Cheira a Nirvana

SCROLL

História inspirada no oceanário conturbado de David Bowie, no seu meio-irmão Terry Burns – alegadamente vítima de abusos maternos que degeneraram em esquizofrenia – e, em letras flamejantes, na canção The Bewlay Brothers. Uma figura ao vento no espírito do cantor inglês – também assinada como pseudónimo -, árdua de decifrar, mas que se pode colar, como um motim, aos antagonismos do irmão e à relação cúmplice entre os dois. Aos tropeções, encontram-se ainda alguns “cães de diamante” e outras ilusões ópticas. Não mordam.


“And my brother lays upon the rocks
He could be dead, he could be not, he could be you
He’s chameleon, comedian, Corinthian and caricature”
in “The Bewlay Brothers”, de David Bowie

O brilho da plateia apagou-se há dois segundos, ouve-se apenas o burburinho dos aparelhos de ar-condicionado, um crepitar de papéis, um espirro, alguém que envia uma mensagem no seu telefone. As teclas que sussurram. Depois um breve silêncio de meio piscar de olhos. Umas mãos suadas que puxam uma corda, umas roldanas mal lubrificadas, um dedo que toca um interruptor e liberta um delírio de luzes no palco. Uma alucinação.

Daniel Bew é o irmão mais velho e está morto. É o primeiro a aparecer. Não se vê, sente-se o cheiro, apenas. Bafio, ratos podres, cães de diamante e tangerinas por colher, materializam a sua presença. Durante toda a peça está seco, esquecido, mas em palco. Extinto. Sem respirar. No fim do espectáculo, ressuscita, acende um cigarro e vai para casa dormir. Tem uma necessidade extrema de descanso.

Por cima das luzes um painel electrónico descreve a situação, já que não se vê nada, apenas uma frase que corre demasiado depressa, numa constância de três línguas: “A primeira coisa que pensamos, antes de nascer, é que somos cegos, a segunda é que afinal conseguimos ver”. Por momentos não se percebe se aquilo que se vê é uma escuridão de branco ou de preto, que pisca e que arde nos olhos. O inconsciente, sem dizer nada a ninguém, regista que é branco e preto, em simultâneo. E de repente o estrado torna-se uma multidão de gritos: são os irmãos Bew, uma família abundante com um número infinito de elementos.

Ao certo não se sabe quantos são. Especula-se. Recentemente a Rolling Stone chinesa referia que “contando com os dois irmãos que seguram a alavanca no canal do Panamá [os cidadãos de apelido Bew] são ao todo dois milhões…”. A surpresa é total, os corpos mexem-se simulando o quotidiano dos espectadores, que de pronto são invadidos por uma sensação de déjà vu, cobrindo como uma praga todos os lugares do auditório. No palco e ao mesmo tempo na plateia, o público, imóvel, interage com as personagens, numa partilha de som, luz e êxtase.

Chama-se a este processo Realidade Interactiva (RI). Um corredor à entrada, por onde os espectadores tiveram que passar, registou milimetricamente o movimento, a imagem e a pose de cada um, criando um modelo tridimensional que posteriormente é usado em palco. No final do percurso é gravada a voz com a leitura do título do espectáculo e um pouco mais. Frases aleatórias definidas pelo mecanismo. Estes registos são então chamados e projectados através de pequenos tubos luminosos, formando um ilimitado número de hologramas. São eles que personificam os actores e que dão corpo às personagens. Cada holograma representa de modo claro e sem falhas cada uma das pessoas da audiência, que se movem, falam e gesticulam do mesmo modo que os seus dadores. À partida, de tão real é o resultado, pode pensar-se que são clones e que o corredor apenas retirou o ADN de cada um dos seus ocupantes dando-lhes uma nova vida dentro de uma cópia perfeita. Nas luzes da ribalta.

Parece confuso, mas não é. É apenas a primeira parte do programa. Tiful Bew, o irmão do meio, por entre a parafernália de máquinas luminosas e das suas representações, explica-nos as interacções pretendidas. A um canto, o espectador da coxia 32L beija sofregamente a espectadora do lugar 2B. E apaixonam-se. No palco e depois na vida real. É inevitável. Terminado o espectáculo, encontram-se e repetem o que foi representado aos olhos de toda a gente. Tiful explica, numa linguagem muito gestual, que as pessoas nunca mais serão as mesmas, passam a ser peças soltas do lugar que preenchiam anteriormente e a partir daí iniciam um processo de reajustamento que as leva para uma vida profundamente melhor. Disso, é exemplo tanto o barbudo do 32K como o magricela do 69H, que evoluem, durante os trinta ou quarenta e cinco minutos da primeira parte, numa excepcional dose de pancadaria, onde não falta sangue e dentes partidos. Discretamente, já na rua, com os carros a passar, pedem desculpa um ao outro, entram num bar e tornam-se amigos para a vida.

O que se vê são extremos da actividade humana, cenas do quotidiano íntimo levadas à luz da inocência, em processos de conflito irreparáveis. Sobras do Animal que existe dentro do Homem. Os cenários representam, mais uma vez, apenas a realidade. Uma rua. Um beco onde se cai. Um campo cheio de árvores com as folhas a baterem ao vento. RI.

