Romance histórico [versão original]

© Verne Ho

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Esta é uma história perdida, que foi ficando na gaveta e que moveu outras vontades. Os nomes já foram outros. Mas os nomes não têm importância afinal, por pertencerem a gente desconhecida e ficcional. Agora tudo se levante e chega no formato original, assim como foi escrito, sem mais despistes.


Rocha Dinis?

Do outro lado nada. Só um silêncio a desdobrar-se aos poucos. Quatro, cinco segundos e ninguém na outra extremidade da linha. Talvez um ruído de fundo. Um rádio ligado, esquecido; uma motorizada a passar na rua, em esforço; o zumbir de um ar-condicionado, que a querer imitar um relógio parece estar a pingar os segundos, um por um. Todos estes sons misturados e muito leves, quase surdos. Como se nada fosse.

De repente.

– “Uai”? – É assim na língua estrangeira, desta terra que habito, que na verdade não é estrangeira coisa nenhuma.

O que vale na escrita, apesar da seriedade que encerra, é que se pode brincar sempre com ela, podemos esticá-la até ao seu limite, cortá-la aos bocadinhos e dar-lhe um outro sentido, e por essa razão é possível ter uma tradução instantânea. Todo o diálogo que se segue passou-se nesse outro idioma que não é o meu. É verdade. As minhas relações comerciais e o meu vício no jogo, sempre com relativo sucesso, ao longo de todos estes anos, tornaram-me hábil na língua nativa desta ilha. Começando pelo calão – que é como se entra – o resto veio com o tempo e agora não me é difícil compreender mesmo o mais complicado dos sotaques. E para além disso, já arranho quase todos os dialectos que se alastram por aqui.

– O Rocha Dinis?
– Rocha Dinis? Não há aqui ninguém com esse nome. Aliás, estou sozinho. Sabes que horas são?
– Sei, é tarde. Mas isso não quer dizer nada, pensei que ele estivesse aí, que estava sempre aí.

Eram quatro e meia da manhã.

– Pois, mas não está, não conheço. Com licença.

E desligou.

– Sim?
– Sou eu outra vez.
– Tu? E quem és tu?

Disse-lhe o meu nome. O rádio ligado estava na estação portuguesa e dava as ocorrências que chegavam do outro lado do mundo. Pontes, tristezas, súplicas femininas. Vinham por um fio muito ténue e por entre essas vozes distantes quase que se conseguia ouvir o brilho artificial das luzes. Esse som postiço que o halogéneo debita. O homem do outro lado respirou umas quantas vezes. Piscou os olhos depois disso. Compreendia eu.

– E porque queres falar com essa pessoa a esta hora, não podes ligar amanhã? Não tens o telemóvel?
– Já tentei. Está desligado. Tem de ser agora, queria perguntar-lhe uma coisa. Preciso de saber se ele quer entrar numa história.
– Uma história? Que história?
– Uma coisa que estou a escrever. Uma espécie de romance histórico, mas mais curto, sem tantas personagens. Só com uma ou duas.

O meu parceiro do outro lado da linha estava a ficar entusiasmado com a conversa.

– Para um livro? Pensei que os romances históricos eram escritos com personagens da História que já morreram há muito tempo. A glória dos Soldados, a astúcia dos Pioneiros, o ardor dos Reis. É isso que eles vão buscar. Depois misturam tudo com outros episódios lavrados na cabeça de quem os escreve e já está. É uma receita simples, é como uma sopa de fitas, é só juntar água. Eu sei disso tudo. Aqui passo o tempo a ler e é o que gosto mais de fazer.
– Trabalhas aí?
– Sou o homem das limpezas. Faço o meu trabalho em vinte minutos e o resto do turno, que devia durar duas horas e meia, passo-o a ler. Mas não precisas de saber isso, não quero perder este emprego. Era o que estava a fazer agora. Leio de tudo. Tudo o que consiga apanhar. E acredita que ninguém se queixa, deixo tudo limpinho.
– Tens uma bela vida.
– Faço por isso. Só temos uma para viver, não é? É preciso aproveitar e fazer o que é bom, o que vale a pena. Se estás a escrever um livro, só te posso dar os parabéns.

