Velouria

René Burri • 1963 © Magnum Photos

SCROLL

Nunca se começa uma história com a frase “Ia no meu BMW”, toda a gente sabe disso. Mas isto não é literatura. Não é nada. É apenas uma aversão. Aversão a uma vida com os fios entrelaçados, quase sempre trocados e sem cor definida. A matéria cinzenta, os remoinhos, as suposições, os choques. De alguém desconcertado. Por isso, é assim que este texto começa. Por aí, em roda livre. Mas não se diz, salta-se para o lado de fora. Para o esquecimento. Com o acorde Che.


Estrada fora no BMW. Sim. Caminho sem fim. O pensamento perdido por coisas várias. Imagens que vinham e que iam, com a mesma velocidade das árvores que seguiam à boleia no rebordo do alcatrão. Uma vertigem de retratos desfocados e figuras oníricas, descarregadas no pequeno refúgio do meu cérebro, varrendo qualquer ponto de lucidez.

Uma delas, a mais nítida, era a de Che Guevara. Talvez uma imagem que vira nessa manhã numa revista, destacada de outras fotografias suas, raras, a preto e branco, captadas no seu ministério em Havana. Ainda a vejo com grande detalhe, assim como a legenda, em letras itálicas. Agora. Metade do Che, quase em segundo plano no lado direito da imagem, de costas para uma janela, a espreitar na esquina de uma parede. No meio, um espaço neutro de uma sala vazia que se endireitava em linhas verticais. Perpendicular ao chão, a lisura de um painel de parede, que escorregava como uma folha de madeira polida. No lado esquerdo, imune a toda esta história, inerte e sem pressas, uma caixa branca que parecia ser um pequeno rádio, talvez perdido na sintonia: ligado ou desligado. Um aparelho contemporâneo da câmara fotográfica que retirou aquele recorte à vida. Um objecto único, minimal, extraordinário, criado com simplicidade na mente de um desenhador cubano e repetido com indústria. A guardá-lo, cheio de serenidade, um candeeiro de duas cabeças. Talvez a película na parede fosse mesmo uma lâmina de madeira a sério, vinda da selva amazónica, com todos os seus veios ainda em carne viva. Talvez tudo fosse encenação para a câmara. Para captar um momento de paz. Um tempo congelado.

Che. No Ministério.

Mas não era isso. Apesar do aparelho ser tão impressionante – ou mais – como a figura de Che, na sua pose infantil, de pernas tortas, de costas para a janela, no seu primeiro reconhecimento, isso não era tudo.

Com o pescoço inclinado, lá estava aquela figura distinta no seu traje cinzento, a detonar o verde que os militares sempre usaram e ainda continuam a usar. Para que se confunda com a própria natureza. Puxando logo toda a imaginação para um colorido e para o calor do momento registado. A levar-me como testemunha para dentro da época. Para as mãos suadas do fotógrafo. O de sempre. Para os odores escarlates. Para o linóleo marmoreado do chão que começa também a ganhar o seu tom neutro. E uma sinfonia de ruídos lá fora pendurados na luz que entra por entre as lâminas metálicas dos estores. Que se despeja no homem fardado. Nas suas botas. Na barba e na franja desalinhada. E nas veias da madeira na parede e mesmo nos rodapés brancos que se perdiam em algum lugar longe dali.

Não, não era isso.

Ou se calhar até era, eu é que posso estar a querer inventar todas as coisas.

No meu BMW perdia o remo daquele momento. Do momento que passava para dentro de mim e me fazia esquecer o volante, as rodas e as curvas. E agora era o Sol a querer rasgar a copa das árvores, que se transformavam em metais de persianas e em candeeiros de duas cabeças. Inclinadas. Que me escutavam, querendo ver o que estava a pensar. Sim, a auscultar-me dentro de uma sala sobre as pintas de um chão de linóleo. De granito ou de uma pedra encantada.

Sei que não era isso porque de imediato o estrondo acordou-me. Mas foi só por um segundo. O suficiente para que as minhas pestanas se abrissem e depois se fechassem, quase inutilizadas. Fumo de qualquer coisa. Do obturador? Um sabor gelado na boca e o sonho logo de imediato. O carro todo desfeito. Enfiado nas minhas retinas. Refugiado no meu cérebro. Uma cortina de ferro.

Imagem de Che Guevara numa paisagem na Arménia de Diana Markosian

Despertei uma eternidade depois na cama de um hospital. Quando já ninguém esperava. Meses após a parafernália dos planos do meu enterro. Várias vezes previsto.

E, agora que acordei, não sei bem de que época sou. Onde fica essa estrada e onde está a tal telefonia. Vivo do que me dizem. Da opinião dos outros sobre o que foi toda a minha vida até ali, até ao embate. O momento do estrondo. Com todas as suas opiniões, os seus trejeitos, as suas maneiras curtas de pensar. Donas de casa, homens carrancudos, mãezinhas.

Nas noites em que me levam a passear, em que me põem uma cerveja ou outra bebida na mão e se metem a contar. Lá estão eles. A falar sobre mim, sobre tudo o que fiz. Como quem descreve uma cereja em cima de um bolo. Só me recordo do aparelho de rádio. E nada mais faz sentido.

Falam por si. Perguntam-me se me lembro, como foram engraçadas todas as aventuras que vivemos. E eu para não os desiludir, com os meus progressos clínicos, encolho os ombros e digo que sim, que foi giro, que nos divertimos à brava. Com as correrias e tudo o resto de que falam e que esqueço no minuto seguinte.

Sai por um ouvido, depois de entrar pelo outro.

