Veneno de rato

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Se me perguntam: foi na cozinha. A abrir o frigorífico. Eu a olhar lá para dentro, como sempre, quando a imaginação escasseia. Tu agarrada ao televisor, também para não variar. Ainda senti o zumbido do congelador, uma luz a reluzir, os vegetais a mudarem de tom, e num pequeno “ai” já não estou ali. Depois veio outro. Com o Everest, o Moisés, o meu chefe cheio de fruta e um mês nas Molucas, por cima do teu cabelo.


A parte de que me lembro melhor, aquela que arrastou todo o destino atrás, foi o instante em que tive o meu primeiro ataque cardíaco. Coisa incrível. Uma sensação híbrida. Num momento só, uma trepidação pelo corpo todo. E a consciência súbita de que a minha vida de repente tinha ficado virada ao contrário, presa por um fio, deixando-me ali, de pernas para o ar.

Foi na cozinha, se alguém quiser saber, a abrir o frigorífico. A olhar lá para dentro, como sempre, quando a imaginação não tem mais nada para dar. E tu agarrada ao televisor, para variar. Ainda senti o zumbido do congelador, uma luz a reluzir, os vegetais a mudarem de tom. E num pequeno “ai” já não estou ali.

Devias estar sentada no sofá. Nem seria preciso confirmar, se tivesse podido. Hipnotizada com a novela ou a quinta das tuas celebridades. Ou essas porcarias que estás sempre a ver.

E aquilo!

Um aperto no coração, forte. Um espeto que vai e que vem num só compasso. Em tudo igual àqueles que se agarram à carne e a penduram, como no talho. A estocada de um toureiro, foi o que devo ter imaginado. Eu que não sou nada de touradas.

Nem piei.

Depois: “Sónia!”, chamei. Ou penso que chamei. E tu nada. “Sónia…”

Não ia gritar por socorro. Coisa ridícula. Mas fiquei no chão da cozinha ainda a pensar um segundo ou dois, de olhos bem abertos. Totalmente vítreos. Leite no soalho, um chinfrim de brócolos atrás da minha cabeça e os restos do dia anterior espalhados por ali fora, como se tivessem saltado de mim, pela minha pele. Regurgitados com o enjoo da trepidação cardíaca. Devo ter desmaiado. Mas nesses instantes consegui lembrar-me de um email que tinha recebido há tempos. Que se deve tossir quando se tem um ataque cardíaco. A tosse mantém a bomba a trabalhar e não a deixa explodir de imediato. Fica ali ainda em stand by como um relógio. E começo a tossir, a tentar pôr-me de pé.

E tu da sala: “João, páras com isso? Já me começas a irritar. Não consigo perceber nada.”

Começava sempre a irritar-te, por tudo e por nada, só por não perceberes o que o apresentador estava a dizer. Ou os belos artistas da TV. Areia demais para a tua camioneta.

“Sónia, tive um ataque cardíaco, por favor, leva-me ao hospital! Chama uma ambulância!”. Isto pelo meio da tosse. A parecer uma frase muito longa, imperceptível, sem sentido.

“Estás engasgado? Bebe um copo de água. Agora não posso, deixa-me em paz!”, eu deixava-te sempre em paz, era o que nos valia.

Não parava de tossir e tu a pores a televisão mais alto. “João, já chega, por favor!”

A minha sorte, disse o médico mais tarde, o que me salvou a vida, foi ter pensado rápido e ter continuado sempre a tossir, deixando a operação triunfo a correr, sem mudar de canal. E ter resolvido descer até à rua e apanhar um táxi. Ia meio em pijama, ainda de chinelos, a tossir que nem um pateta.

“Hospital, depressa!”, e não me lembro de mais nada.

Sei que te ligaram e tu ficaste surpresa por saberes que eu estava no hospital, se mesmo agora estava ali na cozinha sem nada para fazer. Sei que me deram uns choques eléctricos porque tinha o peito a ferver – e a fumegar! – como se tivesse passado pela torradeira. Deve ter sido mesmo à última que a vida me trouxe de volta.

Vinhas chateada, quando apareceste, e um pouco desarranjada, como se te tivessem tirado do meio de um pesadelo ou do sofazinho. Mas ainda disseste, “Oh João, também me pregas com cada uma. Como é que te foste lembrar de ter um ataque cardíaco no meio da rua? Que mania a tua!”

