A descoser os lábios de uma ferida Lime + Purple

Tempo morto. Por usar. A espera por tudo aquilo que faz falta. A exactidão por preencher. Quantos dias mais? Quantas brasas por queimar a precisar de chama? Sempre a vontade e a sintonia no mesmo pranto. “E agora?”, dizes tu.

Declaração Escritos medievais, digestões e pertença

Sou maior de idade e faço declarações. É certo que nasci a trinta e cinco de Abril, em parte incerta, e tenho um estado civil duvidoso, mas já tenho condição para dizer o que penso. Profissão? Alguma, ando de um lado para o outro, faço o que me pedem e às vezes o que não me pedem. Tenho carta de condução e livre e espontânea vontade. Mais alguma coisa?

Os números da taluda

Daqui a uns anos, o mundo vai dar uma volta e esta coisa que o habita, com estas máquinas que usa, vai misturar-se numa unidade só, funcionando em parceria e sem quebras. Sem mais atrasos. E depois? Depois tudo passa para o centro, o centro da Terra, e não é preciso mais nada. Este é um texto premonitório de uma memória que absorve tudo. A memória indulgente.

Dois mil e quarenta e oito [com WKW]

Há um ponto no tempo que marca o destino. Um momento preciso. Segundo exacto em que o indivíduo, que até aí vivia o quotidiano reservado na sua lotaria, regressa ao passado. Retorna para remendar as malhas da sua história. Uma por uma até unir de novo o fio condutor que o traz de volta ao ponto de partida. Não há como evitá-lo. É um facto e está à espera de toda a humanidade. Lá mais à frente.

Venho apenas dizer-te adeus

Matusalém, figura bíblica do Antigo Testamento, que teria sido filho de Enoque e o avô de Noé, é geralmente conhecido por ser a personagem com mais idade de toda a Bíblia, tendo vivido 969 anos, sendo que o ano de sua morte coincidiria com a ocasião do Dilúvio, o que é apenas um cálculo aritmético já que o dilúvio ocorreu quando Noé tinha 600 anos. No livro apócrifo de Enoque, Matusalém vai pedir explicações ao seu pai devido ao facto de lhe ter nascido um neto estranho e diferente de todos o que havia visto até então.

Cavalos de ferro

A narrativa cresce à medida do espaço em redor, que espera. Nesse breve trecho cria um impasse onde se transtorna e progride, reformulando o seu ADN; enquanto arranca a pele toda de uma cidade. No próximo vento, há alguém que desaperta as sandálias e se põe a fugir, abandonando a sela da sua herança. E é só isto que podemos observar. Os santos populares.

Pelos gritos

O solo a dez metros de outro solo. Que treme à passagem do rodado. Alcatrão, ferro, coisas armadas. O uivo de um novo bicho que rasga o pequeno horizonte. Solavancos. O redor tempestivo, das festas. E a tua mão a voar sobre elas. Por entre a minha boca aberta.

Eufuribundo

Lá ao fundo, a trezentos metros, um trânsito intenso a aguardar no semáforo. Autocarros de dois andares e de três. E em quatro segundos a avançarem para o precipício do vulto que tinha deixado no meio da avenida. Que não via nem olhava. Porque não tinha por onde ver nem olhar. E por isso não era visto. Mas mirava de soslaio na minha direcção. A troçar de mim.

Exército de Kamikazes

A neve não pára de cair. As nuvens não deixam de passar. Há um céu azul por todo o lado. Ursos brancos a rodopiar. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde numa terra santa. Não se sabe se é um telefonema ou uma forma de pensar, de ligar à consciência. Que quer dizer a água em flocos, alguém consegue explicar? Um chamamento divino? Ou será apenas a bateria a ficar fraca?