Associação Artistas de Plástico Manifesto

Onde há dor e vontade, há também manifesto. É ele que a seu tempo constrói a força da mudança, que liga todo o engenho e o põe em marcha. Devagarinho. Sou de poucas palavras. De poucas ilusões. Mas o sangue também ferve na guelra, e não me cabe a mim vir agora para aqui tirar conclusões. Atiro, sim, o que der e vier.

Nunca vi um Verão assim

Cheguei-me a ele, estava um calor que nunca tinha sentido, e encostámo-nos às arcadas do edifício da Santa Casa, ali bem no coração da cidade, por onde passava uma ligeira brisa. Depois de alguma espera acabou por dizer: “Nunca vais sair daqui. Ficarás nesta terra para sempre.”

Pelos gritos

O solo a dez metros de outro solo. Que treme à passagem do rodado. Alcatrão, ferro, coisas armadas. O uivo de um novo bicho que rasga o pequeno horizonte. Solavancos. O redor tempestivo, das festas. E a tua mão a voar sobre elas. Por entre a minha boca aberta.

Cascos de rolha

Não contar a ninguém. Não falar. Sobre a faixa invertida. Esquecer. Perder a lembrança. Apenas o marco abstracto, aqui. E a lonjura. Como um ponto perdido. Para voltar a um qualquer início. Não, voltar não. Ir. Por um breve instante. Ao primeiro degrau. E voar.

Toshiba Zoom JK-TU52H

Dionísio, o Exíguo (ou o Humilde), foi um monge do séc. VI, nascido na Cítia Menor (em 470), no que é actualmente a região da Dobruja. Membro da comuna de monges da Cítia, em Roma, e versado em matemática e em astronomia, celebrizou-se na criação de tabelas para calcular a data da Páscoa, levando ao uso do conceito de Anno Domini, o Ano do Senhor.

Salmões Satânicos II

Depois de tanto tempo presos no Grande Livro, duas mãos cheias de gente solitária dirigem-se para um quarto, onde o seu mestre está prestes a deixar a vida. Tudo tem o seu feitio. O nervoso Caim, remoendo sempre a sua inquietude. Paulo, com o seu BI falso depois de uma longa travessia pelo deserto. Judas, o mais próximo. Moisés, com a sua única e desconhecida paranóia. Quanto aos outros, é preciso entrar. Para ver.

A ilimitada fé do incrédulo

O mecanismo do Esconderijo foi estudado com profundidade e perde-se a toda a ocasião. No espaço. No tempo. Não se sabe ao certo. É uma obra prima sem traço ou cunho visível. Quem vem carrega o abismo como um desejo, eliminando o seu próprio rasto. Quem sabe da existência deste lugar segue apenas um impulso, a agitação de uma frequência. É isso que os traz. É isso que os leva.

Eufuribundo

Lá ao fundo, a trezentos metros, um trânsito intenso a aguardar no semáforo. Autocarros de dois andares e de três. E em quatro segundos a avançarem para o precipício do vulto que tinha deixado no meio da avenida. Que não via nem olhava. Porque não tinha por onde ver nem olhar. E por isso não era visto. Mas mirava de soslaio na minha direcção. A troçar de mim.

Exército de Kamikazes

A neve não pára de cair. As nuvens não deixam de passar. Há um céu azul por todo o lado. Ursos brancos a rodopiar. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde numa terra santa. Não se sabe se é um telefonema ou uma forma de pensar, de ligar à consciência. Que quer dizer a água em flocos, alguém consegue explicar? Um chamamento divino? Ou será apenas a bateria a ficar fraca?

O crime organizado

A luz chegava negra e trémula ao planalto, Cheia de indolência, a roçar a casca da minha árvore. Finalmente completo. Finalmente vazio. O Buda no sorriso dos Himalaias. A ser reconhecido. A povoar a imaginação com o aulido dos coiotes, na esperança da infinita sabedoria. Câmaras por todo o lado. Interrogatórios. Um Ulisses. Ali. Perdido da sociedade civil. Enquanto deixava de ser gente.

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