Não te expliquei, não valia a pena. Tudo te tinha passado ao lado. Lá em casa.

Fiquei uns dias ainda no hospital e tu nem me vieste ver. Disseste que estavas muito ocupada. Falávamos ao telefone. Parecias simpática.

“Estás melhor, João? Quando voltas para casa?”, e desligavas.

Não me deixavas responder. Ou se ainda respondia, já não te interessava muito. Ou se te interessava era como se não interessasse. Já não estavas lá. Olhar para as tuas unhas era mais importante.

Os miúdos e a minha família vieram ver-me. E os Amigos. Estiveram sempre comigo e, mesmo assim, foram uns belos dias. Sabes, nunca te disse, mas sempre tive uma panca por enfermeiras. Do emprego mandaram-me cartões e flores, e o meu chefe ainda me veio ver uma vez ou duas. Simpático, com o seu cestinho ao ombro cheio de chocolates e um termo de chá, a dar-se a esse trabalho, quando tem sempre tanto para fazer.

“Sónia? Cheguei!”

Não estavas em casa. Às vezes, de noite, ausentavas-te. Dizias que ias comprar qualquer coisa. Cigarros ou a pílula, porque te tinhas esquecido. E nunca mais aparecias. Quer dizer, aparecias às tantas e enfiavas-te na cama depois de tomares um duche. Mas o teu cabelo, que tu não lavavas porque àquela hora não estavas para o secar, cheirava a qualquer coisa estranha. Acre. Cheirava a veneno de rato, pensava eu. Eu ouvia-te mas não dizia nada. Ficava ali a sentir a tua respiração por cima da minha, cada vez mais ausente. Eu a achar que te ia dar um treco. Vinhas ofegante e de repente nem um pio. Ficavas para lá. Do outro lado da cama.

E sei lá que coisas tínhamos pelo meio. Um mundo inteiro. Cidades e serras. Mares secos por nunca terem sido navegados, com os barcos espetados na terra. Torpedeiros e contratorpedeiros. As espinhas todas dos peixes a fazerem de cordilheiras. Montanhas, vales, ainda os desertos sem ninguém lá a morar. E uns camelos, aqui e ali, que ruminavam sem parar. Ver-te era uma coisa impossível.

Era assim o nosso leito. No nosso lar doce lar.

Às vezes, entre nós, dava para observar toda a história da Bíblia. Como um jogo de futebol, uns de lá, outros de cá. O Moisés, o número 10, a entrar pelo Mar Vermelho e o Messias, o 12, a despejar o alcatrão e a fazer uma estrada, sozinho, coitado, para ele passar. Com os animais do Noé, que nunca aparecia, cheios de indolência, em rebanhos mais atrás. E o Abraão. A Mesopotâmia, o Tigre e o Eufrates. Canaã. Isso tudo entre nós. E ainda o Everest. Do teu lado, uns homenzinhos com um sorriso que lhes ardia nas mãos ao tentarem subir. Muito devagar. Cheios de esforço mas com muita vontade e força. Engraçado, como se podia ver os nevões e as tempestades, mas não se sentia o frio e, do lado de cá, podia assoprar e fazer mais vento e criar avalanches. Quando eles chegavam lá acima com os fósforos na mão ainda lhes dava um piparote que iam quase parar ao teu colo. O Monte Everest, pobrezinho, mesmo ali à mão.

Era assim que passávamos as nossas noites. Quando acordavas, eu já tinha ido para o emprego. Saía sempre à mesma hora para me dar tempo de ler o jornal no café e saber o que se passava. E era sempre tanta coisa que quando chegava ao trabalho levava o tempo de um lado para o outro, a falar alto.

“João, tenho de ir comprar uns cigarros, já volto!”

Eu a abrir a porta do frigorífico. O congelador ainda ali em temperatura constante, o mesmo frio de sempre. Cheio de nevões e de homenzinhos a fumar, a esfregarem as mãos e a conversarem. Todos à espera do Noé que não havia meio de chegar.

“O Noé, pá, já veio? Disse que estava cá às nove e já são onze e meia, é sempre a mesma coisa.”

E sentavam-se ali a esperar, na borda dos restos do mês anterior, enquanto faziam umas fogueiras.

