Olhar para um palácio

Gramodog © Ben Chen

SCROLL

A História, mesmo turva a rolar por becos e veredas, merece sempre ser contada. Cheguei ao território de Macau há demasiado tempo. Tudo passou de repente. As caras, os factos, as viagens. O que resta é o quotidiano, que se repete a cada minuto, incessante, com a mesma cadência. Como um rosto que se adivinha com a teimosia de quem olha sempre para um palácio.


Fecho os olhos e vejo o sossego a passar lá atrás. A pairar demasiado longe. No alto. Um ínfimo vazio que se vai enchendo em pequenos tragos. Muito lentamente. Aos poucos a imagem a querer ver-se reconstruída e a conquistar a realidade. A verter-se nela.

E agora é ela que diz.

O ondular da água azul-turquesa, limpa e transparente, sobre o chão de areia branca. Deixado a reluzir na espessura de três ou quatro metros. Um fulgor quieto. Podia mesmo dizer que sorria, a areia no fundo do mar, com todo o nosso espanto. Ou com o dos peixes. Por cima, talvez a trezentas braçadas da praia, uma plataforma feita de troncos de madeira escura. Imóvel. Mesas, cadeiras, um bar numa das extremidades e a sombra dentro de um copo gelado. Calor, sol, um céu imenso, com o horizonte a circular todo o olhar. O tempo em suspenso cercado de encanto por todos os lados. O centro do mundo. A semente de uma era.

Era preciso ter a certeza, para ser fidedigno, mas basta-me a ideia. Tinha de abrir a arca, ver as fotografias e o que restava de tudo isso – os diários de bordo – para juntar todas as peças do puzzle. Mas não será fundamental. Acredita-se assim.

Esse botequim aquático tinha o nome de um bairro em Honolulu, ou qualquer coisa parecida. A ilha ficava no meio do Oceano Índico, lugar remoto em que se podia ir apenas de barco. Depois da escolha de uma viagem, com origem na capital, o aperto fazia-se dentro de um táxi-aéreo de quatro lugares que se entornava com o vento. Lugar no tempo em que se ficava refém. À espera da liberdade que chegava numa inesperada suave aterragem.

Foi assim a minha ida para a maternidade.

Longe, naquela plataforma, sem sobressaltos e sem dor, assentava o lugar do meu nascimento e, com um pestanejar, o berço retirado daquele alicerce. Espanto, por perceber como naquela fórmula, de um momento para o outro, o antecedente deixava de existir. Tudo ficara compresso. Não havia noção de factos, datas ou acontecimentos. Susto, pelo indício de como uma criatura podia fulminar assim o edifício que estava para trás. Não recordava os dias passados nem as imagens que tinha ao espelho. Tudo implodira. Ficara sem rosto e sem o registo, perdera a lembrança, mas tinha ganho uma identidade. E para a frente tudo era limpo. Ou assim era de supor.

Meses antes, três anos depois de ter chegado ao Território, apenas com um bilhete de ida, decidi regressar à Pátria. E o processo repetiu-se. Deixei o meu emprego, preparei a bagagem e disse adeus àqueles com quem convivia. Desta vez, só não tinha a família. Os meus colegas fizeram-me um jantar, juntaram-se e ofereceram-me uma prenda. Um relógio, para eu não os esquecer. Para não chegar atrasado. Ninguém no fundo estava triste ou contente. Na verdade parecia que estávamos todos a brincar às despedidas e que aquilo tudo era um prelúdio para coisa nenhuma. E foi. Porque mesmo depois da viagem marcada, duas vezes adiada, alguma coisa me ferrou ao calor desse Verão e fui ficando. Para sempre. E ainda bem, porque se tivesse regressado nessa altura não poderia dizer agora que alguma vez tivesse vivido no Território. Porque não tinha até então. Tinha simplesmente passado. Em delírio. Uns tempos.

Sem esforço arrastei-me até ao fim desse ano e até ao seguinte na promessa de um futuro melhor. Nos primeiros meses deu-se o meu nascimento, nesse interregno no Oceano, como quem vai a um hospital no estrangeiro, arrancar uma hérnia ou tratar uma rotura. E experimenta o período mais feliz da vida adulta. É certo, uma criança nunca se lhe compara. E voltei. Quer dizer, cheguei como se fosse pela primeira vez. Refeito. Com tudo para acontecer.

