Romance histórico [versão original]

Esta é uma história perdida, que foi ficando na gaveta e que moveu outras vontades. Os nomes já foram outros. Mas os nomes não têm importância afinal, por pertencerem a gente desconhecida e ficcional. Agora tudo se levante e chega no formato original, assim como foi escrito, sem mais despistes.

A História pede sempre mais branco

Um dia, os homens de um pequeno país sentiram que o mundo era apertado e decidiram alongá-lo, esventrando o desconhecido. Atiraram-se ao mar e deixaram-se ir com os ventos, perdidos no luar das estrelas. Chegaram longe, a lugares inimagináveis, cheios de gente feita de outras matérias. Aí deixaram marca, igualando-se aos nativos em erudição.

Aversão anterior

O conhecimento bebe-se do vazio. O vazio transborda. Aniquila-se de avalanches. Dois por dois. Três por três. Quatro por quatro. Coisa assim. Negra. Mas há o primeiro. Nunca esquecer o primeiro. O ímpar que, sem cópia, não tem par. Horizontes de conhecimento e Convencimómetros™, é do que isto fala. A sério, não me peçam mais nada.

Língua portuguesa [versão estendida]

De Lourmarin a Paris são 700 quilómetros e Albert Camus já comprou um bilhete de comboio de Avignon para a capital. Mas o seu editor insiste para que vá com ele na sua coqueluche fabricada em França com um motor americano V8 de 360 cavalos. Com o escritor, a mulher e a filha do célebre Gallimard. Pelo caminho várias paragens em restaurantes com estrelas Michelin. Mas esta não é a história. O que aqui se trata é de um choque frontal, entre duas línguas.

Declaração Escritos medievais, digestões e pertença

Sou maior de idade e faço declarações. É certo que nasci a trinta e cinco de Abril, em parte incerta, e tenho um estado civil duvidoso, mas já tenho condição para dizer o que penso. Profissão? Alguma, ando de um lado para o outro, faço o que me pedem e às vezes o que não me pedem. Tenho carta de condução e livre e espontânea vontade. Mais alguma coisa?

Os números da taluda

Daqui a uns anos. Talvez cem, talvez mil. Quem sabe mais. O mundo vai dar uma volta. E esta coisa que o habita, com estas máquinas que usa, vai misturar-se numa unidade só, funcionando em parceria e sem mais quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa lá para dentro, para o interior, e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.

Associação Artistas de Plástico Manifesto

Onde há dor e vontade, há também manifesto. É ele que a seu tempo constrói a força da mudança, que liga todo o engenho e o põe em marcha. Devagarinho. Sou de poucas palavras. De poucas ilusões. Mas o sangue também ferve na guelra, e não me cabe a mim vir agora para aqui tirar conclusões. Atiro, sim, o que der e vier.

Nunca vi um Verão assim

Cheguei-me a ele, estava um calor que nunca tinha sentido, e encostámo-nos às arcadas do edifício da Santa Casa, ali bem no coração da cidade, por onde passava uma ligeira brisa. Depois de alguma espera acabou por dizer: “Nunca vais sair daqui. Ficarás nesta terra para sempre.”

Macau, o leãozinho moribundo

Eu cá dava tudo para ver uma coisa qualquer, com um palco a pingar suor e música a valer. Mas eu sou esquisito e não vou em qualquer cantiga. E olho para o lado e penso, estou doente, terei algum problema? Sou só eu? Sim, ao lado não vejo ninguém.

Lições de Fotografia I

Isto é tudo teoria, porque na prática é bem diferente. E quando se tem de fotografar uma corrida em que os homens usam animais, em que o que a rodeia é um charco de lama, já se sabe onde vamos parar. Por isso nada de planos.

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