Aversão anterior

© Raphael Schaller

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O conhecimento bebe-se do vazio. O vazio transborda. Aniquila-se de avalanches. Dois por dois. Três por três. Quatro por quatro. Coisa assim. Negra. Mas há o primeiro. Nunca esquecer o primeiro. O ímpar que, sem cópia, não tem par. Horizontes de conhecimento e Convencimómetros™, é do que isto fala. A sério, não me peçam mais nada.


Quando se lê um texto, nem que seja uma simples frase, ou mesmo uma palavra, é importante que se visualize. Que se imagine o efeito, a forma, a dimensão. A cor, o cheiro. A beleza. É necessário, acima de tudo, transcender as periferias da fantasia e da emoção, ir além desse receio que nos impede de formar opiniões contrárias à força da corrente. Do mainstream. A força do pensamento, que muitas vezes não reconhecemos como nosso, que nos confunde e que carece de confirmação com um seu par. O pensamento é sempre ímpar.

Corrente, por exemplo, é uma palavra com significados opostos entre si. Prende e leva. Em simultâneo. O ler também é isso. Prende e transporta-nos. Para dentro de nós e para fora, mas ao mesmo tempo para esse espaço sideral que pode não ter nome nenhum e que pode ter todos os nomes. Chamo-lhe só desta vez o formigueiro da nossa consciência. Espaço onde se constrói o ser que se reinventa a todo e qualquer instante. O eu. O nós. Tu aí, com esses dedos, com essas unhas que precisam de ser cortadas. O ele. O temperamento que aquece a alma. Pode apenas ser um brinquedo, essa estrutura mecânica da imaginação, ou mesmo o consolo mental receptor da felicidade, da redenção. Não interessa. Por vezes não funciona. Se quiser, se me pedirem, talvez, agora de repente, posso provar que nada funciona. Apago o que está para trás e vou-me embora.

Outro exemplo, um Convencimómetro™. Já falei nele nestas páginas, volto a falar. É preciso visualizá-lo, mesmo que não se conheça a palavra, é necessário compreender que pode ter botões, um para cima outro para baixo, um para ligar outro para desligar, que pode ter uma cor, que pode ser mais mole que duro. Quando se descreve alguém, é preciso construir a sua imagem, sentir-lhe o movimento, adivinhar-lhe os contornos, roubar-lhe um pouco da memória. Se digo uma janela que acabou de derreter, é importante que se tenha em atenção que a temperatura das palavras não vai aumentar, que o sítio onde essa frase vem publicada não vai começar a arder, que não vai queimar as lindas mãozinhas do recluso leitor. Mas que, por sua vez, se acredite, de pés juntos, que daqui para a frente tudo pode acontecer. Está mais quente? Não? É pena.

Quando me refiro à pertinência da percepção visual, à utilidade do ver, só quero chegar ao outro extremo, à escuridão, à cegueira, à falta de luz. Só quero no fundo escrever um texto sobre buracos negros. É isso que me traz aqui hoje. É sempre um bom pretexto, ter alguma coisa que me traga para dentro deste depósito. Ao menos daqui não saio. Não ando a roubar ou a portar-me mal com os meus parceiros sociais.

Um buraco negro quebra qualquer lei da física. No seu interior, que não tem, mas onde se imagina um dentro, nada funciona. A matéria é confundida numa compressão gravitacional tal que impede que qualquer partícula escape do seu famigerado interior. Um abismo imenso dentro de um buraco de uma agulha. Um elefante dentro de um rato. Sim, em tamanho. A desordem mais pura e ordenada do universo. Organiza-se desorganizando-se, devorando tudo o que a rodeia. Mede desmedidamente. Avaria sem qualquer variação. E como tudo isto não passa de escrita, é mesmo necessário que se visualize um buraco negro. Já está? Prossigamos.

Só alguém fisicamente disfuncional poderia compreender tão bem esta matéria e venerá-la na mais fiel das suas imprecisões. Stephen Hawking, físico britânico, acreditou toda a sua vida que qualquer buraco negro escondia todo o tipo de informação nele contida e que, após a sua destruição, não podia possuir qualquer metástase identificativa, deixar qualquer rasto, que permitisse a sua compreensão ou análise. Descobriu também que o negro não era plenamente negro. Que radiações ínfimas de luz – porque tudo o que vemos é feito desse fenómeno luminoso – escapavam do seu interior pela fronteira dessa toca escura. Feixes emigravam ilegalmente, portanto, para os limítrofes do abismo, talvez com medo de cair. Estas zonas chamam-lhes, os físico-terapeutas, horizontes de acontecimento, que levam e prendem para todo o sempre toda a energia e matéria e que quando se atravessam já não há retorno possível, é um percurso de um só sentido. Confuso? Leia outra vez. Para dizer a verdade pode mesmo atravessar para o lado de lá, sempre se percebe melhor.