Deste lado, o quarto está vazio e cheio de pó. Uma ventoinha roda no tecto. Há um relógio que pulsa o ar frio. Tenho pouco mais de trinta e estou sentado numa mesa de jogar às cartas, daquelas de feltro verde. A única coisa que se encontra em cima da mesa é um livro. De vez em quando olho para ele. O título na capa com letras gordas. “Senta”. Se o abrir sei muito bem o que está lá escrito: “senta senta senta senta senta senta…” repetidamente, página após página. Sempre que o fecho dá-me vontade de me pôr de pé, como agora, mas não o faço. Suspiro, em vez disso. E o livro muda de título. Agora chama-se “Morre”. Consigo adivinhar o que vem de dentro: “morre morre morre morre morre…”. Ouve-se um galo a sufocar lá fora. Ainda tenho o telefone na mão. Continuo.

– Para dizer a verdade, isto não é um livro. Nem é feito como um romance histórico tradicional. Ainda não sei bem o que é. Dei-lhe essa designação porque é mais fácil desse modo conseguires ver-lhe a cara. Depois logo se vê. Vai-se por aí fora, não é? Vamos perdidos aos encontrões por aí abaixo. É isso que dá a força à escrita.
– Mas ainda não percebi porque é que telefonaste para aqui. Esse livro tem pessoas reais, coisas verdadeiras, ou é uma obra de ficção na íntegra?

“Íntegra”? Ora aí está uma palavra que eu não sabia que compreendia. “Chung fan”.

– De uma ponta à outra é tudo inventado. Mas é isso, tudo o que se escreve, baseado ou não no real, é criação. Não se pode reproduzir por palavras uma coisa do passado, nem o que está a acontecer. É preciso tomar uma posição. Mesmo se estivermos a relatar o que estamos a ver é necessário orientar as palavras e por mais pequeno que seja o impulso já se está a descobrir uma nova forma de o dizer. É a tua forma de analisar.
– Pode ser-se muito fiel.
– Mas são os teus olhos. São os teus sentidos. Eles é que absorvem a informação toda. O que vai sair não é decerto a verdade universal.
– Mas as cores, o tempo, as formas, podem ser traduzidos de maneira linear. Os animais. O vermelho não tem nada que enganar, pois não?

E é um pouco verdade. O vermelho é uma cor perfeita. No entanto, eu gosto de contrariar.

– Mas sei lá eu se não és um irmão daltónico, se tens vertigens ou claustrofobia, se a tua biologia interna funciona a outra velocidade. Isso tudo afecta a perspectiva. Diz-me onde posso encontrar o Rocha Dinis, por favor.
– Não sei. A estas horas as pessoas dormem, não sei se sabes. Porque é que não ligas para os outros jornais na língua da tua terra, como se chamam? Liga para o Amanhã, para o Posto Final, ainda lá devem estar. Ou para o outro, daquele lingrinhas, já o vi por aqui, a altas horas. Mas agora a sério, não me digas que também escreves para um desses jornalecos?
– Mais ou menos.
– Mais ou menos?
– Sim, mais ou menos.

A esta questão, a quem a fizer, se escrevo para um jornal ou não, respondo sempre da mesma maneira. E não há explicação a dar. Por isso é bom que não a façam. Eu achava que estava a ligar para o diário mais público cá da terra, e que ele me estava a enganar e que na verdade nem estávamos a usar outro falar, era só impressão minha.

– Já vi que não tens a resposta na ponta da língua. Mas diz-me lá o que querias desse Rocha Dinis, de que modo iria ele entrar na tua história.
– Ainda não sei. Só lhe queria telefonar a perguntar. Queria saber se podia contar com ele. Estou a escrever uma peça para um jornal…

Está bem, confesso, é para aí mesmo. Ok, também escrevo para os jornais, também fui picado por esse mosquito. E não é para o da paróquia, fiquem descansados.

