Dois mil e quarenta e oito [com WKW]

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Há um ponto no tempo que marca o destino. Um momento preciso. Segundo exacto em que o indivíduo, que até aí vivia o quotidiano reservado na sua lotaria, regressa ao passado.  Retorna para remendar as malhas da sua história. Uma por uma até unir de novo o fio condutor que o traz de volta ao ponto de partida. Não há como evitá-lo. É um facto e está à espera de toda a humanidade. Lá mais à frente.


Consegues perceber ou pelo menos imaginar?

2048b2048 não existe porque não há lá ninguém. Eu sei. Quando se chega pode-se sempre voltar para trás. Para o passado. Podias ver se quisesses, como não há qualquer pessoa em 2048. Estão todos a refazer os erros de outros tempos. Mas talvez seja tudo uma enorme mentira porque nenhum deles voltou sem erros por emendar e por isso não podem contá-los, nem falar sobre eles, estendendo as suas biografias. Presos na inconsciência, deixam de reconhecer o presente e a única intenção é recapitular cada passo perdido, muito longe, vezes sem conta.

Todos menos eu.

Cheguei aqui a lembrar-me de inarráveis coisas que fiz mal. Actos. Enganos imensos. Passos trocados. Sonhos enormes. Já nem falo dos outros capítulos, que cansados de estar à espera abandonaram toda a minha memória, como um equívoco. São registos muito leves que num trago se iludiram no mais oculto exílio. Sem dor. Flocos que não me importam mais. E assim reconcilio-me com o que ficou para trás. Se me lembro, agora, chamo-lhe um pacto, entre mim e a minha lamentável compreensão. A incorrecção total que se virou do avesso, sem qualquer testemunha. Ou até talvez tenha outro nome que para já não sei indicar.

O que sei, é que não houve, nem há – nunca haverá! – ninguém que possa declarar ter observado este fenómeno, de me ver ou ver os outros. A verdade é que não sei de mais nenhuma pessoa. Sou eu esse “ninguém”, mas também o alguém, em simultâneo: sou todos! Não há aqui mais ninguém, tenho a certeza disso. Sou singular e cá dentro de mim está toda a gente que forma o plural. Tudo! Sem género ou idade. Sim, tudo. Por entre a casca tenho a imensa população mundial, feita de apenas um indivíduo. Se me falassem disto assim decerto não acreditava.

Ficas comigo quando chegares a 2048? Espero muito por ti. Vens?

As figuras que viajaram para 2048 esvaíram-se à entrada. Nem o seu vapor ficou. Quanto mais a alma. Deixaram tudo desocupado e um vazio sem fim. Os carros ocos, as casas, os supermercados. Países profundos despovoados. O mundo inteiro abandonado num impulso. Para onde? Ninguém sabe. Anos, dias, meses atrás. Chegaram todos, um a um, e desapareceram, num instante.

Em 2048 entra-se em qualquer sítio, em qualquer estação. Qualquer rua, qualquer pouco de terra. Pode-se desaguar no Verão ou no Inverno, mas o imediato estala como um trovão, e esse é o preciso momento em que o adeus acontece. Vem na força de uma ideia, de um tormento, de um pesadelo, ou no desejo de uma vida melhor que nunca chega. As razões para desaparecer são incontáveis, imprecisas também. E agora aqui estou eu, já a caminhar no Outono. Mãos nos bolsos, para cá e para lá. Só espero que um dia alguém fique, que não tenha urgência em revisitar o negrume do que viveu e do que já acabou. Ou que visite toda a vida passada, que a veja, mas que tenha a habilidade de encontrar o fio e o caminho de volta.

E eu não fiquei de livre vontade, fui atirado. Sou tão igual a tudo o que já fui, que não há maneira de fugir do meu passado. Ele vive aqui a cada passo que dou, imperturbável, em dias envelhecidos que renascem todas as manhãs. Na ideia de recuperar os pontos de referência, o vácuo dos meus diários mal escritos, o tempo foi-se fechando. Simples. Peguei na minha história e emendei-a, com os dedos, com a saliva a servir-me de ilusão, sem precisar de os apagar. Os dias, os erros, as formas de mim. Que ficaram cheias de riscos e notas de rodapé. Mas parti assim, vazio, como os pisos que frequento. Este é o meu relato de um presente que encontro diariamente. Foi o que aconteceu comigo. Deixei-me ficar. A ver. Espantado.

Ali um prato de luzes acesas, uma dentada numa maçã, um cheque a cintilar com o valor escrito por extenso sem a tinta dos números. O bálsamo de um fósforo, de alguém que acabou de deixar a comida no forno. A combustão de um corpo, que ao passar o batente daquela porta se esfumou sem rasto. Cheio de magia deixou o animal todo esturricado. E se não for eu a desligá-lo a casa começa a arder. A cidade toda começa a arder. O mundo inteiro em chamas sem ninguém para o apagar. No quarto ao lado, o óbito de uma presença. Ainda o eco de um bebé a chorar. As crianças também erram. Um golo de água. Luzes acesas. Alarmes para acordar os sonos pesados de nenhuma pessoa. O som da radiofonia a rebobinar o próprio fio nas vozes comidas pelo repentino tempo. Lá fora. Florestas de prédios adormecidos sem horas para acordar. Escolas que ensinam o silêncio a fazer barulho. Os frutos das árvores a serem colhidos na relva por cortar. Um café por beber. Um automóvel em marcha atrás a provocar um choque em cadeia com o extremo vazio em roda livre. Oh! Alguém que deixou a mangueira da piscina aberta e a água bebeu o bairro todo. E deixou um novo lago no dorso de algum mar antigo, soberano e livre, como eu. O ponto de partida para quem antes tinha imaginação fraca e que agora já não existe. O filme que não pára de rodar em sessões contínuas no maior cinema do país. Sempre vivo. Sempre novo. Porque não há nenhum espectador. Porque ninguém volta sem erros dentro do bolso. Chegam a tropeçar neles quando pisam o presente, e sem olhar para trás perdem-se de novo noutro dia qualquer, que já se foi há muito tempo. E fogem.

