Venho apenas dizer-te adeus

© Nicholas Swanson

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Matusalém, figura bíblica do Antigo Testamento, que teria sido filho de Enoque e o avô de Noé, é geralmente conhecido por ser a personagem com mais idade de toda a Bíblia, tendo vivido 969 anos, sendo que o ano de sua morte coincidiria com a ocasião do Dilúvio, o que é apenas um cálculo aritmético já que o dilúvio ocorreu quando Noé tinha 600 anos. No livro apócrifo de Enoque, Matusalém vai pedir explicações ao seu pai devido ao facto de lhe ter nascido um neto estranho e diferente de todos o que havia visto até então. E isto é o que profere a enciclopédia. Falta o resto.


Foi dito. As histórias dos outros sem o sabermos e por as escutarmos tantas vezes, sem haver remédio, tornam-se nossas. Nesse processo transformam-se em acontecimentos que vivemos. Reais. Com sabor e com dor. Sem lenda e sem grandes sigilos. Coisas a sério, coisas de verdade, muito vividas e que nos fervem na pele. No final, toda a nossa história é um pesadelo do qual ainda não acordámos. Agora é preciso saber se é o nosso se o da pessoa da qual tanto ouvimos falar.

Acredito mesmo assim que o que vou contar a seguir se tenha passado comigo, mas é por uma certa necessidade e pela satisfação que isso me dá. Porque é uma história bonita. Sei muito bem que, por regra da cronologia, não era eu. A certeza do tempo torna-a impossível em mim, se na verdade o nosso hábito é olharmos para os anos passar. Se é isso que mais nos importa. Embora, noutra forma e noutro contexto, poderia realmente ter sido eu, o protagonista. E serei, se a conjunção se repetir. E no entanto, não deixa de ser uma história minha, da qual nunca irei despertar. É o que sei. É o que digo.

É provável também que muita gente vá ficar a achar que não ligo às coisas nobres, aos actos heróicos de um povo, que levam muitas vidas e muitas palavras escritas a conquistar. Mas que posso eu fazer? A vida não nos traz consenso pela opinião dos outros. Procuramos caminhos no escuro, a absorver o conhecimento por entre os espinhos do tacto, a sangrar de vez em quando. Abrimos terreno ao desbarato, por nada que se tenha experimentado antes. É isso. E mesmo que nos ensinem, mesmo que venha tudo explicado nos livros, só o sabemos quando a coisa nos está a percorrer o corpo, e nessa altura talvez já seja tarde demais. Mesmo que se possa considerar que tudo não passa de um interruptor, que se pode desligar e voltar a acordar, não há grande volta a dar. O mundo já mudou.

A coisa aconteceu noutra época. Elevou-se num dia como hoje, um dia com os mesmos algarismos, num mês com as mesmas letras. A desenhar os parágrafos de uma vida transportada aos ombros de alguém, sempre com certa indiferença e com muito pouca glória. Nunca percebi muito bem o que me era ele a mim. Se um parente próximo, se afastado, se nem isso. Frequentava com avidez a nossa casa, como nós frequentávamos os lugares onde ele se encontrava. O café, o jardim, o museu e, mais tarde, quando eu tinha idade para isso, os banhos públicos. Ele escrevia-me muito. Contava-me com incomparável génio todas as particularidades dos factos. Muitas vezes em bilhetinhos. Porque dessa maneira, com a diplomacia da escrita, conseguia iluminar cada um dos seus passos. E eu era um óptimo interlocutor, porque lhe respondia cheio de curiosidade e fazia-lhe nascer a dúvida. Para mim, ele era um profeta a viver na estação errada. Por tudo isso, por vir das profundezas de outra era, das profundezas de mim. E também pela maneira como andava vestido. Desconhecendo o seu cartão de eleitor, chamavam-lhe Matusalém. Era assim que o seu nome vinha nos jornais e nos telepontos das televisões. As senhoras jamais se esquecerão da sua voz, que tanta companhia lhes fez, ao deambular pela rádio no famoso “À Noite com Matusalém”, um programa que fazia esquecer o sono e a própria vida. Se alguém sabia o seu verdadeiro nome, não contou a ninguém.

Mas se calhar, para que se perceba de quem estou a falar, é melhor passar-lhe o microfone, um pouco pelo meio dos seus escritos, num diário que consegui comprar num alfarrabista, anos depois do seu desaparecimento, e que ainda guardo comigo. Andamos pelo final dos anos sessenta, quando o Homem se preparava para ir lanchar à Lua.

«Este país, que começa com a mesma letra do que aquelas mulheres que se vendem, não é bom sinal. Este país está cheio de interferências. É difícil de apanhar. Não tem sintonia. Há por aí umas gentes a querer mudá-lo. E mudar para quê? Mudar como? Se quem fica são sempre os mesmos. Podem mudar de casa, talvez, de emprego, de prisão. Mas um país, com rios e montanhas, com animais a pastar pelos campos, faz-se de pessoas. É essa a música que o compõe. Agora, ou levavam este bando todo para a Lua e trocavam pelos que lá estivessem, ou não estou a ver grande diferença.»

