Limpo a seco Lime + Purple

© Raphael Schaller

SCROLL

Não é fácil ignificar a mole por onde explodem as ideias. Abrir o coração e mostrá-lo ao mundo. Não é só a vontade ou a falta dela. O lado para que se dorme, os devaneios que se seguem ao sonho da almofada. Os braços, as pernas. O gorro. Tudo conta, quando se fala de escrita. Quando se sente nas veias.


Num morro, o lugar predilecto, fim de tarde, de pés para o vazio.

– Sequei.
– O quê? Que dizes?
– Sequei, não me sai nem mais uma linha.
– Não? Mas isso é óptimo. Não é? É bom, tenho a certeza. É a liberdade.
– Pelo contrário, é o sufoco. Sento-me e não sai nada, nem um estilhaço. Nem uma apóstrofe. Fico com os nervos em franja. A roer as unhas. Não durmo à noite. Febres. Não faço mais nada…
– Mas não é melhor assim? Não pensas mais nisso e vais à tua vida. Deixas de ter essas manias, que sabes fazer isto e aquilo. De que até podes ser escritor. Assim só fazes o que és capaz. Que é respirar. E sabes respirar, não sabes? Isso já é viver com qualidade.
– Sei. Mas tu não percebes. Esta é a minha vida!
– É? Quem te disse isso? Quem é que te enfiou essa ideia na cabeça? Não sejas pateta. Admite que a tua vida não é assim.
– Ninguém me disse isto, não foi nenhuma revelação nem nada do género, é a pura das verdades. Está escrito.
– Está? Então mostra-me, mostra-me onde está escrito.

Lime arregaça as mangas do casaco e mostra os pulsos ao amigo. As veias a borbulhar lá dentro. Um mar vermelho. Cheio de letras. Letras de várias cores, como cubos de crianças que aprendem a ler.

– Vês? Achas que isto não quer dizer nada?
– Espantoso, nunca tinha reparado. É verdade, tens o abecedário a correr dentro de ti.
– E dói-me. O médico recomendou-me medidas estritas. Se não as deito cá para fora bloqueiam-me o sistema circulatório ou atravessam-se no coração. Estás a perceber agora, o meu sofrimento?
– Consigo imaginar. É como ter prisão de ventre. Está-se ali um monte de tempo e nada.
– É muito pior, isto inflecte com a saúde de uma pessoa. Não é possível durar muito tempo nesta situação. E estava tudo a correr tão bem. Contos, novelas, uma sumidade de palestras. Agora não há operação que me valha. Não há cura, percebes?
– Deixa-me ver outra vez…

Lime arregaça de novo as mangas e estica os pulsos. Uns segundos de silêncio.

– Tens aí um arame? Uma coisa fina parecida com um arame que se possa dobrar com facilidade?

Lime passa-lhe um molho de clipes.

– Enrolamos isto muito bem e fazemos uma espécie de filtro, vês?
– Sim, e agora?
– Agora passa-me o teu canivete suíço. Não dói. Põe este pano na boca e cerra os dentes. Ajuda.

Antes que pudesse fazer alguma coisa, Lime estava com os pulsos cortados.

– Estás maluco?! – berra.
– Tem calma, não te mexas. É só um segundo. Agora colocamos o filtro na diagonal.

Lime de olhos arregalados. Sem querer olhar. Um suor frio a escorrer-lhe da testa. As letras a escorregarem dos braços. A preencherem o vazio. A formarem palavras. A ditarem uma história.

– Vês? É simples, está tudo feito.

Lime sorri.

– Incrível. Isto é genial! Não me doi.

Nisto, pega no caderno e no lápis e começa a escrever o que os olhos vêem. Não totalmente. Só as primeiras frases. E de imediato, sem saber como, outros acrescentos da imaginação, já a disparar para todos os lados. Cheia de sede.

E é o final.

[Publicação dupla em radiografia e num escaparate chamado h, um suplemento de artes e ideias e… letras, pois claro. Corria o bonito ano de 2010, mais coisa menos coisa]