Como foi o som? O estrondo? Terá sido um ruído lá fora a entrar pela janela? Guizos, disparos? A trazer aquele tempo quente. Alguém a jogar à bola. Uns miúdos. Num relvado de parapeitos baixos. E o Che de pescoço inclinado. Como terá sido? Tento projectar esse registo e ouvi-lo de novo. Tirá-lo uma vez mais da caixa e apresentá-lo limpo como uma sequela remasterizada. Mas vem muito pouco. Não vem mesmo nada.

O que tenho a fazer é chegar àquele aparelho estranho, cheio de preto e de branco, e ligá-lo. É isso. O som metálico da época. Da cortina da máquina fotográfica a fixar aquele pedaço de tempo. A deixá-lo entrar por um buraco fininho. Mas só isso, o resto ficou no mesmo lugar, no mesmo tempo, inutilizado. No ministério?

E TRÁS!

Não, não foi TRÁS, foi mais do que isso. Uma bomba, uma explosão, alguma coisa a rebentar. O air-bag?

Nestes dias, há sempre alguém que me apanha quando vou mais distraído. O homem do talho, por exemplo, a encontrar-me na rua, com os seus lábios ensanguentados, a dizer-me: “As suas pernas de borrego de que gosta tanto já chegaram, senhor Joid.”

E eu que odeio carne. Eu que não posso pensar sequer numa faca.

Mas agora comprei um novo automóvel: “Um BMW!”

Não, não é igual ao outro, mas é bem parecido. Suponho que não faz mal. Já não existia o mesmo modelo, que vi destruído na sucata. Não tinham a mesma cor. Tinha de vir de longe, lá da fábrica na Baviera ou de uma retrosaria de clássicos e eu, que não estava para isso, para esperar muito tempo, deixei estar. Estava com saudades de um sentimento que se tornou desconhecido. O sabor da nostalgia. Queria reencontrar um amigo de longa data e tentar chegar à minha vida antes do estrondo. Antes de mim. Agora.

Era isso.

Nos dias que correm tento escrutinar sons que me são característicos. Que me tragam de volta as nódoas do que eu era, dos meus tempos idos. Do outrora. Procuro-os na suavidade da direcção assistida, na caixa de velocidades automática, no mostruário onde se encontra o conta-quilómetros. Mesmo o pedal do acelerador deve ter tanto para dizer. E para isso crio rotinas. De manhã passo um pano sobre todos os cantos daquela obra de arte à espera que se levante uma recordação. Que acorde, como eu, muitos meses depois e comece para ali a disparatar. Uma novidade que seja. Uma que não venha da boca de outra pessoa, que não traga um sorrisinho ou uma palmada nas costas. Que não se cruze comigo na longa fila para o elevador a olhar-me de soslaio com um ar devedor. Mas sim uma que me diga tudo e me deixe a adorar as minhas pernas de borrego. Senão uma cereja, já estou por tudo e pode até ser uma ginja.

Mas até agora nada. Nem sequer o nome do estrondo. A onomatopeia. O mistério da indústria.

A vida continua, é certo, não há grande remédio. Como certas mulheres que me vêem ao longe e atravessam a rua para eu as ver. Para me piscarem o olho e ajustarem a curva do movimento das ancas. As velas, os cintos de segurança, o ABS. Amigas? Umas chegam a falar comigo. Dizem-me: “Olá, Ring, querido…” E eu. Sem saber de onde vem aquela confiança toda. Aquele aroma. De que parte chega aquele perfume que escondem tão bem dentro dos seus porta-luvas.

Deixo-me ir.

Terá sido um BANG? Terá feito espuma? Terei ficado de pescoço inclinado a espreitar? A minha barba já longa e crespa? O linóleo. O carmim de todo o calor. Os vapores do combustível que não chegou a explodir.

Só me vem o Che à cabeça. Com uma mão enorme. Gorda. As calças enfiadas nas botas da tropa. Um pé para cada lado. E toda a revolução a saltar-lhe pelos poros. Ainda por fazer.

BOOM!

Talvez quisesse ligar o rádio e ouvir o que tinha para dizer. Esperar que aquela coisa desse som. Podia ser que apanhasse o trepidar do meu desastre. As notícias. Ver-me ao vivo, no meu acidente, como eu o vejo agora a ele.

Talvez passe com uns dias mais. Umas histórias e uns contos de fadas. Umas idas aos estádios de futebol com aqueles que dizem ser meus companheiros. Que se chegam. Que me abraçam. Que gritam comigo o nome da nossa equipa e dos jogadores que não me lembro de ver em lado nenhum. Mas se calhar dessa maneira consiga voltar de novo ao que era. Ao sangue do homem do talho. Ao sabor de lábios conhecidos. Aos seios volumosos. E esquecer-me dos cilindros e da grelha dos radiadores, do qual não se pode beber a água. Do nível do óleo. E ripostar: “Olá querida, foi tão bom no outro dia”. E digo dia e não noite.

Mas também não importa se ficar assim para sempre, a confundir todo o meu passado com uma fotografia do Che Guevara. O único nome que faz ainda sentido. É um bom amuleto, um óptimo modelo. E este meu novo BMW até estaciona sozinho. Faz de mim um pioneiro da aerodinâmica. Nem preciso de lhe tocar. E sobretudo tem um fenomenal aparelho radiofónico, com todos aqueles sucessos de outrora.

BZZZ!

É. É isso, não importa mesmo nada, esta minha aversão eléctrica.

[Este texto iniciou a rubrica “Aversão Eléctrica” no jornal Hoje Macau, corria o mês de Setembro de 2006. Teve, no entanto, curta duração. Desventuras literárias fizeram com que a corda de ligação com a nave mãe se quebrasse. Mas já passou. Mais tarde virá essa história. É sempre um bom motivo para aqui voltar.]

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