Dois mil e 48. Ficas comigo?

Para aqui chegar existe um tapete mágico, que se enrola por detrás de cada relógio. Só o vemos do seu interior, quando caminhamos sobre ele. O exterior dissimula-se no sem fim de cada momento. Percebe-se? Na fraude dos ponteiros. Perde-se, no ar dos segundos que se respiram. Nas horas que escorrem apenas movimento. O tapete para aqui chegar não tem uma parte de fora, só lhe sobra o que está lá dentro. Os dias são feitos de vésperas. São umas pernas que se vestem e que marcham para os arredores da própria vida. Em ruas que se encolhem à sua passagem. Porque o espaço é a voz da demora que nos lugares onde não há viva alma a si mesmo se excita, numa epilepsia permanente. Estica-se, engana-se, desacerta-se. O tempo. Os ponteiros. Todos os segundos. As formas de ti.

A sombra das pessoas que podiam viver em 2048 projecta-se sem variação nas paredes do gerúndio. Errando como fantasmas. Erra-se por circunstância. Erra-se por ignorância. Erra-se porque não se é bicho. Erra-se porque nos roubaram o chão e num passo tornamo-nos vagabundos. Erra-se simplificando.

Podias ver, se ainda quisesses olhar para mim.

Ali foi o governante no seu último ano à frente dos assuntos de estado enganar-se para o passado, deixou uns papéis a voar junto ao chão. Talvez o esboço do último discurso que se encravou na engrenagem da sua demagogia. Decerto foi recuperar a ordem, os valores, a autonomia. Isso que tanto se falou. Desceu as escadas e na superfície do quinquagésimo degrau evaporou-se sem deixar poeira. Onde foi? Não sei, eu que sou todos. Ninguém sabe. Escondeu-se no segundo ou terceiro mandato, há muito tempo atrás, quando a prática de actos irreflectidos era recompensada com uma promoção. Onde a imaginação só tinha o lado de cá, não se podia rodar e vê-la no seu todo. Ou então foi só lavar os pés. Para depois se agarrar à sentença do povo que nunca teve capacidade para o eleger. Corrupção, saudades dos governadores, ainda mais antigos. Esvaneceu-se talvez com medo do ano seguinte. Dos egrégios avós e das brumas da memória. Desfraldado à espera de ser guiado à vitória. Oh contra os mordazes canhões. Ou a fila de tanques, com um saco de plástico na mão, na enorme praça, a errar, a errar. A errar! E sempre, talvez, a marchar.*

A minha experiência diz que não se mordem lamentos em 2048. Na porta atiram-se esperanças de um novo mundo. Aos passageiros atiram-lhes um branco e a génese da verdadeira forma humana. Imortais, como uma faca, correm aos arrepios para o dia em que deixaram alguém demasiado tempo à espera. Para o dia em que falharam o exame de superstição. Para o dia em que deviam ter dado um beijo e não deram. Para o dia em que deviam ter dito já chega e não disseram. Ter ficado em vez de ter saído. Que deviam ter feito e não fizeram. Sido e não foram.

O passado chama-os a todos, neste episódio de fantasia a que se chama realidade. Está sempre à espreita, não foge, representa o espírito de todos os objectos ausentes.

Consegues perceber isso?

2048 não existe porque não há lá ninguém. E eu vivo aqui. Saí do tapete mágico e cheguei a 2048. A esta era onde sou.

Podias ver-me!

Não há mais nenhum homem ou mulher. Velho ou criança. Sempre e só eu. Sozinho com todos, cá dentro. Num amontoar de máquinas e cestos de fruta. E muito alcatrão. O mesmo Céu, o mesmo Sol. Eu podia dizer-te. Podia falar-te ao ouvido. Bem, está aqui a tua verdadeira oportunidade, se conseguires convencer a tua consciência a deixar-te ficar. Se deliberadamente reduzires os teus enganos a nada. Se os esqueceres. Se admitires a tua realidade e não passares a linha do meu refúgio, pode ser que conheças o teu remendo. Pode ser que encontres a tua nulidade. O teu zero. E comeces a andar de novo, sem flocos, para a frente. Mas talvez tudo isto seja mentira. Não apareceu ninguém que possa confirmar a minha existência. Alguém que possa confirmar que 2048 existe. Alguém para além de mim.

Vens?

……….
* Em 2048 será o último ano em que o acordo – assinado entre Portugal e a China – que permitiu ao território de Macau permanecer sem mudanças de base estará em vigor.

[Publicado no Jornal Hoje Macau; uma semana depois de ter visto o filme “2046” de Wong Kar Wai [WKW], em Setembro de 2003, do qual o texto vai buscar muito do seu sumo. Texto revisitado e corrigido anos mais tarde. Ficará sempre por corrigir, porque nada é perfeito. Será sempre corrigido e regressará um dia, com todos os erros remendados.]