– Descansado? Ainda ouvi isso. Eu quero lá saber. Eu sou o homem das limpezas, já te tinha dito. Leio umas coisas, sim, mas é cá comigo, ninguém me chateia por causa disso. Só estava com curiosidade, mais nada. Queria saber se estavas a escrever uma espécie de “Omelete” ou o “Homem Triplicado”. Curiosidade, só isso.
– Não, não, nada que se pareça, não sigo esses caminhos.. Pode parecer até, mas não. Posso até pôr alguns parágrafos dessas obras primas, só para enganar. Mas o meu processo é bastante mais simples. Umas coisas sobre a terra. Uns nomes verdadeiros. O Rocha Dinis, se ele quiser. Pode estar a fumar o seu cachimbo que não faz mal. Coisas que se passam. Uns ruídos de fundo. O zumbir plural dos ares-condicionados a crepitar na boca da redacção. Uma conversa ao telefone, talvez, noutra língua, mas com a piada de que é traduzido em instantâneo. Coisas do momento. Os leitores acham graça a isso tudo e até se riem, acredita. Depois arranjam-se umas quantas outras personagens pelo meio e pronto. Não sei. Nunca se sabe. Mas, assim como as sopas de fita, é só juntar água: engole-se em dois minutos. Tu deves saber.
– Estou para ver. Tenho pena por só conseguir olhar para a folha porque não sei essa língua, não vou conseguir ler.
– Também não perdes nada. Eu conto-te depois, não te preocupes, se me fizeres um favor…
– Um favor? Não estás já a pedir demais? Estava aqui a ler e com isto o tempo passa. E olha que não faço favores a ninguém.
– És como eu, também não faço favores, tens toda a razão. Mas, vá lá, é só esta vez. Podes deixar aí um recado para o caso de ele entretanto chegar?
– Não chega! Que eu saiba, não há aqui ninguém com esse nome. Para dizer a verdade, não me encontro com ninguém, é muito raro. Faço apenas o trabalho que tenho a fazer e no fim do mês recebo o meu cheque, só isso. Não quero mais conversas. Mas, se isso te faz feliz, eu deixo.
– É para me ligar com urgência, preciso de saber se posso usar o nome dele. Gostava de o colocar na minha história. Vou ficar aqui à espera. Tenho de enviar isto para a tipografia.
– Mas eu não sei escrever em português. Como é que vamos fazer isso?
– Mando-te uma mensagem para o teu telefone e copias. Diz-me o teu número…
– Está bem, até te posso ajudar porque acho piada a esses novos métodos de criação. Até me rio com o resultado. O ganir dos galos, os rádios ligados. Está aqui um a dar as notícias do teu país, um chinfrim completo – “chung fan” – podes pô-lo na tua história, se te faltar a imaginação. Ou o barulho da minha mota a subir a ladeira, fica sempre bem um ruidozinho.
– Não me parece mal. Agradeço a preocupação.
– E já agora, como se vai chamar?
– “Romance histórico”, talvez. Logo vejo.
– Muito bem. Acho que esse Rocha Dinis não se vai importar, seja lá quem ele for, usa o nome à vontade.
– Também acho que não traz nenhum mal ao mundo.
– Sim, não te preocupes. Se ele depois reclamar diz-lhe que fui eu… o homem das limpezas… que deu autorização. Ou coisa parecida. Boa sorte.

E como não havia mais nada para dizer, desligámos.

[Para certas percepções, usar figuras reais em matéria ficcional desobedece às regras do jogo, sobretudo de uma edição diária, quando a pressão do fecho é persistente e já não há cabeça para discernir a direito. Neste caso, como já andava a pisar a risca há um certo tempo, a publicação deste texto foi rejeitada. Deste modo, pela segunda vez, em vigências diferentes, a minha colaboração com o jornal em causa acabaria por se esfumar. Foi o que aconteceu. O texto seria publicado mais tarde, noutras núpcias, talvez um par de anos mais à frente, com a adopção de uma personagem fictícia, mas nunca com o impacto que poderia ter, ao incluir-se o director de outro jornal da terra, a quem se pedia autorização para entrar na própria festa de palavras que decorria à medida da leitura. À pessoa em causa creio que lhe tenha enviado uma SMS, a dar conta da ocorrência. Era uma experiência interactiva em tempo real. Já não me lembro em que ano estávamos. Também não interessa.]