis dizer, não fosse cair outra.

A desordem está controlada por algum propósito superior e por essa razão ninguém se questiona. Adultos e crianças de um lado para o outro, cheios de pressa para mudar a mobília. O formato. A fúria. Sons metálicos que se forjam a todo o momento e vêm deturpar a minha atenção. A quererem esconder-se nos tímpanos, para lá da imensidão da cera que me atola. Penso que tudo isto, toda este chinfrim, serve apenas para me distrair.

E de repente o silêncio.

Fico com um calafrio seguido de um acesso de febre – não sei bem ao certo o que é -, a tremer e a bater os dentes, tudo em slow motion, num invisível rasgo de tempo. Que suspira. Olho para a frente e está tudo a olhar para mim. Devem ter ficado chocados por pensar que eles estão aqui só para me entreter. A esventrar a cidade só por minha causa. Por causa da minha imaginação, que ora carrega no acelerador, ora no travão. E do sossego regressa novamente o frenesim das máquinas e dos trabalhos manuais.

Lá ao fundo vem a fachada toda de um templo a fazer faíscas no chão. Quase que podia arriscar que vinha a assobiar uma cantiga popular qualquer, mas não me lembro qual. As notas musicais não batem muito certo e enquanto me desconcentro, os silvos e raios da melodia transformam um autocarro numa bola em chamas. Também ninguém dá conta disso, estão demasiado ocupados. Mas não me sai da cabeça esta ideia de que alguém montou este circo só para me deixar surpreendido. Para me tirar do sério. Questões de Astronomia? Numismática? Só pode ser, não se faz uma coisa destas só por fazer, só porque lhes dá para isso, há sempre alguma razão, mesmo que não seja invocada. Ao olhar para este cenário tenho a impressão que falta qualquer coisa: a causa.

E de novo o silêncio.

Uma prenda.

Está tudo parado a olhar para mim, firmes que nem soldados, à espera que eu me decida. Que dê uma ordem. Que corte o pensamento com outra imagem, outro canal, outra sentença. Que prima o play.

Estou velho e a abusar de parágrafos. Nunca me dão muitos para gastar. Quando vinha a caminhar, no começo do dia, queria fazer tudo às claras, com as mãos limpas lavadas nas manchas de sangue. Vinha contente sem me preocupar com o que se passava em redor. As muralhas todas rasgadas a rolarem aos tombos pelas suas montanhas, a tocarem as teclas das árvores, e eu a tentar lembrar-me de quem tinha tocado aquilo antes. O piano. Sem perceber que aquela antiguidade se estava a desmoronar. O milénio todo a desaparecer, a encolher-se num milésimo de segundo e depois apenas o suor da brisa da cordilheira. A ideia indeterminada de que estava alguém lá em cima a dizer adeus, nada mais.

Foi isso que eu matei, a coisa vaga que se satisfazia nas minhas veias. Nem foi preciso a máquina ferrugenta de cortar fiambre ou o corta unhas. Ou os alfinetes de plástico para completar o serviço. A coisa mais sórdida. As teclas de um teclado, uma a uma, a entrarem pela boca adentro, a substituírem os dentes todos. Um sorriso QWERTY. E a tabuleta dos espaços, a gemer, toda contorcida a forrar o céu da boca. Não, nada disso, não foi necessário instalar nenhum dos requintes do ser malvado em que me tornei. Foi tudo muito simples. Como dizer? O sangue do crime lavou-me as mãos. Por dentro. Como uma arte marcial que salta para o seu ninho e entra em hibernação.

Já sei. A esta hora as fivelas das sandálias de pedra deixaram os santos cair. Estatelados no chão – há quanto tempo eles não o pisavam? – desataram a correr, cansados da sua ruína ou do beco onde entretanto, por engenho de uma má condução, se tinham enfiado. A empurrarem os vendedores que de imediato se tinham aprumado nas suas lengalengas. E os resíduos daquela coisa, que em tempos foi fachada de uma igreja, para ali perdidos entre as sopas de fitas e os perfumes. A Igreja da Mãe de Deus a tornar-se vulgar sem a sua escadaria. Sem os seus dragões alados. Sem o espaço para os turistas levarem recordações dela. Apenas o granito a formar a sua própria lápide, num ilusório pedaço de coisa mais nobre, como um ingrediente que não cabe em nenhuma receita.

Agora, mesmo à minha frente, uma mão enorme retira o edifício do Senado e leva-o sem dor. Leva-o para onde? Em troca de quê? Não me apetece investigar. Aos poucos deixo de ser curioso, já não vou tendo a melhor forma para isso. O meu rosto já se vai tornando um quadro do Picasso. É complicado quando este fenómeno começa a acontecer. O que me conforta – e voltamos à minha divisão – é saber que há por aí muitas caras de Edvard Munch ou de Francis Bacon que se safam lindamente. Que conseguem muito bem viver com isso. Às vezes com o resto do corpo, o tronco e os membros, formam extraordinários trípticos. E ninguém dá conta do caso. Quer dizer, não importa mesmo nada. É um estado etílico de graça. O formol.

As voltas que um mundo pode dar. Há dias estava tudo tão quieto, sem furores, sem estas fagulhas que disparam para todos os lados e atiçam carros de praça e a fazenda pública. E agora, sem pedirem licença, começam a fazer transplantes. A mim que já me chegava ser cumprimentado com “hoje estás mesmo com cara de Toulouse Lautrec, que é que se passa?”, a querer enfiar-me logo num buraco. Mas agora que a cidade está toda esventrada já não tenho vontade de me esconder. De escorregar para a epiderme. 
Quero fazer tudo às claras. Sem medos, sem dúvidas. Sem ter que desenterrar a foice e o martelo. Contar-lhes o ridículo, sem suspirar. Mas isso fica para outro parágrafo. Esperam?

Dêem-me apenas tempo para pensar que sangue é este que me lavou a alma. E não quero que me olhem dessa maneira. O silêncio cansa.

[Publicado em papel de jornal algures no Oriente na série “35 de Abril” perto e influenciado pelo virar do milénio]