Língua portuguesa [versão estendida]

O Facel Vega HK500 de Michel Gallimard (antes de ir para a sucata)

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De Lourmarin a Paris são 700 quilómetros e Albert Camus tem na mão um bilhete de comboio de Avignon para a capital. Mas o seu editor insiste para que vá com ele na sua coqueluche fabricada em França com um engenho americano V8 de 360 cavalos. Com o escritor, a mulher e a filha do célebre Gallimard. Pelo caminho, várias paragens em restaurantes com estrelas Michelin. Mas essa não é a história. O que aqui se trata é de um choque frontal. Um choque frontal entre duas línguas.


Diz-se para se ouvir. Mas em certos modos, épocas, construções químicas, esse processo não se realiza. Existe apenas a sensação. O desejo. O sabor daquilo que não se explica por palavras e, como tal, não pelo dizer ou pelo ouvir. Os olhos fecham-se e um sentido contundente do que somos, e que se reflecte num outro ser, ataca-nos sem mais lembrança. Sem mais representação. E tudo isso é um transporte para uma felicidade em pleno. Uma espécie em vias de extinção.

E a verdade foi esta.

Dei uns beijinhos no outro dia, assim mesmo, sem tirar nem pôr. Mas não foi nada de especial. Já me tinham avisado que poderia ser assim, mas não quis acreditar, como sempre. Pensei que iria ser a melhor coisa que já tinha experimentado. Um assombro. Como voar sozinho, sem auxílio, livre e sem asas. Como estar debaixo de água, a respirar entre os peixes. Nada disso! Como as pessoas conseguem ser tão casmurras, isso é que me surpreende. A qualquer momento estão viradas para o fracasso, a bordo de uma enorme ilusão. Sempre à espera de uma ideia que nunca dá a cara. Mas vive-se, não é? E a vida continua, de uma maneira ou da outra. E o pior é que, quase sempre, ficam com um enorme sorriso nos dentes.

A rapariga era um pouco estrábica, assim como eu gosto. Cabelos negros, longos, a cobrir toda a nobreza das costas. Uma pele macia, seda delicada, de cair para o lado, julgava eu. Nunca nos tínhamos olhado. Foi por acaso. De notar, que eu também sou um pouco estrábico. Só se repara nas fotografias ou a uma certa distância. Quando olho é difícil distinguir se estou a olhar na direcção certa. Normalmente o objecto do meu desejo – sempre uma rapariga de certos atributos – vira a cara e olha para trás das costas para perceber o que é que eu estou a observar realmente. E como na maior parte das ocasiões não está lá nada, ficam com a impressão de que sou maluquinho, mas por ventura talvez achem que sou só envergonhado.

Não sei, nunca falei nisso.

Um olhar. Distraído. Um leve sorriso. Foi assim que tudo começou a andar. Um pequeno calor a subir, a entremear-se nas pernas e nas mãos, como se fosse um insecto que de um momento para o outro lhe tivesse dado o aroma do pólen. E o limiar da distracção a tornar-se uma linha consciente.

Não vivo na Ásia. Quero sempre pensar assim, que estou aqui apenas de passagem. Como todos. Mas eu vivo mais para cima, mais a Norte. E o norte sabe sempre melhor. Dizem.

– És portuguesa? – perguntei-lhe. Ela não respondeu.

– Não és portuguesa, o que podes ser? Parlez-vous français? – quis continuar. O frémito de qualquer coisa sobre a sala onde não estava mais ninguém alvitrou-se. Um avião, a passar rente ao tecto? Umas asas, por cima de mim? Um espada com trezentos cavalos?

O silêncio manteve-se. Mas quando virou a página do livro que estava a ler, os seus olhos perderam-se por um instante, nos meus. E sorriu, leve, já sem olhar. Quase como se se repreendesse pelo que ainda não tinha acontecido e do qual já não podia fugir.

Se se…

E sorriu de novo, nos meandros da página seguinte. Com mais intensidade. Os dedos a percorrer a folha de papel e a suplantá-la. E outra. E mais outra. Eu ali a um pouco de distância, dois passos adiante. Como uma espécie de marujo, lá em cima no mastro, a perscrutar terra firme. Não era chinesa, nem japonesa, nem tailandesa, isso podia ver-se pelo seu rosto. Podia ser imensa coisa.

