Os números da taluda

© Lena Bell

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Daqui a uns anos. Talvez cem, talvez mil. Quem sabe mais. O mundo vai dar uma volta. E esta coisa que o habita, com estas máquinas que usa, vai misturar-se numa unidade só, funcionando em parceria e sem mais quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa lá para dentro, para o interior, e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.


Tenho a impressão que mais cedo ou mais tarde os computadores vão acabar. Não de um momento para o outro, à maneira de um tremor, mas gradualmente. Será muito semelhante a uma viagem, assim como alguém que apanha um barco que vai de ida e depois de volta. E quando regressa à terra de onde partiu encontra um mundo novo. Não totalmente diferente. Não desconhecido. Mas o seu lugar nativo, que tanta felicidade até aí lhe trouxe, trajado de outro jeito. Limpo, corriqueiro, eficaz. A satisfazer a evolução do Homem, que se articula aos pedaços, sempre a querer levantar fervura.

Veja-se, agora, para que serve a comodidade desses instrumentos e a que distância estamos dessa mudança aparecer. Na realidade, e isto não é nenhum exagero, não estamos muito longe. Falta bastante menos do que o que levámos para aqui chegar. Diria mesmo que está a um passo de acontecer. Como o esticar de um braço, o abrir de uma janela, um engano a passar. O fôlego quente do ar que se solta dos pulmões. Um salto. É tão elementar quanto isso.

Usamos estas ferramentas diariamente mas o que são e como o fazem, embora seja visível o resultado, ninguém sabe bem. Ninguém sabe como é que uma imagem se estende pelos poros de um ecrã. Como é que evolui. Como ninguém sabe que fórmula química procede a clareza de um desenho no papel. O que quero dizer é que o processo, desconstruído até ao último estado, é idêntico e responde apenas a uma série de questões, um percurso para lá chegar, com dois tipos de resposta: sim ou não. O mesmo que zero e um. Preto ou branco. Aniquilando opções e seguindo em frente.

Se calhar não me explico bem. Decisivamente este não é o melhor modo de dar início a esta história. Vou recomeçar. Não é uma história, por assim dizer. Mas pode ser que conte alguma coisa.

A memória, o objecto onde se guardam as recordações e tudo aquilo que causamos, não tem fim e por sua vez não tem espaço. Virada do avesso, a memória, temos o Universo: um multiplicar de infinitas galáxias, com os seus buracos negros e os seus irrepetíveis sóis. Os seus génios.

“Explique melhor, senhor professor”, dizem lá atrás. “Não estou percebendo”, é um aluno com um pouco de sotaque brasileiro, mas não brasileiro de todo.

Ora bem, um computador, uma memória. E agora?

Um dedo no ar na segunda fila. É uma aluna com ar eslavo, mas não totalmente. Ninguém aqui é por inteiro qualquer coisa. Dou-lhe a palavra.

“Eu sei”, diz. “Os computadores na verdade não existem. Nós vemo-los, fazemos uso deles para tudo o que nos é importante – e quem diz computador, diz outra coisa qualquer. Têm o seu volume, a sua cor, um leve aroma. Mas não são nada. São apenas algo que vemos e sentimos, pelo olhar e pelo tacto. Mas tudo se passa cá dentro!”, e chega o seu longo dedo indicador a um dos parietais, como um pica-pau.

Não estamos numa aula. Não estamos em parte alguma. Caminhamos. E não está aqui ninguém. Nem brasileiros nem eslavos.

Não sei quanto tempo vai durar, a viagem até à Terra Natal. O campo torna-se cada vez mais amplo e mais disperso, mas a cada momento mais exacto e mais denunciado. Um fiel pasmo. Ainda brincamos às coisas. Os americanos brincam às guerras, os gregos brincam aos troianos e afundam-se na sua bancarrota como se mergulhassem no mar. Mas é apenas um jogo. Uma moeda que se enfia numa máquina-da-sorte e cai em voo controlado, com o seu peso e a sua gravidade a redigirem o resultado. É uma diversão. Não é a inteligência do Homem a trabalhar. Não é o que ele sabe fazer. Tanto faz, na verdade. O tempo gasta-se, mas também o tempo não acaba. E o Homem pensa, mesmo sem pensar, que algum dia isto vai ser diferente. Vai ser muito melhor.

