Declaração Escritos medievais, digestões e pertença

© Phoebe Dill

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Eu, Ring Joid, maior de idade, nascido a trinta e cinco de Abril, em parte incerta, de estado civil duvidoso, Papa-san de profissão, mas com carta de condução, declaro, de livre e espontânea vontade, que:


1.Esta terra onde vivemos, onde se vive, onde se vai vivendo, não tem nada a ver comigo. Não vamos particularizar quanto ao nome da terra. Se me perguntam porque não me vou embora, seguindo a lógica do estás mal muda-te, e isto quase que nem parece português, em língua e em modo de vida, respondo que nessa estranheza, neste inconfundível desencontro cultural, neste extraordinário diálogo de surdos, na irresponsabilidade que isso representa, me sinto confortável, me sinto em casa, nos lares de toda a gente. No parecer não estar, na percepção do não pertencer, estou, pertenço. Ver tanta humanidade diferente de mim, em mundo, em sabor, em idioma, aconchega-me, aproxima-me. De quê? De um viver sempre alerta, de um viver comigo. Aproxima-me de mim, de tudo o que tenho cá dentro para dar. Na estranheza do exterior, apalpo o interior, com mais claridade, com o tacto mais apurado, com o andar mais decidido. É no conhecimento que temos de nós próprios que chegamos ao conhecimento dos outros. Mesmo que o espelho nunca nos diga a verdade, que não tenhamos a certeza do “isto” que está cá dentro, aí dentro, se somos só heterónimo, ou se ainda temos algo de Pessoa, sabemos que é através dessa dúvida que vamos descobrindo, e é onde reside, a matéria que nos suporta. Aquilo de que somos realmente feitos. Carne ou peixe. Ou céu. Muito prazer. Estou ao seu dispôr. Sempre que precisar não hesite em contactar-me. R.J., um seu criado.

2.Sou pela democracia. Tenha o nome que tiver, sou sempre pela democracia. Mesmo que venha apenas da oposição a outra coisa qualquer. O reverso do totalitário, por exemplo. No jogo entre a fracção e o todo, sou sempre pela fracção. Não importa o resultado. No desafio entre o sempre e outra equipa qualquer, o nada, o nunca, o Alguma Vez Futebol Clube, grito SEMPRE contra o sempre. E gritar contra, o que seja, berrar para lá do timbre da voz, é gritar pela liberdade. É ser livre. É uma equação simples, não tem nada que enganar. Um mais um. Dois mais dois. Sou contra ditados. Sou a favor das composições. A favor da distribuição. Sou contra a unidade, faço reverência ao conjunto de individualidades. Sou pelo ilimitado, pelo infinito, pelo ruído. Adoro barulho, apesar de adorar o silêncio. Entendidos? Pode não interessar muito o que pense ou diga, mas sabem, esta página não tem fim, emana da expressão do povo. Mesmo que o povo, essa palavra que se compra por tuta e meia, não tenha expressão. Mas por empatia, tenho-a eu por ele. Será isto uma forma de autoridade? Não. Também sou contra a autoridade.

3.O Álvaro III* é o melhor restaurante do território. E não lhe tira o mérito, a virtude, a exuberância, ser apenas o terceiro. Ser terceiro é ser impar. É criar uma voz no meio do empate. É uma corda lançada no ardil das areias movediças, que salva, a quem lhe chega a mão. É ser seco quando está húmido. É ser fresco quando está quente. No Álvaro não há apenas o todo, há mais que isso, há o meio. Há meios para tudo. Canais que ocupam e influenciam o fluxo das mensagens, que despertam a comunicabilidade entre organismos vivos. Vias que facilitam a digestão entre os povos, entre as regiões, entre as condições atípicas. No Álvaro o meio não é dividir, é multiplicar. É criar do Um mais que duas metades. Idênticas. É criar do universo três metades iguais, em que cada uma delas é o saber da missa toda. É a voz. Sing it.

4.É necessário dar existência, a nível planetário, global, a uma organização, ou comissão, ou órgão moderador, que defina, com a necessária flexibilidade, o quadro de representação das religiões na sociedade humana. Impedindo o escalonamento da opressão, do abuso de força, da violência, que tenham origem em crenças, mitos, histórias, de carácter religioso. Tiranias. Em nome de ordens teológicas. Formar um observatório que obstrua de vez a desunião motivada por escritos medievais. Denominando-o, por exemplo, a Organização das Religiões Unidas. ORU. Eu oro, tu oras. Nós oramos. ORU. E com isto, não sendo de todo optimista, definir uma pretensa ética para um consenso mais manso entre as nações. Em que o orar seria por si a forma mais bélica de chegar à verdade. Se ela existir em algum lado. Orar de um modo profundamente laico. Para que a Religião, no seu mediatismo, não seja só uma sobra de monumentos ou uma lista infinita de actos de terror. Ou apenas pretexto para a agregação de povos. Caso contrário vai tudo parar ao Inferno. Essa ambiguidade que ganha forma quando se junta o mal. 
A nossa região administrativa como plataforma multifuncional, tão especial, e baseada na tecnologia moderna da religião do jogo, podia arbitrar este imenso corpo de diversões. Na justeza de um Deus, n sistemas disponíveis. Já alguém pensou nisto? Estamos agora a pensar. Dêem-lhe umas pernas se puderem, para que ande.

