Associação Artistas de Plástico Manifesto

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Onde há dor e vontade, há também manifesto. É ele que a seu tempo constrói a força da mudança, que liga todo o engenho e o põe em marcha. Devagarinho. Sou de poucas palavras. De poucas ilusões. Mas também o sangue ferve na guelra e não me cabe a mim vir para aqui tirar conclusões. Atiro, sim, o que der e vier.


Quando se inicia alguma coisa há sempre dois pontos de partida. Primeiro, o espaço físico que ocupamos e que nos permite avançar e propor uma nova dimensão no tempo. Segundo, a construção social que desfrutamos e que nos leva a interagir com o balanço desse mesmo espaço. A forma e o conteúdo. Não é claro, eu sei. O que quero dizer é que há sempre uma balança para qualquer situação. Dois pesos, duas medidas, duas forças. Os dois lados de um espelho, os dois lados de uma montanha, as duas direcções de uma linha recta. O equilíbrio, a igualdade, a proporção. Mais uma vez. O que estou a tentar explicar é que no ponto de partida há sempre o antes e o depois, o cá e o lá, o claro e o escuro. A verdade e a mentira: o sim e o não – não vou dizer o homem e a mulher, não me apetece, agora. Uma coisa vive sempre do confronto com outra. O acto sem a sua prova – o seu testemunho – não existe. O vazio não faz sentido sem a representação do cheio. E por aí. Se bem que em questões de antes e depois há quem acredite que antes do Big Bang não existia nada. Apenas um ser divino com a mão no detonador, pronto para fazer eclodir a chama.

A Associação Artistas de Plástico (AAP) parte do conceito da fusão destes dois termos, de retirada dos pratos da balança, tornando-a inútil na sua função redentora mas ao mesmo tempo instruindo-a com uma nova utilidade, se assim se pode dizer. A utilidade do objecto que observa sorridente todo o seu passado e que abraça o futuro com os dois braços que a compõem. Parte-se da ideia da coexistência de elementos opostos, ou de dois conceitos díspares, num só corpo. Na sua mistura híbrida. O móvel e o imóvel, por exemplo. Configurar o dia e a noite de modo a que passem a existir, como dia e noite, num só momento. Num período de tempo que é, em sincronia, a imagem do espaço que o frequenta. O tempo que visita a sua demora e que a aglutina. Da associação simultânea da forma com o conteúdo. Do que vê e do que se sente. Do que há e do que não há.

A AAP surge do batimento que jaz num infinito onde tudo é possível, onde aquilo que se cria não tem morte, ganhando forma na frase NADA É TUDO. Este é o termo onde todo o universo está contido, onde todas as palavras, significados, idiomas, existem e, dentro delas, ou nos seus espaços, as pessoas todas que escrevem a/e na face da Terra. Que a povoam de raças, de géneros, de crateras. NENHUMA COISA É TODAS AS COISAS.

São. Têm. Possuem.

Expressão que se multiplica – ou divide – até ao que não tem fim, ao que não tem limites nem medidas e que inebria o juízo. Trocando-lhe os fusíveis, fundindo-os num só.

É assim.

E no entanto a AAP é simples, de espírito fogoso e imaginação ardente, mas de agrado fácil. Amoldável e influenciável pela erosão circundante numa absorção constante do seu critério e igualdade, respirando-as com o tacto. Agrado, sim. Num matrimónio crescente de ideias e de dispositivos que identifiquem os estímulos que visem fornecer métodos de criação. A AAP fornece apenas formas de pensar, ideias, ar e céu azul. Em pacotes alternativos e consensuais. Oferece caminhos e abre portas com o sopro do olhar. Atreve-se. Molda as cores sem as distinguir. Rouba o ruído ao silêncio e o silêncio ao som e faz melodias que se podem ver e tocar. E ao mesmo tempo não, não se podem ver nem tocar. Nem ouvir.

A AAP exagera e delira. Acredita que pensa demasiado. Contradiz-se. Recicla o inútil e o útil e escusa-se a dar explicações. Inventa de maneira generosa, abundante e por vezes grosseira, e não se importa com isso. Atira para a atmosfera coisas cheias de pólvora da largura de uma praça, que rebentam com grande clamor e palmas, e com o passo dá pontapés muito fortes no que lhe aparece à frente e que quase sempre acerta ao lado. E não se importa com isso.

A AAP não se importa com isso!