O Sol. A Lua.

O branco e o preto em simultâneo. Em delírio. Não se sabe qual é um ou qual é o outro. O cérebro, que devia percepcionar estas ocorrências, frita.

Mulheres e homens no aglomerado físico que os cerca. A cidade onde se busca o alimento e as montanhas onde se encontra a sabedoria. Os Irmãos Bew, um a um, viajam nos limites das suas crises de existência, com a necessidade extrema de afirmar que fazem parte do mundo.

Na segunda parte, a avalanche de situações representada pelo público morre numa só vontade. A desigualdade de corpos e de formas encolhem-se numa só: o irmão Bew, esse ser delicado que se desmultiplica nas boas intenções que nasceram com o Universo. Que das cinzas faz um paraíso, que da Eva faz um Adão, que do Adão faz um macaco. E do macaco faz um deus que lança chamas. Que faz chover bondade. No palco o irmão Bew – e os seus infinitos gémeos feitos de luz – dividem-se pelos olhos da assistência, interagindo de novo com a sua alma. Dão-lhes escolhas, mostram-lhe caminhos, dedicam-se ao reverso da moeda. No positivo neutralizam o negativo. E no fim, quando o ar-condicionado se volta a ouvir, as palmas que se ouvem da plateia transformam as mãos dos irmãos Bew em asas, que voam para uma apoteose escura de branco e negro, numa só tonalidade. Sem fim, sem princípio.

Terry Burns, artista radicado em Ping Pong, é a alma deste espectáculo. Ele próprio é o que sobra da mistura com o seu irmão siamês que nunca conheceu. Que não nasceu com ele como devia ter nascido e que vive alojado dentro da sua massa criativa. O mundo de Terry Burns espalha-se por uma esquizofrenia de sucesso, disciplinada com brandura, mas em demasia. Burns é Bew para fugir à responsabilidade de ser Burns. Para se confundir nele. Para ser toda a gente ao mesmo tempo, escondendo-se nesse reino de possibilidades sem limite. “Os únicos momentos que valem tudo são aqueles em que felizmente consigo ignorar as pessoas que supostamente devo entreter”, escreveu Terry Burns a um amigo. “Não eu, nenhum público palerma para divertir; apenas o coração e a alma. O mundo, os pássaros, tempestades, sonhos, tristeza, serenidade celestial. Aí, sim, posso ser alguém. Até isso acontecer – e mesmo que não aconteça – sou um miserável…”. Num diário recentemente publicado, Burns procura a essência que lhe escapa: “A grandeza na arte alcança-se na ânsia e na dor, e no profundo sentir de se estar num túnel escuro. A grandeza na arte não é coisa que se diga a nós próprios que se tem. Não é uma porcaria qualquer que se lança para dentro de uma galeria. É o oásis! A grandeza, a visão, ou como se queira chamar. Depois de atravessar o vasto deserto de isolação e de sentimentos secos, aí sim, vem o oásis. E à medida que o criador, que tenha visto uma vez esse lugar fértil, envelhece, mais ele quer viver para sempre, mais frequentes são os êxitos de grandeza e fantasia.”

“Para este território quisemos fazer algo diferente, gosto de descarrilar comboios dentro das veias das pessoas. Gosto de as provocar, partindo delas próprias”, explicou aos jornalistas em encontro com a imprensa, gesticulando numa mímica idêntica à do mais novo dos irmãos, Czar Bew. “Como existem as faixas escondidas nos CDs, quisemos fazer uma faixa escondida dentro deste Festival de Artes, um espectáculo escondido no cartaz, com o intuito de surpreender o público. As pessoas precisam de surpresas, a vida precisa de ser um assombro a toda a hora”. A produção do espectáculo não envolve gastos, apenas o funcionamento da maquinaria, não há actores, não há engenheiros de som, é tudo pré-fabricado, tudo parte de um automatismo já criado. Os irmãos Bew existem dentro dessa realidade. É só juntar luz. São uma vitória da ilusão face à realidade palpável. Não existem, afinal, nem na alavanca do canal do Panamá.

Para o próximo ano, Terry Burns tem um projecto novo. Já com o manifesto apoio de várias instituições, pretende substituir a população toda desta Região Especial por habitantes do território de Ping Pong, como quem faz apenas um embrulho. “Agora com a saída do Chefe do Executivo já não precisamos de tanta gente, podemos sempre dar uma mãozinha e criar aqui um oásis”, diz o irmão Bew, sorrindo.

BewBros

O espectáculo tem o genuíno e bonito nome de “Êxtase, Amor e Etanol” e acontece algures nas traseiras do Centro Cultural. A organização do Festival não quis divulgar, propositadamente, a data da sua realização, mas fonte próxima, nascida na longínqua mistura entre o Atlântico e o Pacífico, deixa-nos a ideia que será num dia para lá do final do próximo mês.

[O que acima se descreve decorreu nesse Zimbabué do Oriente, já não-luso-administrado, no ano de 2005 e a reportagem foi publicada no Hoje Macau a 12 de Março de 2005]

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