O Fadista

Talvez aconteça com todos. O desespero também é capaz de ajudar. Não estamos realmente prontos para a mudança. É como ter um filho, só damos conta disso quando chegamos lá. Quando a nova vida existe e o mundo se abre para um novo patamar, sem retorno. Mesmo que nos contem não sabemos como é. Sim, podemos imaginar, mas não é a mesma coisa. E a partir daí, é sempre para a frente. Sem medo.

Retratos da vida de um homem armado

Os pormenores são irrelevantes. A encomenda chega a casa sem qualquer nome e sem remetente. Traz a arma, o dinheiro, o local e a hora onde tudo vai acontecer. Só isso. Mais nada. Parece que foi alguém que a trouxe? Não, não foi. Não foi ninguém. Apareceu ali e faz-se o que se tem a fazer.

Declaração Escritos medievais, digestões e pertença

Sou maior de idade e faço declarações. É certo que nasci a trinta e cinco de Abril, em parte incerta, e tenho um estado civil duvidoso, mas já tenho condição para dizer o que penso. Profissão? Alguma, ando de um lado para o outro, faço o que me pedem e às vezes o que não me pedem. Tenho carta de condução e livre e espontânea vontade. Mais alguma coisa?

Os números da taluda

Daqui a uns anos, o mundo vai dar uma volta e esta coisa que o habita, com estas máquinas que usa, vai misturar-se numa unidade só, funcionando em parceria e sem quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa para o centro, o centro da Terra, e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.

E ali estava ela

Não, não ia olhar para trás. Não queria saber de mais nada. Nem conseguia ouvir o que quer que fosse. E naquela altura só a sintonizei por engano. Estava prestes a sair fora do seu alcance. Da sua rede. A minha mala vermelha na mão esquerda, o casaco por cima do braço. Até sempre!