Língua portuguesa [versão estendida]

De Lourmarin a Paris são 700 quilómetros e Albert Camus já comprou um bilhete de comboio de Avignon para a capital. Mas o seu editor insiste para que vá com ele na sua coqueluche fabricada em França com um motor americano V8 de 360 cavalos. Com o escritor, a mulher e a filha do célebre Gallimard. Pelo caminho várias paragens em restaurantes com estrelas Michelin. Mas esta não é a história. O que aqui se trata é de um choque frontal, entre duas línguas.

Velouria

Nunca se começa uma história com a frase “Ia no meu BMW”. Mas isto não é literatura. Não é nada. É apenas uma aversão a uma vida com os fios entrelaçados, quase sempre trocados e sem cor definida. A matéria cinzenta, os remoinhos, as suposições, os choques. De alguém desconcertado. Por isso, é assim que este texto começa. Por aí, em roda livre. Mas não se diz, salta-se para o lado de fora. Para o esquecimento. Com o acorde Che.

O radical livre

A coisa não é para menos. Estamos nos primeiros dias do ano e os rubis estão à espera. É uma longa história. De aiaineses, criptões e uinãos. Não, não queiram ler. Não é sobre o Uzbequistão, se querem saber. Nem Las Vegas. E daqui não levam nenhum segredo. Ainda se põem para aí aos tirinhos. Mas fica o aviso: Russell não é para meninos!

O número errado

Um carro a passar, uns travões quaisquer, o grito de um pássaro ou de um animal parecido. Um urso, por exemplo. E o fio da chamada a ficar solto, desta vez sem o silvo habitual. “Estou?”, repeti eu, espaçadamente, várias vezes.

Exército de Kamikazes

A neve não pára de cair. As nuvens não deixam de passar. Há um céu azul por todo o lado. Ursos brancos a rodopiar. Um ambiente espiritual de último grau. Uma cena de fim de tarde numa terra santa. Não se sabe se é um telefonema ou uma forma de pensar, de ligar à consciência. Que quer dizer a água em flocos, alguém consegue explicar? Um chamamento divino? Ou será apenas a bateria a ficar fraca?

Almoço de recados

Uma personagem de um tempo antigo, este moço de recados. Dizia coisas da boca para fora. Aviava os outros mas mal fazia o que lhe mandavam. Tinha veneno na guelra e seguia sempre pelo seu caminho, sem deixar de olhar para um lado ou para o outro, sempre que uma barreira lhe ocupava a progressão. E assim se foi fazendo.

O Rembrandt

Um carro vermelho estacionado no meio da estrada. Dois homens. As portas que devem ser fechadas depois de abertas. Não eles. Sol radiante. Uma brisa. Ainda assim, o cheiro de algum mar distante vindo do banco de trás da viatura. E o sonho por se fazer.

Mulheres tããão violentas

Ainda queres a cama? Já vem a caminho. Fui eu que a fiz. Espera tenho uma nova surpresa. Estava só à espera de uma oportunidade para dizer. Deixas-me falar? Ou não é preciso? Posso fazer tudo por gestos. É mais giro. E grito, também. Sem falar. Posso? É tudo assim, sem fôlego.

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