À minha espera estava um posto no Palácio. Nas funções que me estavam destinadas estava incumbido de seguir o último autor do Território, para todo o lado. O topo da militância. Tinha de registar, com o meu olhar e um mecanismo de prensa, todo o trajecto de despedida até à saudação final. Até ao derradeiro minuto. A última luz do Império. A Pátria deixava o Território ao bater do final do século e eu tinha caído dentro do caldeirão. Não levava a bandeira ao peito. Estava num país distante e o mundo não acabava ali. Prosseguiria.

Era o final da festa. Um ano depois, a cada passo e a cada encenação, no mesmo acto de sempre, as coisas aconteciam pela última vez. A História vestia-se, despindo-se. No Palácio tinha um lugar ao pé dos livros, junto às estantes de madeira escura da biblioteca. Uma agenda, um horário. Quando as senhoras estavam fora o F, colega chinês, juntava mais uns H’s a todas as palavras feias que a língua portuguesa é capaz de regurgitar e falava de mulheres sem parar. Sorvendo-lhes o corpo. No dia-a-dia, a comitiva do General espalhava-se pelos quatro cantos da cidade, deslocando-se a todas as ocorrências. Os aniversários, os actos comemorativos, as reuniões. As visitas às obras, aos asilos e às instituições. As inaugurações, as recepções presidenciais, as discussões, as missas e, o que se tornou uma formalidade, os funerais. Temos quentes, aqueles. A lembrar o botequim além-mar. Num deles, à queima roupa, o corpo defunto a sair da cerimónia já como encomenda postal: “Este lado para cima!”

Mas acima de tudo era uma época festiva e os jantares e as festas repetiam-se com toda a comunidade. Toda a gente bebia e todos regressavam a casa de outra cor, apertados no seu pequeno táxi-aéreo de um lugar só. “Você faz parte do grupo de pensar, não é verdade?” – ouvia-se nas apresentações de cumprimentos quando alguém se ia embora. Era mais uma peça esquecida de um xadrez nunca utilizado a brincar às despedidas. Click! A sala verde, a sala amarela, a assembleia. Os jardins. Os ódios de estimação, aqui e ali, os bons e os maus, os portugueses e os chineses. Os jornalistas, os telefonemas para a televisão. “Isto sim, isto não. Isto nunca”! O sorriso nos dentes.

Tudo a acontecer, sem tempos de espera, sem plataformas. Sem árbitros. Foi assim até ao dia final. Uma folia. A preparar o futuro. A lista de contactos, a restauração dos quadros que regressavam como cromos de banda-desenhada. A recolha dos discos rígidos. O medo, que uma criatura viesse e fulminasse – assim! – o edifício. Os arquivos. As fundações. Tudo faria falta num futuro promissor que se prolongava para a Pátria, depois da transferência de poderes. Da troca do testemunho.

Momento único.

A poucos se pode conceder essa experiência em que a História se torna terra de ninguém. Um palco em que os actos que se seguem não vêm escritos em parte alguma. Não há argumento. Vai-se para a frente, a resvalar o passo, tanto de modo intuitivo como emotivo. Pelo observar das nuances da escuridão, à procura de uma lanterna. Ou pelo grito dos pássaros. No ondular do mar tantas vezes navegado. Ou a areia no fundo do mar que sorria, com o espanto dos peixes. Ou com o nosso. Nos primeiros momentos do dia 20 de Dezembro de 1999, enquanto o General abandonava o Território, nos edifícios públicos os símbolos patrióticos eram depostos com efusão. Como se a espera tivesse sido longa demais. E a justiça, num registo ficcionado, de anos de diferenças, finalmente se estivesse a desenhar, pelas mãos das gentes que ficaram ao leme dos desígnios da sua própria terra. Ainda em volta do desrolhar do champanhe.

