A História pede sempre mais branco

Macau, 1999

SCROLL

Um dia, os homens de um pequeno país sentiram que o mundo era apertado e decidiram alongá-lo, esventrando o desconhecido e o breu. Atiraram-se ao mar e deixaram-se ir com os ventos, perdidos no luar das estrelas. Chegaram longe, a lugares inimagináveis, cheios de gente feita de outras matérias. Mas ainda assim com cabeça, tronco e membros. E com língua comunicante. Aí souberam deixar a sua marca, bebendo todo o conhecimento e igualando-se aos nativos em erudição. De volta à terra, construíram uma vida sábia sem igual, que logrou grandezas pelas gerações fora. Recordam-se aqui algumas alíneas desses factos e outras ruínas da biografia da Pátria.


“Crente é pouco
sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus.”
in O Verdadeiro Almanaque Borda D’Água

Não sei bem o que me deu, mas deu-me para isto, para abrir o baú dos velhos papéis. A verdade é que acordei a pensar em histórias que passaram neste pequeno canto do planeta, no horário nobre. O passado é de um modo incrível um lugar longínquo. O passado que se evaporou dentro de uma bandeira levada ao peito, e agora são apenas os curativos a deixarem o seu rasto, a forjarem a cicatriz. A enterrar as vigas. Tudo tão vago, tão efémero, que até parece ridículo. A História, essa coisa grande, a deixar de ter importância. Eram outros os actores, os desígnios, as farpas. Penso que tudo o que aconteceu aqui – e nos dias que correm – não tem importância alguma. Tudo o que existiu deixou de ser matéria depois dessa badalada passagem de testemunho, quando a chave do estabelecimento passou para outras mãos. As mãos da terra. Das gentes da terra, como se passou a dizer. Foi tudo para a incineradora ou então levado na bagagem das velhas senhoras, pela porta das traseiras, dentro das gavetas da mobília, disfarçado entre os serviços de porcelana e as imitações fraudulentas do que em tempos foram carteiras de marca. Foi assim que alguns saíram, com o rabo entre as pernas. E no fundo não tinha importância nenhuma, o que levavam, o que deixavam. Era igual. É tudo indiferente, agora.

Ficou essa cara lavada a que se chama Património. A herança. Mas uma herança órfã. O testamento caducou há muito e ninguém o reivindicou. E o que resta são as fachadas, as paredes que dão para a rua, limpas e bonitinhas, que são a imagem da miscigenação de todo este aparato. Da mestiçagem de um território que se despenhou antes de chegar ao fim da sua rota de colisão. E agora fazemos parte de toda a Humanidade. Agora, somos universais, nesse hesitante sentimento de amor e ódio. De uma ressaca que não se sabe se aconteceu por ontem ou por hoje. Talvez viva na presunção de um amanhã mais funesto que nunca chegará. É sempre a queda para a desgraça, a que o povo tanto se habitua.

Indiferente ao caos urbanístico, indiferente ao que faz mover todo este estrado – o subterrâneo do Jogo – sente-se qualquer coisa no ar, qualquer coisa que floresce, um boião de novas frentes, o fervilhar de uma vida cultural mais intensa. Pessoas que se mexem e que criam uma nova onda. Um manifesto. Um substrato. É aí que jorra o Presente, é aí que quero esbarrar e por consequência estatelar-me ao comprido.

Mas hoje fala a História. O resto virá depois. Decerto, todos os que presenciaram o Passado já cá não estão. A maioria deles foi na debandada, nesse reverso da Diáspora. Na esperança de plantar novas sementes no solo que os viu nascer, regressando à presença das origens, ao reconhecimento de um conforto perdido e reiniciar o sistema que os opera. Partir e dar de novo. Deixar para trás o passado distante, essa coisa velha. Tão distante que ficou de pernas para o ar.

Uma ínfima percentagem dos que cá estão poderá ainda lembrar-se de uma coisa ou outra, não de tudo. Lembrar-se dos que foram ou do que por cá ocorreu. Alguns, entretanto, regressaram e a esperança de despertar o poço das memórias acorrentou-lhes os dias. Falo sempre de um plural imaginário, de um grupo de gente sem face, como se estivesse a refugiar-me neles e a esconder-me do resto do mundo. A tentar argumentar com o escuro de um colectivo desconhecido. Como se soubesse muito bem o que eles pensam, o que fizeram, onde estão. Como se todos eles pudessem pensar em conjunto. Estou só a ganhar tempo, aqui, a ganhar espaço e a desenformar ideias, atirando-as ao ar. Vamos a isto. Voltemos atrás.

Era assim antes da Transferência. Existia um Governador que governava no seu Palácio. Um Palácio cheio de súbditos e de grandes salões onde por vezes se faziam bailes e se dançava a noite toda até ao raiar da aurora. Bebia-se, comia-se e ainda se fazia o resto, num vão de escadas, ou nos aposentos da rainha. Era uma vida bela: uma rebaldaria! O Governador aos domingos saía na sua carruagem, com os seus oito cavalos brancos à trela, e circulava pela cidade onde se misturava com o povo. Levava doces e boas novas. Versado nas línguas e dialectos locais, conversava com os anciãos e ouvia as suas preces, os seus conselhos, bebendo ao mesmo tempo a sua sabedoria. De noite regressava em êxtase e mandava tocar os sinos das igrejas para mais uma festa. Só porque lhe apetecia. E o povo, do Norte ao Sul, subia até ao Palácio para de novo desfrutar das suas iguarias e da bondade do Governador.