5.Nem tudo o que pensamos, pretendemos ou imaginamos, tem uma componente prática compatível com a realidade. Somos um poço de boas intenções, mas daí a ter campo firme para as aplicar vai uma grande distância. E como a vida não se mede pela quantidade de pares de sapatos que se compram, é sempre necessário encontrar um ponto de equilíbrio, para que ninguém se sinta defraudado. Vejam. Quando se tenta atirar os problemas, o que nos chateia, o que se embrulha à nossa frente, para trás das costas, acabamos sempre por tropeçar nesse novelo de coisas sem vida. Que de certo modo acabam por fazer falta. Para preencher aquele buraco que continua por fechar, entre dois livros, entre o armário e a janela, entre uma mente e a outra. É a necessidade de terminar, de concluir, de limpar, que nos impele para essa justa medida. Para uma herdade de justiça, fértil e fecunda. E daí partir para um novo compêndio. Uma nova enciclopédia.

6.No mundo que nos representa, o ‘V’ é a letra mais ergonómica do abecedário em termos puramente simbólicos. Define os percursos que se levam, define as barreiras que se transpõem, define a grandiosidade do estar vivo; define-se por dois dedos apenas. É a primeira letra que se aprende, que se compreende. Que se assimila. ‘V’ de vitória, de verdadeiro, de verbo. De vaivém, de viragem. De altos e baixos. De períodos conturbados. De quedas. E, sobretudo, de novos caminhos. Aí vamos nós numa subida vertiginosa. A sentir o ‘V’ todo ele aos saltos, a mexer-se como nunca ninguém se mexeu. Dentro de nós e fora. Agora é sempre a subir. Depois da queda uma pessoa levanta-se e começa a andar de outra maneira.

7.Não gosto de mentalidades raquíticas que se afunilam e se regem pelo que passa nos ecrãs, ou pelo que dita a maioria, seja ela qual for. O termo que quero usar é MODA. O que está ou não está na moda. Alguém lá do alto, cheio de razão, ordena e os outros fazem. Sem pensar. Enfiam-se na linha e lá vão eles, com o rabinho entre as pernas. Mas isto é cá comigo.

Quero terminar com um outro assunto bem mais importante, que me merece mais consideração. Custa-me abordá-lo, por isso finjo, contorno, e acabo por me esquecer. Enganando-me. 
A vida é efémera, não dura. É necessário vivê-la como sobreviventes, no dia a dia. Não somos inesgotáveis. Tanto em recursos, como em tempo. Nunca se sabe o que está ao virar da esquina, ao virar da noite. Com a morte perto de nós, a toda a hora, fica mais claro saber o que vale a pena enquanto estamos ainda vivos, quando temos esse dom do bater do coração ainda na mão. O que interessa não é o resultado, que é nada, e que vem de repente. O que interessa é o percurso até lá, cada passo, por mais pequeno que seja, existe, está lá, e é preciso agarrá-lo. Aproveitar as pequenas coisas. Os pequenos prazeres, quando não existem outros maiores, que respiram connosco diariamente. Se têm alguma coisa a fazer, façam-na hoje, não guardem. Digam-na hoje, não se calem. Abram as janelas dos pulmões e despejem tudo o que têm lá dentro. Ar, se ainda houver. Não se tem medo de nada. A vida não morde. Ninguém morde. Somos nós, aqui e agora. No Presente. E às vezes parece que me repito. Que ando em círculos e acabo por parar sempre neste mesmo lugar. É verdade. É quase obsessivo, essa procura da razão, tornando-a a toda a hora mais racional. Na fonte das ideias. E a razão, essa palavra divina, mesmo que nos bloquei com questões, diz-nos para viver. Em pleno. Nunca se conclui, experimenta-se. Porque de um momento para o outro podemos desaparecer e nunca mais voltar. Sing it.

……….
* O Álvaro III ficava na Rua do Centro na congestionada Cidade do Oriente. O nome advém de Álvaro III (claro!), rei Português – diz-se que filho bastardo de Álvaro II – que pegou no Império e o fez mais longo. Famoso também pelos seus cozinhados a bordo das caravelas. Mas no fundo é tudo uma questão de nome, não é? O nome dita tudo. Dita a fama e também o azar.

[Documento oficializado num notário a Oriente, em 2004, para que se saiba. Mas hoje, 12 anos depois, ainda faz sentido? Não é necessário perder mais tempo, já foi rasgado.]

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