Macau, o leãozinho moribundo

SCROLL

Eu cá dava tudo para ver uma coisa qualquer, com um palco a pingar suor e música a valer. Mas eu sou esquisito e não vou em qualquer cantiga. E olho para o lado e penso, estou doente, terei algum problema? Sou só eu? Sim, ao lado não vejo ninguém.


Ontem na rádio, Darren Kopas, o gerente do departamento de entretenimento do MGM, disse que o seu Lions Bar tem um dos melhores conjuntos musicais de toda a Ásia; que não é uma banda que anda daqui para ali, mas que foi formada especificamente para pisar o palco deste espaço nocturno do hotel-casino de Pansy Ho – uma das filhas de Stanley Ho, o eterno magnata do jogo – que reabre hoje após vários meses no estaleiro.

Pode até ser muito verdade, o que diz, mas entre este grupo e o que toca no Moonwalker, uns passos mais ao lado, não há diferença nenhuma: ambos tocam os mesmos temas. Os “sucessos” que já todos ouvimos 500 mil vezes e que passam em toda a parte do mundo. É a globalização. Poderão dizer-me que a Lions Band é mais isto ou aquilo, está bem, mas a mim não me encanta e de um modo geral podíamos cingir o capítulo da música ao vivo deste território a esta parca amostra.

Também é fácil, em Macau, apontar o dedo a qualquer coisa e dizer que não vale nada, para não usar termos piores. O DD, porque tem uma fauna incrível digna de um zoo; que aquilo a que chamam as “Docas” está tanto às moscas como sujeito às plumas do seu repertório de profissionais das mais antigas do mundo; que o Blue Frog fica no cu de Judas… e por aí fora. Mas a verdade é que bastam três dedos de uma mão – a mão toda para os mais optimistas – para que se referencie o panorama de oferta musical ao vivo de Macau.

Ele há músicos, sim, também há promotores ávidos por colocar os seus projectos a rodar nos pequenos palcos desta região administrativa especial – a RAEM -, mas olhando para um lado e para o outro a paisagem é deveras limitada. O reLions Bar tem o seu programa construído, essas Docas é o que se sabe, mais à frente o RoadHouse, não passa de um tirinho, que encanta o tijolo falso do papel de parede. Do outro lado da cidade o XL Creations, outrora cheio de actividade nocturna, perdeu o seu fulgor; o seu vizinho Armazém do Boi – parque diurno de estacionamento do edil municipal – também não é flor que se cheire em termos de acústica, embora tenham tentado plantar algumas sementes na cena underground da cidade, com algumas representações de interesse, quando chegou a altura da colheita não deram fruto. Perto das Ruínas temos um pequeno espaço que abre de vez em quando para uma dúzia de espectadores e que espicaça acordes de jazz. E o que temos nas ilhas, alguém me diz?

O Venetian, com a sua Arena, tem feito o gosto de muita gente, conseguido encher o seu recinto com uma lotação de vários milhares. Também aí pudemos assistir a alguns nomes conhecidos, mas o público não acudiu com tanta vontade, deixando figuras como Peaches à mingua de um par de centena de fiéis seguidores. Lá em cima no Blue Frog, um espaço que poderia ser também a carruagem de um comboio, não sei realmente como descrever o esforço que ali é feito. Cá em baixo, o chão já estalou com grandes momentos, como com umas raparigas de Taiwan, as Go Chic. Mas apesar de todo o investimento, o restaurante não replica a força de vontade, mais uma vez por causa do som, o mais importante da equação.

Depois há os festivais oficiais e semi-oficiais que assolam o território em alternância com a época dos tufões. Novamente dizer só mal é uma hipérbole. Mas aqui ao lado, na outra RAE, aposta-se forte no campo musical, e todos os fins-de-semana podemos encontrar lenha para nos queimar. E quando na verdade se aposta num verdadeiro festival – de rock ou lá o que seja -, um festival à séria, como os que acontecem do outro lado do mundo, toda a Ásia se move para encontrar o caminho para lá chegar e aí temos estádios cheios, se for caso disso.

Mas Macau não, não tem audácia para tanto, apesar do bla bla bla todo, que isto é a “Pérola do Oriente” e mais que tanto. Quando Darren Copas diz que tem uma das melhores bandas e um dos melhores espaços, posso acenar com a cabeça, sim, porque tudo isso faz um pouco parte do cenário. Mas na verdade o que Copas devia fazer era aproveitar o seu palco, e os seus novos LEDs, para pôr Macau a bombar. E aí sim, tirava-lhe o chapéu. Se por ventura o tivesse.

[No Hoje Macau em Maio de 2011]

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