É nesse irritante horizonte de acontecimento que acordamos quando o nosso mecanismo receptivo falha. Quando a desordem se instala para além dos subúrbios da esperança. Quando alguém nos põe o dedo na testa e nos empurra, e acordamos com a cara em chamas. Numa reinvenção total da realidade. O mundo do dia de hoje identifica-se com exactidão dessa forma excelsa, é exactamente isso: um insecto ortóptero locustídeos de cor verde. Procurar na enciclopédia ilustrada o que isto quer dizer.

Do alto da sua esclerose lateral amiotrófica, Stephen Hawking, vem agora afirmar que afinal estava enganado, que afinal se equivocou, que na realidade fez mal as contas. Que os buracos negros na caminhada para a morte, à medida que vão encolhendo, em simultâneo, se vão desvendando, largando pequenas torrentes de informação que os tornam finalmente matéria de estudo. Será possível no futuro, por exemplo, descobrir um jornal, o diário, um 0, ou um 1, a escorrer do que resta de um buraco negro? Será que estará cá alguém que se importe com isso? Creio que não. Creio também que, na sua falta de corpo e na sua física mecanizada, Stephen Hawking não passa de uma mediatização do paradoxo da informação. Paradoxo porque se contrapõe às leis quânticas que dizem que qualquer informação nunca pode ser completamente apagada. Se não perceberam, voltem para trás, passem esta parte e apaguem-na da vossa memória. Quântica. Já agora, vão ao Google e vejam o que quer dizer quântico.

Na invisibilidade humana em que se acorda em dias de tempestade, a teoria dos buracos negros não funciona. Nada funciona. Nem a cadeira robótica do Dr. Hawking ajuda a pronunciar as palavras mágicas que permitem abrir a porta do departamento emotivo de Mr. Stephen. Na comunicação universal, onde teoricamente existe um emissor e um receptor, qualquer pronúncia, qualquer palavra, qualquer dissertação, qualquer pensamento ímpar, é automaticamente sugado pelo silêncio do buraco negro mais próximo. E o que resta? Apenas uma distorção. Apenas a visão retorcida de um campo gravitacional que não se aguenta, que não é o nosso. A conclusão a que se pode chegar é que a desordem no fundo – sempre! – a única das ordens. Que une em total desarmonia as extremidades do horizonte dos nossos acontecimentos. Que nos leva, para fora, dentro da escuridão, aniquilando gradualmente a voz de uma biografia incansável.

Stephen Hawking lembrou-se, ao fim de trinta anos, que talvez pudesse estar errado e vem agora anunciar ao mundo que, de tanto olhar para buracos negros, conseguiu finalmente encontrar o mapa que lhe trouxe a descoberta de uma outra luz. Não a sua radiação, mas a luz da sua escuridão. A negação das suas afirmações mais coerentes em que acreditou a vida inteira. Stephen Hawking não tem nada de físico, é apenas químico, é apenas cerebral. O que importa é isso. A mente. O poder de decisão. A virtude da maturidade. Stephen Hawking é apenas consolo mental. É apenas uma estrela que explodiu e ganhou a estética de um buraco negro. O negro de metros de fios eléctricos. De electricidade completamente estática. Que passou a vida a pôr em causa princípios fundamentais da mecânica universal e que numa metamorfose termodinâmica, à escala planetária, vem agora afirmar o contrário. Rendendo-se ao âmago do horizonte do seu desconhecimento. O que é que isto quer dizer? Perguntem ao par mais próximo.

O mundo bebeu qualquer coisa que lhe fez mal. Um buraco negro empurrou-lhe com o dedo a testa e transformou-o na célula planetária mais irritante que se pode imaginar. Vou apagar tudo. Agora. Vou contar outra vez. Pode carregar aqui para fazer delete. Volta tudo ao zero. Volta tudo ao princípio e eu começo de novo.

É assim. Uma semente má.

Quando certa manhã o mundo despertou, depois de um sono intranquilo, achou-se na sua cama transformado num monstruoso insecto.

[Há uma coisa agarrada que não era daqui. Não sei de onde era. Diz assim: ‘Abrir a boca. Pensar que se abre a boca. Para falar. Para largar um pensamento que ficou a meio do caminho e se esqueceu. Ficou ali. Como uma barreira. Ou um insecto. Que não cabe mais. Não entra nem sai. É preciso vomitá-lo cá para fora.’ E Há uma música para esta CRACófonia. Lembrei-me. QUe explica tudo muito melhor. Está aqui. EXACTAMENTE ESTA, A VERSÃO.]