Correspondência do Sr. Joid #1 [vários remetentes]

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Rascunhos, cartas, postais, bilhetes em suportes vários, é indiscriminado. Cismas electrónicas, também. Ao longo dos tempos foram em catadupa e de muitas origens. Linhas que se intrometeram na vida de quem as leu e que a transformaram, abrindo-lhe novos horizontes. E é assim que o mundo roda. Hoje estamos cá, amanhã já não estamos. Alguém ficará para levar o cão à rua.


Caro Sr. J.,

Antes de mais, obrigado pelo interesse no “Cabeça de Cachalote”. Claro que temos vontade em divulgar e vender a revista na Guiné Conacri. Quanto à forma de pagamento, é assunto que não domino. Em breve, V. Ex.ª será contactado por outra pessoa que lhe irá explicar o procedimento habitual nestes casos. Creio que não estarei a ultrapassar as minhas competências ao dizer que, dada a natureza do vosso pedido, será possível definirmos um preço diferente e contrapartidas que agradarão a ambos os lados, no fundo estamos todos do mesmo lado. Esta é a nossa luta, não é verdade? É preciso que os outros saibam o que estamos a fazer. E se alguém se estabelece na Guiné Conacri, querendo aí começar uma revolução sectorial, vamos embora, estamos juntos.

A nossa pretensão é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio singular tenham no “Cabeça de Cachalote” o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos. Vivemos de ânsias, por uma beleza transmutante. A revista necessita de vida e palpitação, e não é justo que se esterilize cada um que a sonhar, com orgulho, temperamento e esplendor. Em suma, a nossa mente está aberta e estabelecida numa procura estética de permutas: os que nos procuram e os que nós esperamos.

E assim, avançamos.

Quanto ao segundo ponto, é uma excelente ideia. No “Cabeça de Cachalote” procuramos divulgar trabalhos menos conhecidos, incluindo o de artistas de outras culturas. Que cultura é a vossa, que ainda não percebi? Podemos estudar uma maneira de trocarmos colaborações, seria óptimo começarmos nesse pilar. No nosso caso, talvez pudesse seleccionar um ou dois artistas de cada área (literatura, artes visuais e música) e enviar para aí os materiais. E V. Ex.ª fazia exactamente a mesma coisa. Com toda a liberdade possível numa lógica de partilha. O único critério seria o da qualidade. Será isto possível? Para mim, dificilmente encontraremos outro caminho, que não esse. O da permuta, como já disse. Depois seguiremos, por estradas mais largas, ladeadas de árvores de fruto. Se assim se proporcionar. Aguardo as considerações de V. Ex.ª a este respeito.

Literatura, pode ser no dialecto local. Queremos dotar a revista de um certo multilinguismo. Um colorido linguístico variado, se assim se pode dizer, que já por si se transformará num mergulho para a arte. Num fruto suculento. E estamos a mostrar o mundo, a musicalidade das palavras que desconhecemos. Creio que esta é uma ideia pertinente e com força para andar. Logo veremos se será incluída a tradução para o nosso idioma, é uma hipótese que podemos estudar no futuro. Estamos abertos a todas as ideias e dispostos sobretudo a puxar por elas. Pergunto-me se V. Ex.ª estará de acordo: eliminar a compreensão face à sonoridade da língua?

Já agora, qual é a periodicidade do vosso “Supositório”?

Quanto às revistas para venda na Guiné, como disse, em breve receberão o contacto da nossa colaboradora responsável por essa área. Talvez esta semana. De certeza para a próxima.

Um grande abraço e mais uma vez obrigado pelo interesse no nosso projecto. Esperançados, seguimos a direito.

Luís de M.

PS. Trate-me por tu, que eu procederei de igual forma.

[Luís é bem capaz de ser o pseudónimo de algum poeta português. Missiva recebida em Julho de 2010]

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