Em todas as páginas, debruçava mais o seu tempo no meu, cada vez com menos pressa. O livro era em português, todavia. Mas isso não queria dizer muito. Podia coleccionar letras, que se ausentavam das palavras que não compreendia. Ler não quer dizer nada, se não se ouve. É cada um por si. A fantasia meneia-se e mais ninguém a pára. Eu não estava a ouvir um sopro que fosse. E estava tanto vento lá fora. As árvores a passar, que marcavam o ritmo de um transporte, como um metrónomo numa viagem sem sentido, as teclas de um piano ou as cordas de uma rabeca a precisar de afinação. Imagens desfocadas cheias de estrabismo e dioptrias. A tentarem compor-se. Uma em frente da outra. A dançarem num espelho, a querer reflectir solo fértil.

Os dois sentados. Nada lá fora. Sem velocidade. O tempo sem vez. Sem sequência.

E ali. As páginas andavam para trás e para a frente. Desnorteadas.

Eu sorria. Desde o princípio de mim, que sorrio. E tudo a soltar-se

– “Lês?” – disse ela. Imaginei eu.

– “Leio!” – os meus olhos fechados, a perderem-se por entre a memória longínqua de um campo cheio de flores. A memória de mim. Noutra terra. Noutra época. Deitado na ramagem, o céu lá no alto. Imenso, azul, cheio de sol. Os insectos todos em laboração. A voar sem auxílio. Livres.

– “Podes ler-me uma história?” – Senti eu, sem a ver. E eu disse-lhe todas as histórias. E mais alguma. Os labirintos de Borges. O barco a remos de Dostoievski que falava ao telefone com Turgueniev desde o mar de Barent. O acidente de Camus.

Uma linha de árvores no caminho. Lourmarin – Paris. Nos primeiros dias da louca década de sessenta.

O Facel Vega de Michel Gallimard destruído contra um tronco erecto a caminho de Paris. Uma estrada fina cheia de mastros frondosos. Gallimard com uma garrafa na mão a insistir com o escritor “argelino” para o acompanhar quando ele já estava na estação à espera do comboio. Camus a dizer que não, com vontade de ir no sossego da carruagem e ver a floresta a passar lá fora. A leitura já toda planeada. O piano. As cordas. O metrónomo. A terra firme. A superfície da balalaica a marcar o compasso do caminho de ferro. Mas não sabia dizer que não, até ao fim, e foi o primeiro a morrer sem sequer dar por isso. Gallimard ainda a durar cinco dias no hospital, no último sonho de uma noite de Inverno. E o relógio do painel do automóvel a parar no instante do acidente: 13 horas e 55 minutos.

Há quem discuta que foi um minuto a menos.

As horas do meu relógio. Que deixara de funcionar. Ao quilómetro oitenta e oito.

– “Gosto das tuas histórias…” – ouvi ainda, de nenhuma voz.

Nessa altura, sem imaginar, estávamos de mão dada. Numa só. Ela ao meu lado. A caminharmos na rua. Um sol bonito. Um céu refrescante. Os anos talvez já tivessem passado. Para além dos encontros. Para além do desejo. Quem sabe já a galopar para a terceira idade.

Não falámos, porque eu não sei falar. E também não sei dizer. Eu sei apenas encantar-me. E olhar. Nas margens dos meus sorrisos que não se importam com a largura ou com a trepidação da estrada. E o que me pareceu foi que ela também não fazia mais do que isso. E quando o percebi, beijei-a.

E beijei-a de novo.

E as nossas línguas conheceram-se, finalmente, numa das duas bocas.

A minha sei que é portuguesa. A dela não sei, porque, na verdade, não importa. Se não é preciso falar.

Mas não. Mais tarde achei que não foi nada de especial. Não foi bem assim. Não foi bem o que me disseram. E o que sei é que estamos sempre a cair no mesmo engano. Com as pessoas. Com os automóveis.

Na ponta das árvores.

[1142 palavras ou mais escritas no alcatrão, na segunda década do século XXI, mais coisa menos coisa]