Eu não assisti a isso. Não sei dizer. Sei do que ouço e do que leio. Muitas pessoas dizem que o Homem na Lua foi uma fantochada. Outras não. E há filmes com eles aos saltos, em câmara lenta a fingirem que não existia gravidade. Só para o boneco. Mas já ninguém sabe onde estão esses filmes, nem as máquinas de filmar. O que sei é que da Lua não trouxeram mais ninguém. Nada mudou. As pessoas continuaram a apanhar o centeio. Aqui deste lado.

Mais à frente, tenho uma polaroid da porta de uma casa de banho assinalada por baixo com a frase “Matusalém esteve aqui!”, com uma data ainda da mesma década. Fui eu que a tirei, a fotografia, muitos anos depois, quando encontrei o resto de uma das frases ainda visível no café de um bairro típico da capital:

«Só essa palavra – Política – me dá vontade de estar aqui mais tempo», a sua assinatura terminava com um pequeno foguetão, com muito fumo em volta.

Isto era na altura em que ele ainda detinha alguma lucidez. Em que ainda se interessava. Ao dobrar da década seguinte já o despertador se tinha estragado. Andava por lá, sim, com toda a gente, com os cantores de intervenção que se perdiam pelas cantigas de Maio, bem como com os polícias internacionais que se ocupavam da defesa do Estado. Para ele era tudo parte da mesma corporação de astronautas. Os que compunham o cenário do seu pesadelo. Que era, sem sombra de dúvida, um grande dilúvio.

«Perguntaram-me, assim que saí de casa, se não ia para lá. Para lá para onde? Quis responder. Mas já todos tinham desaparecido. Passei a manhã a andar ao longo do rio, longe do centro. Vi barcos cinzentos iguais aos das batalhas navais. E uns barulhos de pessoas aos gritos aqui e além, como se fosse um dia qualquer. Mas não. Não era um dia como os que já tinham passado. Vi alguns dos meus semelhantes que fugiam, de pastinhas na mão, com os papéis a voar pelo Terreiro. E ao subir, vi um matagal. Um silêncio primeiro, depois cantos. Homens e mulheres com o sorriso da bebida no rosto. Aos abraços, aos beijos. Raparigas seminuas com bandeiras na mão que tomavam a bastilha. Dos rapazes. E soldados, para cá e para lá, de cigarrinho ao canto da boca. Coisas à cintura. Uns de um lado, outros do outro, à espera que algum bebesse o primeiro golo. De penálti. E a maior chatice é que no Largo estava uma gritaria de morte, palermas nas árvores de megafone na mão a quererem chamar a Lua, outros a olhar para lá, e todo o espaço do chão sem uma nesga. Não se conseguia passar. A porra toda é que tinham fechado o café e eu, que só ia tomar um branquinho pela manhã, par ver se a coisa acalmava, dou com aquilo tudo a acontecer. Escusado seria estar a gritar mais do que eles só para que me deixassem passar, para bater na porta de vidro, e entrar. E ficar descansado. Deu-lhes também na ideia andar a cravar as espingardas com flores. Como quem pinta um quadro. Abandonado o local da fervura, fui descendo. A cidade estava toda de pantanas. E eu sem querer saber porquê.»

Isto escreveu-me ele quando o seu pesadelo já se aproximava do fim, numa das suas longas cartas. Não sei se aquilo era tudo indiferença se era puro desinteresse pelas questões da nação e pelas pendências dos outros, que de nenhum modo eram as suas. Por não ter escolhido viver naquele meio acabaria por ter uma existência oculta e incorpórea. Daí ter passado a um estado radiofónico onde apenas a sua voz perdurava pelo estontear de velhas senhoras que, no meio das suas noites, misturavam as suas palavras doces nas lãs do tricô e com elas faziam lindas camisolas para os netos.

«Passou-se alguma coisa, eu sei. Porque os dias começaram a escurecer mais tarde. Os prados ficaram mais verdes. E apareceram cantigas que não conhecia de lado algum. As mulheres estão mais descaradas. Mas o país não mudou de nome. Começa ainda com a mesma letra. A das mulheres que vão para a rua vender-se. E isso já quer dizer tanto. A partir de hoje a nação terá outro título.»

Era assim que o seu programa nocturno começava, sem variação, noite após noite. Não creio que alguma vez lhe tenha chamado tio. Ou mesmo pai. Dizia “Olá”, e quando dávamos por isso já a conversa ia longa. Matusalém, desde o tempo dos foguetões, tinha ido parar à sua própria lua, era essa a amplitude do seu cosmos. Embora se orgulhasse de celebrar o contrário. Que todas as pessoas do mundo, do seu pequeno país, da sua minúscula rua, do museu onde passava os domingos, tinham ido para lá das estrelas e o que restava era apenas uma escuridão por acender. Um filme cómico com o qual se divertia ao microfone da telefonia. No final, num canal de província. A transformar as suas histórias nas dos outros. Cheias de paladar e de feridas. Sem segredos. Sem mitos. Das quais nunca poderemos acordar.

Mas se ainda assim tivermos dúvidas – da existência dos factos – temos aí as enciclopédias. Para ajudar. Para que não nos deixem mentir.

[Isto talvez tenha sido publicado num jornal da diáspora, no dia 25 de Abril de 2008, Mais coisa menos coisa]