Foi sempre do mesmo modo, a linhagem de governantes assim o impunha. De pais para filhos, depois para netos, os ensinamentos eram sistemáticos e aprendidos com prazer. Com tenra idade os filhos titubeavam tanto em latim como em mandarim ou em cantonense, mais tarde, já direitos e sem deixar cambalear a língua, prosseguiam até ao dialecto de Fukian. E era uma rica vida. Aos dez anos eram uns pequenos Confúcios e até à idade adulta rumavam para os confins da China para aí aprenderem a suas doutrinas milenares. Religião, ética e dialética. Quando se entronavam governadores, por unanimidade do povo, estavam preparados para encontrar o Buda no topo do Monte da Guia a qualquer hora do dia, bastava querer, bastava olhar. Bastava sentir. Mas isso já lá vai.

Hoje, quando abri a janela e deixei entrar a luz deste novo dia, lembrei-me foi de outra coisa, que me despertava uma enorme atenção e curiosidade: As Reuniões. Foi isso que me rompeu a nostalgia e me revolveu a insónia pelo dia fora. Foi isso que me fez abrir o baú.

As Reuniões tinham lugar na fronteira, num velho tribunal situado na estação de comboios. Uma terra de ninguém mesmo ali a dois passos das Portas do Cerco, onde está ainda a fronteira com o imenso continente chinês. Era preciso muito espaço. Terrenos baldios. Para as tendas dos consortes. Na sala, apinhada de gente, e com ventoinhas que rodavam num sossego ensurdecedor, o Governador reunia-se com todas as espécies de tribos das redondezas. Com todos os reis, todos os chefes, todos os capitães e cabecilhas de regimentos. De grandes agregados populacionais ou ínfimas aldeias perdidas nas estepes. Vinham das serras, vinham das cordilheiras, dos vesúvios, alguns para lá das cordilheiras Himalaicas. Chegavam durante a semana, ao longo dos dias, e acampavam, com os seus bois, os seus caldeirões, e por aí ficavam. Nessas alturas as festas mudavam-se para essa Terra de Ninguém, e a coisa fazia-se atrás de qualquer arbusto, de qualquer moita, num pequeno montículo de areia onde algumas convivas com um buço proeminente, que tanto excitava os homens da cidade, sentavam o rabo.

Dentro da sala, no grande dia d’A Reunião, todos se sentavam em pequenas carteiras de escola. Tudo falava. Tudo conferia as suas histórias e os seus tormentos. Os descendentes de Genghis Kan, impassíveis, envergando sempre os seus barretes, eram os que impunham maior respeito. Eram os únicos que se arrojavam a beber café e a comer um pastel de nata. Grandes homens. Atrás deles, estavam sempre os filhos dos eunucos, esses roedores de mares, uma velha guarda que apenas escutava o que se dizia, encostados às paredes a fumar cigarros. A primeira fila, era ocupada em toda a sua extensão por um grupo de portugueses continentais, era o seu lugar cativo. Homens de bigode que ganhavam uma pipa de massa só por ali estarem, só por se fazerem representar, sem nada perceber, sem nada sentir. A maioria era motorista de táxi na Damaia, na Amadora ou assim, e vinham só para fazer número. Para jogar às cartas quando aquilo tudo terminava. E, claro, partilhar os garrafões de tinto.

E a coisa passava. Falavam todos em código e o Governador dava sempre o mote. De cor e inspirado nas leituras do Almanaque. Sem discurso gravado, era tudo improviso: “Fulano que bem conheço / é pior que lacrau / mas talvez se eu for melhor / ele se torne menos mau”. Era assim que eles falavam, era assim que As Reuniões tomavam o seu lugar nas raias da cronologia. E no final faziam todos festas uns aos outros. Eu andava lá pelo meio, metia-me com as gentes, escutava-lhes o coração. Era lindo. Mas o pior eram os mafiosos.

Os mafiosos andavam atrás de mim, olhavam-me de lado, porque também lhes escutava os corações e eles diziam que não tinham cá isso, eles eram todos feitos de seiva de Dragão. Eu ria-me e brincava com eles, enquanto o Ajudante de Campo do Governador apertava o gasganete a algum mosquito que passava, e eles atiravam-se ao ar. Nunca mais me esqueço, uma das vezes, fartos de tanta palhaçada, vieram atrás de mim pela cidade fora. Perseguiram-me de mota, às dezenas, e eu, numa pequena lambreta que um taxista desavindo tinha deixado pendurada numa esquina, pisgava-me pelos becos mais escuros e pelos viadutos mais sombrios que compunham o ziguezaguear urbano do território. Era uma situação tramada. Lembrava-me de filmes de aventuras e conseguia trocar-lhes o oriente. Mas dias depois já ninguém se lembrava disso e a vida prosseguia o seu rumo. Mais festas. Mais tremoços e, de vez em quando, algumas minis. Sempre à espera de uma ocasião para encetar o resto.

Eram outras épocas. Não sei porque me deu para isto, não era suposto. Há coisas que não vale a pena abrir, é deixá-las fechadas a navegar nos mares do esquecimento. Agora nada importa. Os tempos são outros. Tudo mudou e quem cá está pouco se importa com quem esteve. Segue-se para bingo ou para onde calhar, sempre em frente, é sempre o jogo que fala mais alto. Uma cor ou a outra. É o que vale. E é assim que isto acaba, para o caso de não terem percebido. As luzes que se acendam. Que se apaguem os cigarros.

[ISTO VEIO À BAILA NO QUINTO ANO DESTE SÉCULO. SEM SOMBRA. ALGUMA COISA A ACRESCENTAR? É DEIXAR NA CAIXA DE COMENTÁRIOS]