Sociedade protectora

SCROLL

Chegam de todo o lado do país, vêm em trânsito para outro lugar que não conhecem nem conseguem encontrar, por isso vêm em protesto. Querem mais. Gritam, vociferam e saltam. Andam à porrada. E eu, que por engano me cruzei com eles na mesma frase, levo com a autoridade em cima. Com cassetetes e brigadas de trânsito. Porque também lhes dou algum trabalho à vista. E daí até começar a correr foi um ápice.


Vim a correr para aqui. Lá fora estão três polícias – ou mais! – que me querem levar. Levar-me para a esquadra. Dizem que me ouviram a falar, a dizer coisas feias, a pensar coisas más, a escrever barbaridades.

Cheguei ao gabinete e escondi-me. Fechei-lhes a porta na cara e não ficaram nada contentes. Vinham armados com caçadeiras de três canos, prateadas. Pareciam espingardas de brincar, mas a sério, com as munições a ferver lá dentro.

Quando subi, galgando cinco ou seis degraus de cada vez, ouvi cães ao fundo e sirenes, como nos filmes. Querem-me levar. Preso. Como um escravo que se escapou do capataz. Escrevi coisas feias? Sim, pensei o que não devia, disse mal deles e talvez tenha criado motins em cérebros alheios. A culpa não é minha, é assim que as coisas são. Agora querem fechar o edifício, a cadeado. Há quem lhes chame aloquetes, aos cadeados. Eu não. Vêm também estudantes em protesto, com as suas boinas de várzea, em gritos lancinantes, que me ferem as guelras.

Escrevo mal, escrevo barbaridades.

Carros de bombeiros. Ambulâncias. Provavelmente, algum ministro se avizinha, já lhe sinto o cheiro. Ao fundo, mesmo lá ao fundo. Jornalistas, aos pontapés. Ai! As luzes, os microfones, os rádio-transmissores. Os satélites. Polícias de choque. Para arrombar com os estudantes. E os de Mangualde. Os de Castro Marim. Também vieram. Um ou dois da Ilha Terceira. A chatear os pombos da praça. Numa algazarra da qual já não há memória. Vejo também mulheres, da minha janela. Lindas, outras já de idade, mas bonitas à mesma. Dentro dos eléctricos que passam lá ao canto, dezenas de executivos, encapuçados, com as suas personalidades estritas. Não quero acreditar. Multinacionais. Escriturários. Mulheres-a-dias. Com cartazes coloridos.

Não!

Ninguém me vai apanhar, não vou sair daqui, nem para a hora de almoço, nem pela sombra. Como qualquer coisa que haja para aí e depois logo se vê. Digo coisas feias.

[E o tempo não está para grandes conversas]