Dois dedos de conversa

© Sofia Sforza

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Desterro. Princípio da tarde. Ou perto da madrugada. Até nunca mais acabar. Está bem, acabou. Mas não foi de noite, nem de manhã. Foi quando o vieram buscar. E isso não foi há tanto tempo assim.


Tempo escuro. Temperatura amena. Talvez o mar encrespado.

– Ao menos podias dizer alguma coisa. Passas por mim assim e não dizes nada? Que se passa contigo, estamos chateados?
– Estamos!
– Porquê?
– Ontem… Não te lembras?
– De quê, devia lembrar-me de alguma coisa? Não me lembro de nada. Ontem nem te vi. Saí de casa tarde, apanhei um táxi e fui para o Desterro.
– E depois?
– Depois estive lá toda a noite, até de manhã. Não, não era de manhã, era de noite, ainda.
– Sim, era de noite, tens razão. Mas não era a mesma noite. E isso não foi ontem, foi há dois dias. Foi o tempo que lá estiveste.
– Foi? Não acredito. Aconteceu alguma coisa? Estavas lá?
– Estava, com a Rute.
– Rute? Quem é a Rute?
– É a mulher que tu violaste e que pregaste à parede da casa-de-banho.
– Foi? E não chamaram a Polícia? Não me lembro de nada. Sei que saí de lá pelo meu pé.
– Pois foi. Tinhas uma arma na mão e ameaçaste toda a gente. Que matavas todos se alguém se mexesse.
– Estás a gozar! Eu nunca usei uma arma! Eu nunca fiz mal a uma mosca. A Rute, violada? Devem estar a sonhar! Andam a ver muitos filmes. Eu sei lá quem é ela. A Rute. Nunca a vi!
– Ela sabe. E os teus dedos ficaram pelo corpo todo dela, como um arco-íris. E o teu ADN. Está tudo registado. Estão agora a fotografá-la. As análises já foram para o laboratório. Ela não se consegue mexer.
– E por isso não me ias falar? Por essa história toda? Eu a achar que eras meu amigo.
– Ia sim!
– Não me parece. Ias fazer qualquer coisa. Mas não me ias falar.
– Ando atrás de ti desde que saíste de lá, e não foi assim há tanto tempo. Na verdade acabaste de sair há menos de uma hora. E vê, aquela gente lá atrás. À esquerda e à direita, vês aquelas carrinhas, aqueles homens? Estão à tua espera. Vão-te prender.
– A sério? Como é isso possível? E a arma?
– Põe a tua mão no bolso. Nesse não, no do lado de dentro do casaco. Sentes alguma coisa?
– Sinto! Mas isto é uma pistola de brincar! Olha! Partiu-se toda, vês?
– Não importa. Vem comigo.
– Vou. Mas isto não fica assim!
– Logo se vê como fica. Isso já não é contigo.

Já estava tudo organizado. Não demorou tempo nenhum. E o crespo das ondas já não se conseguiu ouvir mais.

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