Essa foi a primeira linha que se escreveu de modo espontâneo com o coração ainda quente e com a esponja da celebração na mão. Derrubava-se a realiadade. “Nós somos isto. Isto já não é o que era. Mudou”! Era a vontade de dizer, de andar para a frente. Desta vez sem as mãos que lhes tinham sido dadas, durante quase quinhentos anos. Mas durou pouco, esse riscar. A insistência na aglutinação ao grande continente, mesmo aqui ao lado. A diferença, a herança, era verdadeiramente o que ficava, como bandeira do território. Como feito encantador. O sabor da Pátria, que já não era.

Na derradeira noite, fui até ao último passo, só para averiguar. Não precisava de fechar os olhos para ver a imagem a ser desconstruída e ver o despejar do copo. O mar escuro. A areia preta. Os carros negros em efusão, um frio de rachar, uma da manhã – hey! – e a plataforma do prelúdio de coisa nenhuma. Semelhança maior deve ter-se registado com o Maia depois de deixar o Marcelo no avião a caminho do Brasil, na ressaca do longínquo Dia de Abril. Pensando enquanto acendia um cigarro.

“E agora, que já está?”

Mas no Oriente o derradeiro plano tinha sido desenhado à risca, para a conquista de outro espaço. Desenho para coisa nenhuma, que durou muito pouco. Apertado dentro de um táxi-aéreo, os direitos do Grande-autor cercaram-se de desencanto. No encalço, o tapete mágico deixara de funcionar e sem os cordelinhos para mover a máquina já não havia nada a fazer, a não ser esperar. Nem o magnata dos casinos podia salvar a fábula, ou toda a falta de transparência ou de confiança. Há quem lhe chame simples amizade. A um conto de reis.

Alguns dos que ficaram, no que lhes era seu hábito – e continua a ser -, sem rancor, esperaram para ver para que lado se entornava o vento e desse ponto, ainda no ar, prosseguir para o desenho apertado da aterragem no melhor destino. Na areia mais branca.

Mas o gosto ficou insonso. Dos factos ficou uma angústia. Do divórcio com o passado faltou o desfecho. E quando o General, escovado para a sua quinta em Alcácer Quibir, deixa apenas os rumores de uma anedota mal contada, nessa gente, sedenta de festas e cheia de autonomia, ficou o ínfimo sentimento de abandono, por entre os troncos de madeira escura de uma certa consciência pesada. Sem vazio. Nem os relógios serviram para reavivar a lembrança de cada um, porque não funcionaram. Eram feitos lá ao lado. Como os livros de História que que não se fizeram. Porque já não existia. Como todo o passado do qual não se falava mais. Apenas o F ficou na sua língua especial, a dizer tudo o que sabia sobre as mulheres. Que nunca viu. Que nunca provou.

“Órfãos”, foi a palavra em que pensei, quando dez anos depois me vejo na mesma situação. A carregar o meu botão de prensa e a seguir de novo o General, sem tirar nem pôr. O tempo antigo de outrora todo ali à minha frente. Sem hiatos. Descomprimido na noção dos factos, nas datas e nos acontecimentos. O mergulho no mar. Um enorme espanto pelo indício de como alguém, de rompante, continuava a fulminar assim todo o presente. A fazer recordar os dias passados e todas as imagens que existiam nesse espelho.

O rosto e o registo.

Ganhava a lembrança mas, num segundo, perdia-se a identidade. “Quem somos, para onde vamos e de onde viemos?” Questões se iam no reluzir de um abraço. Sem o azul-turquesa, sem o fundo do mar e o chão que não parava quieto. Sem sol, sem céu, com todo o horizonte dentro do olhar. O fim do mundo nos excedentes de uma era.

Aqui, neste pequeno bairro de Honolulu. Dias depois, passei por uma agência de viagens para comprar um bilhete de ida. Mas disseram-me que a plataforma já lá não estava, que tinha vindo um tufão e a levara, sem aviso prévio, sem jantares de despedida. Sem tic-tacs. Assim fico. Por mais uns tempos. Só para confirmar que talvez não valha a pena.

E isto sou eu que digo, não é para contar a ninguém.

[Memória Indulgente #2 • Publicado no jornal Hoje Macau, numa versão ainda pior do que esta • ABRIL de 2010]