Os números da taluda

Daqui a uns anos, o mundo vai dar uma volta e esta coisa que o habita, com estas máquinas que usa, vai misturar-se numa unidade só, funcionando em parceria e sem quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa para o centro, o centro da Terra, e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.

Nunca vi um Verão assim

Cheguei-me a ele, estava um calor que nunca tinha sentido, e encostámo-nos às arcadas do edifício da Santa Casa, ali bem no coração da cidade, por onde passava uma ligeira brisa. Depois de alguma espera acabou por dizer: “Nunca vais sair daqui. Ficarás nesta terra para sempre.”

Cavalos de ferro

A narrativa cresce à medida do espaço em redor, que espera. Nesse breve trecho cria um impasse onde se transtorna e progride, reformulando o seu ADN; enquanto arranca a pele toda de uma cidade. No próximo vento, há alguém que desaperta as sandálias e se põe a fugir, abandonando a sela da sua herança. E é só isto que podemos observar. Os santos populares.

Cores proibidas

Não é rumba. Não é tango. Não, também não é samba, nem o twist. O que é, afinal? Uma orquestra de câmara? Um baile de salão, os loucos anos trinta? Nem canto gregoriano é. Fado também não. Bolero, mango, merengue. Nem por sombras. Mas tem cor. Escorre das paredes e ferve por entre o sangue da alma. E é isso que vale. Quase sempre.

Roy Batty

Roy Batty, o último Replicant para além de mim. Fomos concebidos para durar pouco. Quatro anos no máximo. Mas por alguma vertigem que me escapou da fuselagem continuo aqui. Não está cá mais ninguém. Roy foi o último a partir. Sem grito e sem dor. É dele que agora me prolongo. Perdido nesta imortalidade que me habita. Onde não há saída.

A minha lista

Faltam pessoas que não falem nem chinês nem português. Que originem na sala de reuniões o bizarro enleio da tradução, mas que vivem em Macau e têm o gosto e a visão do outro lado da montanha.

Sandocã

Já não falta muito e não há mais nada a fazer. Creio que me vou embora. O que aconteceu já foi. Teve o seu termo. Agora é tudo vão. Infiltrações. Degraus perdidos. Ruídos de fundo. Uma mordaça. Na cidade que já nada me diz e que vou abandonar. Antes que se faça tarde.

O Rembrandt

Um carro vermelho estacionado no meio da estrada. Dois homens. As portas que devem ser fechadas depois de abertas. Não eles. Sol radiante. Uma brisa. Ainda assim, o cheiro de algum mar distante vindo do banco de trás da viatura. E o sonho por se fazer.

Adeus

Conta até dez, se te pedirem. Podes até fechar os olhos, até lá, se quiseres. Depois já sabes. Não há mais nada que possas fazer. É preciso seguir em frente. Sempre. Só o esquecimento te poderá salvar.