Nunca vi um Verão assim

© William Iven

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Eu cá dava tudo para ver uma coisa qualquer em cima de um palco a pingar suor e música a valer. Mas eu sou esquisito, não vou em todas as cantigas. E olho para o lado e penso, estou doente, terei algum problema? Sou só eu? Sim, ao lado não vejo ninguém.


Passo a explicar. Sempre que digo que me quero ir embora olham para mim com um olhar incrédulo. As pupilas arregalam-se e a cabeça ganha um movimento automático, com um abanar ligeiro, quase como se fossem indianos, dizendo: “Para onde?”

Esta terra, como centro do mundo, é uma coisa tremenda. Como no antigamente, quando tudo vivia centrado na terra, sem sóis, sem luas, sem universos. Apenas a palhota e um pouco de vinho, para satisfazer as sedes. Aqui é tudo. Fora disto não há hipótese nem horizonte. Nada mais há.

E é verdade. Isto é o centro do mundo. Aqui é que é bom. Aqui é que as coisas acontecem. Todas as estrelas a rodopiarem à nossa volta, a riparem pesadelos de algum Galileu. Ou Copérnico, Clávio ou, quem sabe, Colombo.

Esta é também uma terra de segredos. Atrás de uma vida há sempre alguém que tem uma história escondida e que não quer contar a ninguém. Percebi isso nos primeiros dias. Os segredos na carteira de cada um, como uma moeda de troca. Na linha dos créditos. Porque nunca se sabe o que pode acontecer e de vez em quando é preciso fazer um pagamento extra. Informação é dinheiro.

Cheguei na pior altura. Agosto. No pico do Verão. Torrentes de humidade a escorrer das paredes. Por entre cheiros e linguajares de uma outra era. Tudo desconhecido mas reconfortante, pelo defeito. Pela norma que atracava com o barco.

Ao sexto dia alguém me abordou na rua e disse: “Sei uma coisa sobre ti que mais ninguém sabe”. Não era um adivinho nem nada do género. Para se deixar convencer, munia-se de um olhar penetrante a denotar algum sentido vinolento, hirto, a lembrar alguém que tinha passado o dia numa casa de pasto. Ali, entregue ao seu destino inaudito. Mas não, era de manhã e íamos todos para o emprego.

Cheguei-me a ele, estava um calor que nunca tinha sentido, e encostámo-nos às arcadas do edifício da Santa Casa, ali bem no coração da cidade, por onde passava ainda uma ligeira brisa. Ele envergando a rigor o equipamento de uma equipa italiana de futebol. Riscas verticais pretas em fundo branco. Ou fundo rosso. Com uma coroa e um animal em fúria, em pé, a servir de emblema, que tanto podia ser um cavalo como outro bicho qualquer. Depois de alguma espera acabou por dizer, meio desdentado: “Nunca vais sair daqui. Ficarás nesta terra para sempre!”

Não sorria. Eu não tinha pedido nada, não nos conhecíamos, nunca nos tínhamos visto. Ia a passar. Não percebi como é que alguém podia fazer uma previsão daquelas. Saber tanto. E não acreditei. À noite, a partir daí, comecei a reconhecê-lo. E começámos a encontrar-nos com regularidade, frequentando os mesmos lugares. Ele explicava-me, na Discoteca, como é que era, como é que se fazia. Como é que em cinco minutos podíamos levar uma rapariga lá para cima. Para o meio das escadas. Depois dançávamos aos saltos quando passava a canção Rape Me. E se a coisa corresse bem, About a Girl. Não se pedia muito mais.

Soube depois que se chamava Rios. Tinha família, filhos, uma casa no Prédio das Bolas. Um emprego no Estado e, como toda a gente, segredos que nem por nada havia de revelar. Mas não era de cá, dos perdidos que chegam aqui para a sua última estação. Não era verdadeiramente daqueles que vinham para ficar, porque na leva de 99, como muitos outros, que não queriam abalar, foi para Portugal com uma mão à frente e outra atrás. Recambiado para a santa terrinha, algures perdida nos confins das Beiras.

Contrariando a sua previsão, fui tentando sair daqui. Fiz malas, deixei empregos, comprei bilhetes de avião de um só sentido. Fiz despedidas com longos abraços nas casas de pasto. Mas a dada altura, no preciso momento de partir, alguma coisa acontecia. Um abraço mais apertado, uma noite mais longa, um pedido de auxílio. E continuava. Acabando sempre por me deixar ficar. Eternizando-me.

Depois havia aquela história da Água. A água que se bebe e que perpétua – ad eternum – o mesmo enredo, a mesma lenga-lenga: “Nunca vais sair daqui!”

A minha esperança é que haja disso em todo o mundo. Pessoas que nos aconteçam assim, dizendo inverdades. E que por tudo nos façam ficar. Por bem. Para sempre. Imortais.

Para tirar as dúvidas levaram-me a um adivinho. A Discoteca já tinha fechado. Nessa altura já se ia à Outra Coisa. Um sítio escuro cheio de extra-terrestres, sem nada para ver para lá da distância de um palmo. Apenas se podia sentir, a noite toda a pulsar. Mal me sentei reparei de novo no mesmo olhar ébrio, o que já conhecia. E a frase transportada para a boca de uma amiga tradutora: “Está a dizer que vais ficar nesta terra. Para sempre!”

