Das coisas que me esqueço

Por uma vez queria entrar pela janela. Queria que o flagelo da noite deixasse de crepitar e me levitasse com ela. Entro pela janela. Olho em redor. As coisas pequenas ficaram. As grandiosas desapareceram.

Velouria

Nunca se começa uma história com a frase “Ia no meu BMW”. Mas isto não é literatura. Não é nada. É apenas uma aversão a uma vida com os fios entrelaçados, quase sempre trocados e sem cor definida. A matéria cinzenta, os remoinhos, as suposições, os choques. De alguém desconcertado. Por isso, é assim que este texto começa. Por aí, em roda livre. Mas não se diz, salta-se para o lado de fora. Para o esquecimento. Com o acorde Che.

Nunca vi um Verão assim

Cheguei-me a ele, estava um calor que nunca tinha sentido, e encostámo-nos às arcadas do edifício da Santa Casa, ali bem no coração da cidade, por onde passava uma ligeira brisa. Depois de alguma espera acabou por dizer: “Nunca vais sair daqui. Ficarás nesta terra para sempre.”

Cavalos de ferro

A narrativa cresce à medida do espaço em redor, que espera. Nesse breve trecho cria um impasse onde se transtorna e progride, reformulando o seu ADN; enquanto arranca a pele toda de uma cidade. No próximo vento, há alguém que desaperta as sandálias e se põe a fugir, abandonando a sela da sua herança. E é só isto que podemos observar. Os santos populares.

O radical livre

A coisa não é para menos. Estamos nos primeiros dias do ano e os rubis estão à espera. É uma longa história. De aiaineses, criptões e uinãos. Não, não queiram ler. Não é sobre o Uzbequistão, se querem saber. Nem Las Vegas. E daqui não levam nenhum segredo. Ainda se põem para aí aos tirinhos. Mas fica o aviso: Russell não é para meninos!

Cores proibidas

Não é rumba. Não é tango. Não, também não é samba, nem o twist. O que é, afinal? Uma orquestra de câmara? Um baile de salão, os loucos anos trinta? Nem canto gregoriano é. Fado também não. Bolero, mango, merengue. Nem por sombras. Mas tem cor. Escorre das paredes e ferve por entre o sangue da alma. E é isso que vale. Quase sempre.

Em caso de incêndio não usar o elevador

Eu gosto de experimentar, de ver, de saborear. De apreciar o corpo todo. Porque é quase sempre uma questão de corpo, não é? Mas também de olhar, sim. Também de olhar. E há os cabelos que voam. Os gemidos. Os beijos que se perdem e essas coisas todas.

Roy Batty

Roy Batty, o último Replicant para além de mim. Fomos concebidos para durar pouco. Quatro anos no máximo. Mas por alguma vertigem que me escapou da fuselagem continuo aqui. Não está cá mais ninguém. Roy foi o último a partir. Sem grito e sem dor. É dele que agora me prolongo. Perdido nesta imortalidade que me habita. Onde não há saída.

O número errado

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um urso, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?”, repeti eu, espaçadamente, várias vezes.

A autoridade da concorrência

Queria começar por dizer ao que venho. Só pela simples vontade de revelar. De acender o isqueiro e deixar a chama correr. Não há copa de árvores. E os grilos já se foram. Mas por mais pequena que se faça a luz. Por mais escasso que seja a essência do pensar. Há um começo lá ao fundo. Uma origem.

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