Vive para viver com estrondo. Vê balizas em todo o lado e o seu campo move-se como o trepidar de uma peça de fogo de artifício ou de artilharia defunta. Flutuando enquanto navega, enquanto se enrola. Enquanto beija o asfalto. À partida ou à chegada. Esfola-se daqui para ali. O seu extremo é uma linha circular que envolve com uma rede todos os bens do seu desoriente, incluindo os que não ficam bem. E tudo. E nada. Até ao centro.

A Mongólia que é a Turquia, que é a Argentina, que é a Islândia.

No Cabo Horn.

E o Big Bang. Antes de ele acontecer.

A AAP não faz sentido e por isso faz todo o sentido.

Insatisfeita com o quotidiano adjacente que vacila para as suas incertezas nasce da criação de um novo estímulo que venha suprimir esse fenómeno. Essa fome.

A AAP tem necessidade ou grande apetite de comer e tem uma sofreguidão avassaladora pela sua própria existência.

A AAP não existe. Dá apenas forma e serve para formar, modelando.

Os Artistas de Plástico (AP) que a compõe derretem com o dinamismo em que se movimentam. Suam. Desfazem-se. Submetem-se a uma relação de amor com o objecto que representam, com a interacção crescente que interrompe o ritmo das suas silhuetas. Os APs vivem da razão mas não a têm, vivem de uma concepção lírica da sua trajectória que se ilustra sem o balanço de um pêndulo. A balança desfez-se há muito. E nada funciona. Os APs interpenetram entre si, ouvem-se, falam e gritam. Agitam as mentalidades alheias, iluminando-as. Os APs não servem para nada, servem para tudo. Dedicam-se de viva alma à criação de um formulário novo que expresse a relatividade entre o peso e a expansão, entre a rotação e a volta. Sem medidas. Entre a crise e a procura. O retorno. Têm uma existência própria travada no desejo de ir mais além, obcecados na fórmula de construção de uma vida que crie neles uma sucessão infinita de eventos. De criações. De novas vidas. Desobstruindo-lhe os acessos não na sucessão encontrada na repetição dos pés, dos braços e das caras, tantos como os povos que existem no mundo, não na sua fecundação, mas conseguida com a busca intuitiva de um único modelo que produza uma continuidade no espaço. Como uma doença. Na interacção com os outros, com as chuvas e com os mares. 
A AAP vive da inspiração das coisas grandes. Dos terramotos, das infindáveis secas, das coisas más e tortuosas. Da dor. Dos furacões e das avalanches.

A AAP recorta o que é mais pequeno e minucioso e dá-lhe a dimensão de um continente. Sem se importar com isso. Hoje e qualquer dia. Criando pelo caminho um círculo vicioso. Um jardim. Uma receita de uma iguaria. Um sorriso em alguém que ia a passar, um bocejo num pássaro que não se atreveria a espirrar depois disso. Sequer a voar.

Quando se inicia alguma coisa, nem sempre sai bem, nem sempre tem duas pernas. Nem sempre se constrói um provérbio. O que se passa com esta Associação é a intenção de fazer. A intenção de ajudar a fazer aqueles que não conseguem, por alguma razão, fazer. O desejo anti-natura de um realismo que reaja e se separe das consequências de longos reinados amorfos e separados à nascença. A Associação Artistas de Plástico quer unir-se, acoplar o artificial e o fixo. Aqui. Criar, projectar, mover. Causando uma comichão milenar na estática e na aberração que muitas vezes vive aterrada nestes aeroportos de vistas curtas. A AAP quer ser bonita e feia. E colateral. Quer ser tudo o que quiserem que ela seja. Quer rir com as suas interpretações. Quer exortar as mentes simples e as universais. Quer dar as mãos ao arbitrário e à síntese. Ao complexo. Quer ser enorme no seu poder criativo. Um dano. Quer mover mundos.

Oh! Os Artistas de Plástico querem ser tanta coisa. Querem ser tudo. Querendo ser apenas nada.

Nada é tudo. Nunca para sempre.

Estamos aqui. Venham.

[ESTE DOCUMENTO FOI PARA O AR EM JANEIRO DE 2006. ESTAVA FRIO. MAS ISSO NÃO IMPORTOU PARA NADA. NO FINAL ACENDEU-SE UMA FOGUEIRA. COM OS PANFLETOS QUE SOBRARAM. DERRETERAM. E TODOS FICARAM CONTENTES.]