Viagem para lá Lime + Purple

SCROLL

Alguém disse, que alguém disse, que alguém disse, que existia um anúncio que procurava um homem distinto. Um homem que congregasse outros homens, cativando-os e moldando-lhes a alma. Tudo isso com um ordenado sério, apesar de não ser nada por aí além, com contracto a tempo inteiro e perspectiva de reforma. Um chamamento para o futuro, em forma de mentor. Acelera, mas não saí da estrada. E por isso, ao primeiro relance, não há que dizer que não.


Purple já não via Lime há uma série de tempo. Esteve fora uns meses e quando regressou andou a deambular sem destino, por parte incerta. Até que se encontram de novo, sem motivo aparente.

– Lime? – à vista, estava irreconhecível.
– Purple! Há quanto tempo? – talvez um pouco envergonhado.
– És mesmo tu? Que te aconteceu? – olhando-o de mais perto.
– Nada de especial, trabalho agora para uma empresa de marketing. – indeciso.
– A sério? Esse aspecto é para atrair alguém? Não me parece.
– Não é bem isso. Disseram-me para rapar o cabelo. Para deixar crescer a barba. E que depois fosse falar com eles. – diz isto indiferente, observando o ar por cima.
– Então ainda não estás a trabalhar, estás em fase de testes, é isso? – o céu estava escuro.
– Não sei, talvez seja. Disseram-me para deixar crescer esta barba. Assim como esta fotografia, vês? Só que eu já lhes disse que a minha barba não cresce mais do que isto. Fui lá uma vez e eles viram. Chega a este estado e não passa daqui, mesmo que espere cem anos. Depois tem este aspecto grisalho. Não me safo… – Lime não estava garantido.
– Pois não. Está horrível. Estás um verdadeiro monstro. Tu que até tinhas um ar apresentável. Tinhas o teu estilo. As raparigas olhavam para ti. Nem sei o que pareces agora. Um alien!
– Achas? Não tenho reparado muito em mim. Apalpo o queixo de manhã, para ver como isto vai, mas não me olho ao espelho muitas vezes. Tenho andado distraído a pensar noutras coisas. Está assim tão mau?
– Nem te digo. Talvez sejas o homem mais feio do mundo, afinal, e eu nunca tinha pensado nisso.
– É, o cabelo faz-me falta. A minha cabeça tem uma forma terrível. Oblonga. Depois com estas cicatrizes de quando era pequeno, não ajuda. E repara, agora estão a crescer-me estas protuberâncias aqui de lado. Vê lá.

Purple faz uma festa na cabeça do amigo, como que a dar-lhe alento.

– Sim, parecem dois pequenos chifres. Que é isto? São exactamente simétricos. Incrível.
– Não sei. A semana passada não estavam aí. Acho que isso é que entornou o copo. E eles à espera de um guru. Assim não vou mesmo lá. Acho que não vou arranjar este emprego. E com a crise que para aí anda. Vida difícil, Purple, vida difícil… – e os seus dois indicadores esfregam circularmente esses pequenos montículos. Como que a aliviar uma dor sem sentido. Ou a memória de um futuro que terminara ali.
– Não vais não. Estou a ver que não posso estar muito tempo sem te ver. Sem estar por perto. Mas deixa lá o guru. Esquece isso e vem comigo. Vamos beber umas cervejas. Qualquer coisa. Amanhã isso já está melhor.
– Estava na verdade com saudades tuas. Contigo sinto outra confiança. De outra maneira, perco-me e digo que sim a tudo. Fico vulnerável, abusam de mim.

E nisto entram no barbeiro. Um barbeiro com Café. Com tosquia. Com remoção de quistos. Conselho sentimental e internet. Isso tudo num só.

[Lime e Purple são inseparáveis. Juntos, formam um arco-íris.]

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