Das coisas que me esqueço

© Milada Vigerova

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Por uma vez queria entrar pela janela. Queria que o flagelo da noite deixasse de crepitar e me levitasse com ela. Entro pela janela. Olho em redor. As coisas pequenas ficaram. As grandiosas desapareceram.


É difícil convencê-la a sair de lá. Ela está no sótão, agora. Um pouco mais calma. Deu-me o cartão de crédito, as chaves do carro e todo o dinheiro que tinha. Palpitou-me os códigos secretos e despediu-se. Não para sempre. Disse-me adeus e fechou os olhos. Guardei os objectos todos num saco e fingi que não era nada comigo, não queria mostrar-me preocupado. Era bastante tarde. Tarde demais para mim, tarde demais para todos os que ainda estavam acordados àquela hora. Não podíamos ver nascer o dia assim, naquele cenário. Não era possível. Era necessário que o problema se resolvesse antes disso. Não que estivesse a pensar que aquilo fosse algum problema, mais do que já era nos outros dias. Nas outras noites. É já um facto recorrente. Uma simbiose sem proveito mútuo. Uma vida sempre a andar para trás. E eu a acompanhá-la em todos os sentidos. Mas vê-la assim a caminhar sempre na direcção errada não é de todo o meu prato favorito. Na verdade, não há muito que possa fazer. É por aí que ela gosta de ir. Eternamente. Mesmo que lhe diga o contrário e explique, de outras formas, como construir mapas no ar, com os dedos. Com a sua vida. Há muito que desisti de a convencer, de lhe mostrar itinerários. Não tenho jeito nenhum para guia turístico. Por que sítios andou, não sei, não me disse, nem que passos deu durante toda a noite. Quando cheguei, ela já cá estava, com os pés fora da janela, a dançar no ar.

Agora está lá em cima e eu desci para lhe mostrar que confiava nela. Para lhe dar força. Dar-lhe força acreditando que é capaz de ficar sozinha, sem fazer mais disparates. E saí. Desci as escadas devagar sem olhar para trás, tornando-me uma peça ausente de um mundo que ela própria terá de construir de novo. Não adianta estar para ali a falar, a contar histórias, a inventar a verdade que ela já conhece tão bem. Tudo o que se mente é a mais pura das realidades, é ser verdadeiro de uma só vez. Não há falsidades nisso. Não há nada que lhe fuja. “Para quê saltar?”, nem é uma questão que se possa formular, não vale a pena. Não existe nenhuma sessão de perguntas e respostas para tentar adiar o tempo e enganá-lo num desvio qualquer. Fico aqui a vida toda se for preciso e ela vai perceber que a noite ainda cá está. Que há mais um dia que está para nascer e que há muitos mais que podem ser colhidos.

Quando estou longe, fico sempre a pensar o que me leva a regressar e a estar aqui. A permanecer dias e dias a fio sem me afastar, a consumir-me aos poucos. Não percebo muito bem que sentido faz tudo isto. Uma corda que vou cerrando nos dentes e que me aperta a respiração, que torna o meu espaço muito mais pequeno, restringindo-o a um panorama de poucas cores. Mas depois vejo-a chegar e tudo se organiza de novo. Se orienta. O tempo todo renovado a colorir-se. Hoje, quando cheguei e a vi de costas, no meio da noite, com a brisa do vento a moldar-lhe o cabelo, só me apeteceu dizer “Salta!”, e ficar a insistir, “salta, estás à espera de quê, porque tens medo?”, mas logo de seguida olhou para mim meio a sorrir, meio em pânico, e aí eu percebi tudo. Percebi como era falível tudo aquilo que vivemos. O transitório daquilo que se sente e que se veste de coisas vãs, cheias de irrealidade, ao reparar como as pessoas sem perceberem se tornam uma fábula. Ela estava à minha espera. Que lhe desse a mão e saltasse com ela. Compondo à sua maneira o nosso destino privado.

