Retratos da vida de um homem armado

© Леонид Любимов

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Os pormenores são irrelevantes. A encomenda chega a casa sem qualquer nome e sem remetente. Traz a arma, o dinhei-ro, o local e a hora onde tudo vai acontecer. Só isso. Mais nada. Parece que foi alguém que a trouxe? Não, não foi. Não foi ninguém. Apareceu ali e faz-se o que se tem a fazer.


Silêncio. Cinco segundos, nem tanto. E as vozes prosseguem. Os olha-res seguem-nas.

– Quando ele ia a passar a porta principal do Hotel, eu, que já estava à espera há um bom bocado, tirei a pistola do bolso e disparei. Dei-lhe um tiro e depois outro. Foram dois tiros. Secos!
– E depois?
– Depois… começou a chover. Larguei a arma mais à frente, num caixote do lixo, e fui para casa. Quando lá cheguei fiz um café e sentei-me na cama a ler. É sempre isso que faço. Leio quando chego a casa. É a única coisa que gosto de fazer.
– Quando é que isso foi?
– 18 de Novembro de 1998.
– Tens a certeza?
– Tenho! Era o dia de anos da minha namorada. Esperei que ela chegasse e fomos jantar fora. Num restaurante lá perto. Ofereci-lhe um anel de diamantes, com o dinheiro que me deram. Ainda sobrou.
– Mas quando ele morreu que fizeste? Que aconteceu?
– Não sei, fiz como se não fosse nada comigo. Achei que já estava tudo feito. Virei as costas de imediato e não quis saber de mais nada. Nem sei para que lado ele caiu. Nem me lembro da cara do homem. Só depois, de a ver nos jornais, por acaso. Nunca quero saber. Pouco me importa.
– E quem te encomendou o serviço?
– Ninguém!
– Ninguém?
– Sim, ninguém.
– Então?
– Não sei, é indiferente. Não tinha nome. Recebi uma encomenda em casa, sem remetente, com a arma, o dinheiro e um papel com o local e a hora onde tudo ia acontecer. Só isso, mais nada. Parece que foi alguém que o trouxe? Para mim não foi, não foi ninguém.
– Alguém terá sido…
– Talvez…
– Mas é assim?
– É! Pego naquilo tudo, olho para o relógio e se for ainda naquele dia meto-me no autocarro e vou lá. Nessa ocasião ainda tive tempo para ir à ourivesaria. Gastei o dinheiro quase todo.
– Quanto era?
– Um milhão e meio…
– Num anel para a tua miúda…
– Sim, na altura ela era boazinha, tratava-me bem, e eu gostava dela. Ainda fiquei com umas notas.

Faz-se uma pausa. Depois continuam.

– Obrigado, Senhor Juiz. Não tenho mais nada a perguntar.

E todos se sentam.

[NÃO SE SABE DA SENTENÇA.]