A descoser os lábios de uma ferida Lime + Purple

SCROLL

O tempo morto. Tempo por usar. A espera por tudo aquilo que faz falta. A exactidão sem sombra, por preencher. Quantos dias mais? Quantas brasas por queimar, já mornas, a precisar de chama? Sempre a vontade e a sintonia no mesmo pranto. E agora, dizes tu. E agora?


Talvez se tenha passado ao telefone, esta conversa. Não há interrogações, apesar de se pronunciarem. Há um pouco de memória, que vem por engano.

– Que andas tu a fazer, Lime? Vejo-te sempre a andar de saquinhos na mão para cá e para lá. Sacos azuis, com grandes volumes lá dentro. Letras? Hoje vi-te assim. Que andas a transportar, consegues explicar-me?
– Hoje? Hoje era uma impressora. No outro dia era a parte de dentro de um computador. Placas. Depende.
– É esse o teu trabalho, agora, transportar material informático?
– Não! Claro que não. É a medida das necessidades, mais nada. Tenho de me estabelecer. Ando a estabelecer-me, Purple, sabias?
– Isso é bom, mas não acredito muito nessa resolução. Olha os anos todos que passaram, nunca conseguiste fazer isso. Andaste sempre de cabeça no ar e o corpo, normalmente, seguiu-te, sempre, sempre atrás. Não consegues fugir de ti. Não é verdade? Acredita que a vida é só essa. E é assim. Por mais que tentes, o corpo não sai do mesmo lugar. Muito menos o que está lá dentro.

Lime impaciente. A querer correr. A querer desligar-se.

– Não, não é verdade. Isso foi todo o processo. Todo o processo até aqui chegar. Não tem muito valor. Não importa, agora que a decisão está tomada e que tudo corre sobre rodas. Vou lá chegar. Estou mais perto.
– Mas o valor de que falas tem peso, foi toda uma vida. Nunca paraste quieto. Olha para ti, já não és um adolescente, já tens idade para ter juízo. Já devias ter uma vida. Há muito tempo, Lime, há muito tempo. Esses saquinhos azuis não me encantam. Não é assim.

Purple quase a dizer adeus. Até logo. Até qualquer dia. “Palerma!” Já com um pé lá fora.

– Isso é o que tu pensas. Não quer dizer nada. Quer dizer para ti, mas para os outros dúvido e para mim já sabes qual é a resposta.
– E qual é a resposta, diz-me.
– Tu vais ver. Vais ver um destes dias. Ando a desembaraçar-me e nem imaginas como isso é importante agora. Para mim! Largar-me assim para o meu mundo novo. A pouco e pouco. Atiro-me!

A seguir só o uivo da linha com o fio cortado ficou. E ambos seguiram as suas vidas.