O urso maior Lime + Purple

© Ganapathy Kumar

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Há sempre uma esperança. Em guarda. Não tão vã como isso. De uma plenitude sem retorno. Que nos espreita. Que nos vigia. Que nos alimenta o espírito. Como uma luz apagada.


Quase breu. Um dia grande demais. Árvores por todo o lado. Diálogo mais ou menos surdo. A continuação.

– Lime?
– Sim?
– Estás vivo? Ainda estás aí?
– Ainda estou sim, Purple. Ainda estou.

Os dois sentados no chão. No cimo de um pequeno morro. Um para cada lado.

– Bom este ventinho, não achas? Gosto tanto quando o Outono vem e se solta em cima de mim.
Lime não parecia com boa disposição. Mesmo dissimulado no escuro, uma inquietação caía-lhe do rosto.
– Sim… – enquanto remexia na terra com os despojos de um ramo.
– Que se passa? Triste? Apreensivo?
– Não, de todo. Nem desgostoso. Estava a pensar como a vida tem tanto. Como dá imensas voltas. E nós aqui. Quietinhos. Sem sombra.
– Felizes, não é? – Purple tinha sempre uma atitude positiva.
– Nem digo isso. Há as constrições. Há tudo aquilo que não esperas. Perdes o barco porque não há lugar para ti. E ficas a ver. Um pouco em delírio, um pouco espantado. E no entanto é um cenário tão vivo. Tão dentro de ti. Tão real e verdadeiro. Tão longínquo ao mesmo tempo.
– É bom saber que o tempo vai e vem. Que o tempo pára.
– E descobrir toda esta nobreza que faz de nós seres humildes. Que se contentam com pouco. Que vivem sobretudo… ilesos.
– Sim, “ileso” – diz Purple, com o branco dos olhos a querer saltar à vista. – é outra das palavras em que gosto de pensar. Conforta-me. Faz com que me demore nela. Bom demorar-me em alguma coisa. Não achas, Lime? Não achas?
– Acho sim. Por isso fico com este ar. Um ar de nostalgia. E contudo de bom augúrio. Pronto para tudo. Expectante. – Não era inquietude afinal.
– Gosto de ti assim. Gosto de te ver como estás, amigo. Mesmo nesta escuridão. Dás-me uma boa força também. – Purple não precisava de força alguma, a sua natureza era já assim, rica. Intensa.
– Mesmo quando os outros se estão a amar neste momento, e milhares de outros em guerras, nós aqui, nesta boa vida.
– É verdade Lime, uma vida muito boa. Não precisamos de mais.

E nisto o luar toma conta do instante e os dois amigos podem finalmente olhar-se com toda a exactidão.