Dia dois

Silvo no ar, sem distâncias. Aqui e ali. Chamo-me Tina. Mas há quem me chame apenas A. Estou aqui e quero contar o que se passa. Estejam quietos, por favor.

Lady Grinning Soul

“Lady Grinning Soul” is a ballad written by David Bowie, which is the final track on the album Aladdin Sane, released in 1973. The composer’s first meeting with American soul singer Claudia Lennear in 1972 is often cited as the inspiration for the song.

Em caso de incêndio não usar o elevador

Eu gosto de experimentar, de ver, de saborear. De apreciar o corpo todo. Porque é quase sempre uma questão de corpo, não é? Mas também de olhar, sim. Também de olhar. E há os cabelos que voam. Os gemidos. Os beijos que se perdem e essas coisas todas.

O número errado

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um urso, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?”, repeti eu, espaçadamente, várias vezes.

Veneno de rato

A primeira vez foi na cozinha, a abrir o frigorífico. O reluzente da luz fria por trás das coisas que se compram e que um dia esperamos comer. Uma coisa vaga que veio a tremelicar num só instante, nem deu tempo para respirar. Tu sem tirar os olhos do televisor, claro. Ainda senti um zumbido, um reluzir luminoso, os vegetais a mudarem de tom, e num pequeno “ai”… fui-me. Depois veio outro. Com o Everest, o Moisés, o meu chefe cheio de fruta e um mês nas Molucas, por cima do teu cabelo.

Almoço de recados

Uma personagem de um tempo antigo, este moço de recados. Dizia coisas da boca para fora. Aviava os outros mas mal fazia o que lhe mandavam. Tinha veneno na guelra e seguia sempre pelo seu caminho, sem deixar de olhar para um lado ou para o outro, sempre que uma barreira lhe ocupava a progressão. E assim se foi fazendo.

Mulheres tããão violentas

Ainda queres a cama? Já vem a caminho. Fui eu que a fiz. Espera tenho uma nova surpresa. Estava só à espera de uma oportunidade para dizer. Deixas-me falar? Ou não é preciso? Posso fazer tudo por gestos. É mais giro. E grito, também. Sem falar. Posso? É tudo assim, sem fôlego.

Amanhã submerso

A realidade existia, já tinha sido formada, mas a imagem que lhe correspondia, a verdadeira, só foi escrita na impressão do primeiro encontro. Uma rua, o caminho errado, o regresso. Depois, tudo se apaga. Um mundo novo. A voz, o olhar, os passos. E volta a escrever-se. A imagem que se risca, assim que é vista. Com novos nódulos, novas cores, novas fórmulas. Até chegar a autoridade e tomar conta da ocorrência. Mas foi assim que aconteceu.