Agora não importa muito. Estamos nos primeiros minutos de jogo. Veja-se a grande China, por exemplo, é apenas uma história para crianças. Crianças de todo o mundo, com uns gatafunhos que não lembram ao diabo. Porque na realidade, se isto contasse, não era assim. As pessoas saberiam como reagir. Saberiam o que viria por A+B. Perceberiam que a fórmula do poder não é de todo convincente. Ou palavras como Democracia, Liberdade, Independência, não são mais do que pequenos tratos. Uma manteiga que se barra no pão e que se vai comendo às dentadas, devagarinho. Estão ali para iludir, para dizer qualquer coisa. Um embuste de uma mente que tem muito mais para fazer, que tem um largo domínio de reacção, tão colossal como qualquer universo, só que não está para isso. Ainda.

E alude-se a advogados, a administradores de ministérios, a acólitos. Mas que é isto, para que serve? Serve para se justificarem a eles próprios. A sua função, a sua proveniência. Servem como a areia da praia serve para dizer que aquilo é areia de praia.

“Senhor professor?”, reboliço na sala. “Então?”

Dentro de um computador existem umas peças. Uns encaixes. Há material físico de várias cores. Alguns deles dialogam com os outros. Uma pequena parte corrige os erros de tudo o que está lá dentro, por dosagens matemáticas precisas, que no díodo do seu composto rectificador, de sins e nãos, constroem o que vemos no monitor. Preto no branco. Um arco-íris. E é o que vemos em qualquer parte: átomos em choque por todo o lado, cheios de animalejos e de fórmulas tremendas, mas numa harmonia sem igual. Uma parede. A tecla de um piano. O olho azul, tão transparente, daquela rapariga bonita. É tudo feito do mesmo material.

“É isso, não é?”, pergunto.

Mas no recinto já não está ninguém. Todos partiram para o recreio. Os seus pequenos confrontos. O copo de leite. A paixão assolapada. Os seus disfarces naquilo que lhes disseram para desempenhar. Hoje és policia, amanhã és um ladrão.

É simples. Esses zeros e uns que agora se espalham pelos discos duros dos engenhos informáticos vão transferir-se para o corpo humano e instintivamente para a natureza. Juntar-se-ão a tudo o que já existe, à larga população de protões, electrões e neutrões. E as pessoas, os animais, as coisas, vão sofrer essa modificação determinante para a proliferação da vida na Terra. Vão finalmente fazer aquilo para que estão aptos. Uma sessão de cinema não vai passar fora, mas dentro do olhar, na orla do que perfaz a imaginação. Não serão precisos efeitos especiais, nem os milhões devorados na sua produção. Será simples. Eficaz, claro, vulgar. Os sonhos tornados peças de fruta.

Não se trata de nenhuma religião ou crença sem sentido, é a verdade, é o futuro que se apresenta em sintonia, e como prolongamento, de tudo o que fizemos até agora. Os tempos clássicos, a mitologia greco-romana, os egípcios e depois os árabes. Da Vinci e Einstein. Eisenstein e Qualquer Coisa que o Valha. A Maçã de Adão e a Apple. Tudo isso são estações, com as suas intempéries, os seus virtuosismos, os factos que nos trouxeram até aqui, até este estádio inundado de gente.

Todos irão perceber que deus não existe, que isso tudo é uma parvoeira e apenas uma palavra. Que a felicidade e o sucesso são apenas uma fórmula, que o bem estar é como os dedos de uma mão. São cinco. Ou dez, conforme o ponto de vista. Um número. Uma coisa definida fácil de montar. Como o celibato ou a lucidez. Mas que no entanto se suplanta pela sua biodiversidade e que, na sua mais aprumada configuração, jorra de prazer. Para sempre.

É isso que faz o Homem. São essas as suas capacidades. Tanta recordação. Tanta matéria testada. Tanto sangue em correria nas veias, o barco que parte e regressa ao seu porto, vezes e vezes sem conta, e no entanto parece que não querem aprender. Que nunca saiu do lugar. Que não querem encontrar o mundo novo. Contentam-se com as Mil e Uma Noites e o Tom e o Jerry. Mas eu acredito que falta muito pouco, que está mesmo ao virar daquela esquina. É uma questão de dias. De luz. De escuridão.

“E os números da taluda, senhor professor?”

Abro os olhos, só para ter a certeza. Na sala não resta ninguém. Nada de novo, portanto.

[Esta foi a Memória Indulgente número 3, passou no Hoje Macau, em Maio de 2010]

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