Um dia disseste que ias para a Tailândia, fazer voluntariado. Tinhas-me preparado durante a semana com essa história toda. Como se fosse preciso. Nunca falaste tanto comigo como nesses dias, se calhar mais do que nos anos todos em que vivemos juntos. E ainda foram alguns. Era uma associação que ajudava os desprotegidos, dizias, que todos os anos lá ia dar uma mãozinha.

“Coitados, João!”

E tu, generosa como és, também achaste que devias ir. Ficaste lá quinze dias. Chegaste com outra cor. Bronzeada. Gira. Cheia de compras. E eu, tanto tempo ali à espera, a tratar-me no cardiologista. Quando chegaste nem me deste um beijo. Ainda me trouxeste uma camisa, que até era engraçada. Mas quando agarrei nela, um cheiro qualquer, de camisa de alguém, de uma ratazana, às risquinhas, que nunca a consegui vestir. Está para ali no guarda-fato. E acredita, o fedor, talvez com medo, foi fugindo para a outra roupa, como os homens na nossa cama que subiam o Everest, com os animais do Noé a alisar a terra. E agora não consigo vestir mais nada. Ando só com esta coisa que parece um fato de macaco.

Mas depois, pouco depois, nem chegou a uma semana, deu-me o segundo enfarte.

“É desta!”, pensei.

Os miúdos tinham ido de férias para casa dos avós, era Páscoa – que sorte! – e tu tinhas ido comprar a pílula, a segunda vez em três dias. É verdade, o médico também me disse que tinha tido uma boa atitude, que se não tivesse sido isso teria lerpado. O que foi é que por essa altura tinha recebido uma outra mensagem por correio electrónico, cheia de letras gordas, a dizer que se devia tomar duas aspirinas quando se tem um ataque cardíaco. E eu, com medo de tossir, porque da outra vez tinha sido à rasquinha, lembrei-me disso.

Devo ter ficado azul, porque não me consegui mexer durante uma data de tempo, tinha só uns piquinhos nos pés, e quando cheguei ao armário dos remédios, ainda o Noé não tinha aparecido, só havia uma aspirina. “Merda!”, como tinhas ido à farmácia ainda te liguei, “Sónia, traz-me aspirinas, por favor, estou a sentir-me mal!”

Mas atendeu outra pessoa – o Noé? – e não ouvi mais nada. Mas foi com uma aspirina que me safei. Telefonei para as emergências, disse o que se tinha passado e fiquei à espera a mastigar devagarinho, a fazer durar o comprimido na boca o tempo que fosse preciso, como se fosse a dobrar. Que se lixe o coração, devo ter pensado, não é mais forte do que eu. Devia estar sentado, com calma, dizia ainda a mensagem electrónica, se me deitasse ia com um piparote para o outro lado e não era decerto para o teu colo. E aguentei-me.

Nem esperei que me fosses visitar. Porque não foste. Nem me lembrei disso por causa do espanto das enfermeiras. E foram uns belos dias. O meu chefe a trazer-me fruta fresca. Dois meses e tal. E baixa de mais um mês numa estância turística nas Molucas. Não quiseste vir. Porque quando cheguei a casa, “Sónia?”, tinha um bilhetinho a dizer que tinhas deixado os putos em casa da tua mãe e que ias para o Monte Everest. Não foi necessário explicar mais nada. A associação, pois. O dança comigo. O Noé!

Nessa noite, quando fui para a cama, preparei a coisa toda. Deitei-me, fechei os olhos e esperei. O Moisés já lá estava em cima a respirar devagarinho por causa da altitude e dos mandamentos. Um nevão, uma avalanche, uns relâmpagos que trouxe do hospital, agarrados ao peito. Isso tudo era o que te esperava. Mas, pelo contrário, deixei-me dormir, coisa que nunca tinha feito naquela cama, porque estava sempre cheia de gente e de porta-aviões. E em vez disso, sonhei. E ao sonhar nunca mais acordei. Essa coisa toda, parece-me agora, foi há muitos anos.

Hoje passo os dias com o homem da Arca e estou melhor assim. Ele conta-me histórias de animais, delira com a maneira de os inventar, e gastamos todo o nosso tempo nisso, sem nos preocuparmos se alguém está à espera. Sei que não nos vês, mas na verdade é como se vivêssemos na floresta do teu cabelo, porque às vezes consigo ouvir-te. Abres o congelador e perguntas:

“João?! Estás aí?”

E entras.

[Escrito em 2009, da colecção “As Marquesas”]