Das coisas que me esqueço

Por uma vez, queria entrar. Queria que o flagelo da noite deixasse de crepitar e me levitasse com ele. Entro pela janela. Olho em redor. As coisas pequenas ficaram. As grandiosas desapareceram.

Língua portuguesa [versão estendida]

De Lourmarin a Paris são 700 quilómetros e Albert Camus já comprou um bilhete de comboio de Avignon para a capital. Mas o seu editor insiste para que vá com ele na sua coqueluche fabricada em França com um motor americano V8 de 360 cavalos. Com o escritor, a mulher e a filha do célebre Gallimard. Pelo caminho várias paragens em restaurantes com estrelas Michelin. Mas esta não é a história. O que aqui se trata é de um choque frontal, entre duas línguas.

Dois mil e quarenta e oito [com WKW]

Há um ponto no tempo que marca o destino. Um momento preciso. Segundo exacto em que o indivíduo, que até aí vivia o quotidiano reservado na sua lotaria, regressa ao passado. Retorna para remendar as malhas da sua história. Uma por uma até unir de novo o fio condutor que o traz de volta ao ponto de partida. Não há como evitá-lo. É um facto e está à espera de toda a humanidade. Lá mais à frente.

O urso maior Lime + Purple

Há sempre uma esperança. Em guarda. Não tão vã como isso. De uma plenitude sem retorno. Que nos espreita. Que nos vigia. Que nos alimenta o espírito. Como uma luz apagada.

E ali estava ela

Não, não ia olhar para trás. Não queria saber de mais nada. Nem conseguia ouvir o que quer que fosse. E naquela altura só a sintonizei por engano. Estava prestes a sair fora do seu alcance. Da sua rede. A minha mala vermelha na mão esquerda, o casaco por cima do braço. Até sempre!

O radical livre

A coisa não é para menos. Estamos nos primeiros dias do ano e os rubis estão à espera. É uma longa história. De aiaineses, criptões e uinãos. Não, não queiram ler. Não é sobre o Uzbequistão, se querem saber. Nem Las Vegas. E daqui não levam nenhum segredo. Ainda se põem para aí aos tirinhos. Mas fica o aviso: Russell não é para meninos!

Cascos de rolha

Não contar a ninguém. Não falar. Sobre a faixa invertida. Esquecer. Perder a lembrança. Apenas o marco abstracto, aqui. E a lonjura. Como um ponto perdido. Para voltar a um qualquer início. Não, voltar não. Ir. Por um breve instante. Ao primeiro degrau. E voar.

O número errado

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um urso, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?”, repeti eu, espaçadamente, várias vezes.

Salmões Satânicos II

Depois de tanto tempo presos no Grande Livro, duas mãos cheias de gente solitária dirigem-se para um quarto, onde o seu mestre está prestes a deixar a vida. Tudo tem o seu feitio. O nervoso Caim, remoendo sempre a sua inquietude. Paulo, com o seu BI falso depois de uma longa travessia pelo deserto. Judas, o mais próximo. Moisés, com a sua única e desconhecida paranóia. Quanto aos outros, é preciso entrar. Para ver.

Exército de Kamikazes

A neve não pára de cair. As nuvens não deixam de passar. Há um céu azul por todo o lado. Ursos brancos a rodopiar. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde numa terra santa. Não se sabe se é um telefonema ou uma forma de pensar, de ligar à consciência. Que quer dizer a água em flocos, alguém consegue explicar? Um chamamento divino? Ou será apenas a bateria a ficar fraca?

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