Encosto-me à parede e não oiço nenhum barulho lá em cima, é sintoma de que tudo se acalmou, que o vento se fechou e foi bater noutra janela. Talvez ela tenha entrado, talvez se tenha deitado na cama e adormecido, talvez tenha saltado e fechado a janela depois. Antes de apagar a luz e lavar os dentes. Não gritou por socorro, não se ouviu o bac do corpo a bater no chão. Mas não quero subir para confirmar. Não quero repetir de novo o mesmo filme. Não há sirenes, há apenas o vazio. O que posso descrever é o barulho do frigorífico que rosna baixinho, a dois passos de mim. Nervoso. A querer dizer qualquer coisa, o segredo de toda a história, de tudo o que viu, e sem conseguir deixa-se ficar apenas no ruído. O ressoar do frio a expandir-se no interior, a crescer, a contagiar tudo o que está lá dentro como uma praga. Um flagelo.

Eu não quero que ela salte. Não, eu não quero que ela morra. Quero que ela se recomponha e que fique feliz. Que seja tudo. É só isso. Que seja capaz de suportar qualquer mal. Mas eu já conheço, já sei como é, sei o mundo em que vive e isso não é bom sinal, saber. Ter conhecimento. Posso imaginar, a altura em que ela vai começar a baralhar as drogas todas. A misturar tudo o que tem à mão. A rir-se. A olhar para o espelho e a achar-se ridícula por ser assim. Pretensiosa. Por tomar decisões que não passam disso. De ficar sempre pelo penúltimo passo. À porta. À janela. A dominar-se por fim, porque sabe o que vem a seguir. Sabe todo o caminho que percorreu até lá chegar. E sabe que dali a pouco tempo ela é só uma memória apagada. Um trauma. Nada mais.

Deixei-a sozinha para lhe dar confiança. Para que saiba que acredito nela. Porque faz sempre isso para que eu salte também e eu já estou farto. Cansado de entrar no mesmo jogo em repetição contínua. Eu sei do que está à espera. Que eu diga que sim, que vou saltar. Que abra a janela e desmaie nesse vazio distante que a observa com espanto.

Quando fiquei lá em cima quase a vê-la cair, aproximei-me e peguei-lhe nas mãos, só para a sentir. Já me tinha esquecido como eram. Suaves e finas, com aquela pequena colina que ficou da escrita. Umas mãos compridas que se enrolam nos meus dedos, que me esmagam só de olhar para elas e me algemam. Como se algum dia as pudesse ter esquecido. São elas que me fazem festas de noite, quando durmo, são elas que me despertam para o novo dia. Que me olham de frente e brincam comigo. Ontem senti-as e não abri os olhos. Fiquei a imaginá-las, imitando-as com as minhas. Tornando-me igual.

Queria ter chegado mais cedo e não consegui. Desta vez foi diferente, subi até ao sótão e não perguntei nada. Não perguntei o que se passava. Limitei-me a ver todo aquele oco dentro das pupilas turvas. Duas esferas enormes a rodarem lá dentro, a rodarem mundos diferentes, a horas diversas. Desacertadas. Não abri a boca. Cheguei, lá estava a brisa do vento, os cabelos soltos num desalinho constante, e as mãos. As mãos que deixei sem suporte. Que deixei vazias. O código do cartão que se soltou dos lábios dela, feito com uma combinação de dois números. Como se não houvesse espaço para mais na sua memória que não agarra algarismos, que só guarda imagens. E que não as consegue transpor para palavras, descrevendo-as. Não há nada que consiga traduzir o seu mundo visual. “Levanta o dinheiro todo”, disse-me. “Fica com o meu carro”, o seu grande carro amarelo que eu adorava conduzir. Não disse, “fica comigo”, e eu peguei em tudo, guardei dentro de um saco e saí. Devagar. Desci e fiquei aqui ao pé deste frigorífico, a tentar descodificá-lo. Abismado com os corpos frios que estão lá dentro. Um talho de corpos gelados. Sem sabor.

Sei o que vai acontecer a seguir, porque já estou cansado. Vou subir. Vou chegar-me ao pé dela e dizer-lhe tudo o que quer ouvir. Vou dizer que quero saltar. Vou dizer-lhe que vou dar aquele último passo que ficou esquecido. Vou abrir a janela, se já estiver fechada, e deixo que o vento me afague a cara e me roube um pouco os sentidos. Ainda é noite escura. E talvez salte. O dia está bem longe e se calhar já não vai chegar a tempo. Mas acho que ela vai cair para cima de mim num abraço e me vai dar um beijo. E tudo termina.

[Inspirado em vidas mais ou menos reais. Da série ’35 de Abril’.]

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