Ao princípio trabalhava-se ao Sábado e os dias eram diferentes. Não só o tempo, mas também o espaço, domesticava-nos a pouco e pouco. Ficávamos sentadinhos e dávamos a patinha quando nos pediam. Rebolávamos e fazíamos ronrom. Não era preciso andar, era tudo fácil. Afortunados, fazia-se o que se queria. Não era bem um emprego que se tinha, mas um meio para fazer dinheiro, sem lá meter os pés. Era a Árvore das Notas. Para uns mais viçosa do que para outros, mas todos se safavam, de uma forma ou de outra. Mas mesmo que quiséssemos fazer, não podíamos. Porque “eles” se habituavam e depois queriam mais. Explicavam-me. Na verdade, quase que não importava o que se dizia ou o que se fazia, porque dali a pouco tempo íamos todos embora, na carruagem do fim do Império. Todos – começava a acreditar – menos eu.

Nesse dia, do bater das portas, estavam todos cá. Almoçaram com o Líder, a quem eu oferecia os meus préstimos. Governo de cá, governo de lá, da Pátria que nos contemplava dos antípodas, e todas as figuras ilustres do património social. Os Primeiros e os Segundos-ministros, que se entretinham a falar sobre as flores do jardim do Palácio com algum nome de santo, que uns habitavam e que os outros já tinham habitado. E mais alguém que lhes iria tomar o lugar mais tarde, de ouvido aberto. Tenho isso tudo registado e outros segredos de que não posso falar.

Depois foi a história da bandeira embrulhada ao peito que todos puderam ver e que deixaram de reconhecer uns meses depois. Um jantar em frente ao rio, onde o Presidente degustou uma pneumonia. E o acto final, com a trupe toda dos dois lados da fronteira, uns a sair, outros a entrar. Cá fora um frio de rachar. Os brasões a serem desassinalados num sopro, ainda antes da sobremesa. Coroas. Cavalinhos rampantes. Ascendências cósmicas.

Já as Cinderelas se tinham ido embora, levei-os todos ao aeroporto. Desta vez já sabia que não tinha bilhete, mas como era um voo fretado, fingi que não era nada comigo e sentei-me já com a mala escondida no porão. À espera do pica.

Mas não me deixaram ir. O meu lugar já estava ocupado por uma senhora gorducha, que chegou a choramingar. E o avião lotado até à pinha, com as compras de última hora das segundas-damas. Toalhas, prateleiras e serviços de chá. Pérolas de todas as formas. Enquanto eu saía sem refilar. Sem despedidas.

Durante uns anos desisti da ideia. Era um tempo novo. Tempo de mudança e de novas regras. Era preciso estar presente quando chamavam por nós. Chamavam por mim e eu repetia o meu nome. Fosse qual fosse. O idioma. E dizia: “Sim, senhor!” Porque nessa altura passámos a ser gente. A gente da nossa terra.

Mas depois amainou. E eu pensei que tinha chegado a altura de novo. “Fazer o quê?”, diziam-me nos jantares de despedida. “Já tens emprego? Tens alguma coisa à tua espera?”

E no final, a minha alcunha de pequeno: “És maluco!”

Não tinha nada à minha espera, mas isso é que era o importante. A incerteza, o devir. Poder partir com uma folha em branco, para que pudesse ir escrevendo tudo de novo. Errando melhor. Sair dali e nunca mais voltar. Ir ronronar para outro lado.

Mas um abraço mais longo. Uma vontade perdida. E a música voltava a tocar de novo. Aí, de todo, já poucos se lembravam da Discoteca, da polícia a entrar para revistar a malta e a deixar as meninas todas de pantanas. E os das beiras a deixar os sapatos nas escadas. Também, sem perceberem bem como, a Outra Coisa já se tinha ido, mas deixando para trás os seus extra-terrestres.

Mas acabou por acontecer. O que era igual deixou de ser. E o destino estalou. Parece. Apesar das notas continuarem a voar. Para cofres alheios. E para os ramos das obras públicas. Fruta fresca que com o esticar da corda acabou por apodrecer. Sem rodopios. Sem Galileus e Cinderelas. Dantes ou Da-vincis.

O que sei é que este Verão foi diferente. O mistério das coisas deixou-se desmoronar, num propósito complacente. A pintura estalou e começou a saltar da parede, aos rombos, e o céu nunca esteve tão azul. Sem tufões, sem o famoso capacete, de que ninguém já precisa. As gentes da terra, depois de dez anos, já estão protegidas. Já conhecem o caminho para casa.

E o horizonte a dar um passo. Sem vergonha. Sem rodeios. Mesmo à minha frente e diante dos meus sentidos. Cheios de espanto.

Nunca mais soube desse homem, chamado Rios. Mas continuo a acreditar que não tinha razão. Apesar de haver outros que sabem perfeitamente o que ele queria dizer. Por isso olham-me com um olhar incrédulo, abanando a cabeça de seguida, já com uma pinta no meio da testa, dizendo: “Para onde?”

“És maluco!”

Agora sei bem para onde vou. E sei também que não traz nenhum verso nem um pouco de vinho. Vou sair daqui para fora. Não importa a direcção. É o defeito a criar o sentido. Outra vez. A desenhar o vazio e a incerteza, com pinceladas de vertigem.

Só mais uma coisa, por favor, não me peçam que vos abrace. Não quero escorrer mais destas paredes. Vou só ali fazer as malas, já venho.

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